'Paul quem?'
Na semana passada [21/8], falei de artistas e personalidades que, ao morrer, têm seus "legados", ditos eternos, rapidamente esquecidos . Citei o caso de Ary Barroso, o compositor que, durante 30 anos (1930-60), ditou a lei na música popular brasileira e cuja obra está hoje "fora dos palcos, das telas, das prateleiras, das páginas dos livros e da memória do Brasil". Instiguei o pessoal a lembrar outros e não me surpreendi ao ver que tantos gigantes não foram sequer citados. Leia mais (08/29/2026 - 08h00)

Jornalista e escritor, autor das biografias de Carmen Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues, é membro da Academia Brasileira de Letras
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Na semana passada [21/8], falei de artistas e personalidades que, ao morrer, têm seus "legados", ditos eternos, rapidamente esquecidos . Citei o caso de Ary Barroso, o compositor que, durante 30 anos (1930-60), ditou a lei na música popular brasileira e cuja obra está hoje "fora dos palcos, das telas, das prateleiras, das páginas dos livros e da memória do Brasil". Instiguei o pessoal a lembrar outros e não me surpreendi ao ver que tantos gigantes não foram sequer citados.
O leitor Hermes Yali, endossando minha preocupação, contou a reação do astro Dustin Hoffman ao lhe dizerem que seu lugar na história do cinema "já estava garantido". Hoffman respondeu: "Não tenho qualquer ilusão sobre isso. Quem se lembra hoje de Paul Muni?". "Paul quem?", perguntarão muitos. Muni (1895-1967), astro de filmes como "Scarface" (1932) , "O Fugitivo" (1932), "A História de Louis Pasteur" (1935), "Emile Zola" (1936), "Juarez" (1938) e outros, foi, em termos de interpretação, talvez o maior ator da Hollywood de seu tempo. Mas, quando se fala hoje daquela Hollywood, ele já não é ninguém diante de Cary Grant, muito mais lembrado pelos historiadores.
Muni foi o ator mais poderoso da Warner, o único que podia escolher papéis. Quando o chateavam, pegava seu chapéu e ia fazer teatro em Londres ou Nova York. Tal independência pode explicar a aversão dos estúdios a ele e o fato de ter sido apagado. Sua citação por Dustin Hoffman não foi ocasional. Dustin claramente considera Muni seu modelo como ator, aquele que o ensinou a fazer o mais difícil: desaparecer dentro dos papéis que interpreta. E se conforma com a certeza de que, um dia, seu nome também desaparecerá.

Não estou propondo que os jornais e sites fiquem falando todo dia do pessoal das antigas. Gostaria apenas que seus filmes, canções, discos, livros, quadros, cartuns ou o que tenham produzido continuassem ao alcance das gerações que os sucederam.
Na verdade, já estão ao alcance de todos —na internet. Só falta aos usuários saber que eles existiram.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ruycastro/2026/08/paul-quem.shtml.

O ator Paul Muni em cena de "Scarface, a Vergonha de Uma Nação" (1932) - Divulgação · Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo
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