Brasil

    Paternidade paternalista

    A partir de 2027, a licença-paternidade no Brasil sobe de 5 para 10 dias , chegando a 20 dias em 2029. Para além da ampliação escalonada do afastamento, a mudança também determina que o benefício seja pago pela Previdência Social , nos mesmos moldes do salário- maternidade . Leia mais (08/10/2026 - 16h30)

    Folha de S.Paulo
    10 de agosto de 2026 às 19:30
    Paternidade paternalista
    Palma de uma mão masculina voltada pra cima ampara uma maozinha de bebê — Foto: Folha de S.Paulo

    Economista-chefe do Banco BoCom BBM e professora do departamento de economia da PUC-Rio

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    Obrigatoriedade no exercício da licença dos pais que pode tornar a política eficaz para mudar normas sociais - Ruslan Galiullin /Adobe Stock · Ruslan Galiullin /Adobe Stock
    Obrigatoriedade no exercício da licença dos pais que pode tornar a política eficaz para mudar normas sociais - Ruslan Galiullin /Adobe Stock · Ruslan Galiullin /Adobe Stock — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A partir de 2027, a licença-paternidade no Brasil sobe de 5 para 10 dias , chegando a 20 dias em 2029. Para além da ampliação escalonada do afastamento, a mudança também determina que o benefício seja pago pela Previdência Social , nos mesmos moldes do salário- maternidade .

    O afastamento remunerado e custeado pelo Estado aumenta os incentivos para que a licença seja exercida —já que o afastamento do pai deixa de gerar ônus para as empresas —, mas não garante que ela de fato aconteça.

    No caso da licença-maternidade, a preocupação com pressões externas para que a mulher não se afaste, e com o próprio bem-estar do bebê, tornou o direito das mães indisponível e irrenunciável. A proteção paternalista transformou o direito das mães em obrigação. Resta saber se essa mesma lógica vai se aplicar à licença dos pais.

    Não é claro, entretanto, que tornar a licença obrigatória para os pais seja inequivocamente desejável —assim como não era, no caso das mães. A obrigatoriedade retira a liberdade de decidir como dividir o tempo entre o trabalho e o cuidado com o recém-nascido —escolha que, em tese, cada casal está mais bem posicionado para fazer sozinho.

    Mas a evidência sugere que é justamente essa obrigatoriedade no exercício da licença dos pais que pode tornar a política eficaz para mudar normas sociais, especialmente as de gênero. Em diversos países, o direito ao afastamento já existe no papel tanto para pais quanto para mães, mas segue sendo exercido quase exclusivamente pelas mães.

    É nesse sentido que a experiência mais informativa vem da Dinamarca , que em 2022 reformou sua licença parental para reservar exclusivamente ao pai uma cota antes repassável à mãe, ampliando-a de duas para 11 semanas.

    Apesar de a cota não ser de exercício obrigatório, acabou funcionando como se fosse: é um período que, se o pai não usar, a família simplesmente perde. Como resultado, os pais passaram a tirar quase quatro semanas a mais de licença após a reforma.

    Tão relevantes quanto as mudanças de comportamento no exercício da licença foram as mudanças de crenças. Houve queda na concordância com a ideia de que criança pequena sofre se a mãe trabalha em tempo integral, e redução na diferença percebida entre a capacidade de mães e pais de cuidar de bebês.

    A mudança também ajudou a reduzir as desigualdades de gênero. O diferencial de renda entre os pais caiu o equivalente a 14% da penalidade de gênero ligada à parentalidade, e a mudança de crenças, somada à realocação do cuidado, respondeu por quase toda essa redução.

    A obrigatoriedade se mostrou essencial porque o efeito sobre as crenças só aparece depois que o pai de fato tira a licença —e não quando o direito passa a existir no papel. É a experiência de cuidar sozinho de um recém-nascido, por semanas seguidas, que reformula a crença sobre quem é capaz de executar esse trabalho. Sem a obrigatoriedade, muitos pais não teriam vivido esta experiência.

    Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha

    Nada disso veio sem custo. A satisfação das famílias dinamarquesas com a divisão da licença caiu de cerca de 90% para a faixa de 50% a 60% após a reforma, e boa parte reclamou da perda de liberdade de escolha. O mesmo costuma acontecer com outras mudanças de regras, como o cinto de segurança obrigatório, a proibição de fumar em ambientes fechados e a lei seca.

    São mudanças impopulares de início, mas que passam a ser normalizadas depois. O paternalismo tem custos, mas também gera benefícios: mudanças de normas sociais enraizadas só se tornam possível quando o Estado assume, por um tempo, a decisão sobre a licença dos pais.

    LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Na página Colunas da Folha você encontra opinião e crônicas de colunistas como Mônica Bergamo , Elio Gaspari , Djamila Ribeiro , Tati Bernardi , Dora Kramer , Ruy Castro , Muniz Sodré , Txai Suruí , José Simão , Thiago Amparo , Antonio Prata e muito mais.

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/cecilia-machado/2026/08/paternidade-paternalista.shtml.

    Imagem 1

    Obrigatoriedade no exercício da licença dos pais que pode tornar a política eficaz para mudar normas sociais - Ruslan Galiullin /Adobe Stock · Ruslan Galiullin /Adobe Stock — Foto: Folha de S.Paulo

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)