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    Passaporte socioambiental tenta proteger agro brasileiro de nova barreira da UE

    O governo federal criou um passaporte socioambiental para tentar impedir que exportações do agronegócio brasileiro sejam travadas pela União Europeia , às vésperas da imposição de novas regras pelo bloco para impedir a compra de produtos ligados a áreas de desmatamento ilegal. Leia mais (09/19/2026 - 11h00)

    Folha de S.Paulo
    19 de setembro de 2026 às 14:00
    Passaporte socioambiental tenta proteger agro brasileiro de nova barreira da UE
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    Brasília O governo federal criou um passaporte socioambiental para tentar impedir que exportações do agronegócio brasileiro sejam travadas pela União Europeia , às vésperas da imposição de novas regras pelo bloco para impedir a compra de produtos ligados a áreas de desmatamento ilegal.

    Trecho da polêmica BR-319, estrada que liga Manaus a Porto Velho e considerada indutora de desmatamento ilegal e grilagem de terras por ambientalistas - Henrique Santana - 09.dez.25/Folhapress · Henrique Santana - 09.dez.25/Folhapress
    Trecho da polêmica BR-319, estrada que liga Manaus a Porto Velho e considerada indutora de desmatamento ilegal e grilagem de terras por ambientalistas - Henrique Santana - 09.dez.25/Folhapress · Henrique Santana - 09.dez.25/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A ideia é que esse passaporte, que oficialmente leva o nome de Rasoe (Relatório de Análise Socioambiental para Operações de Exportação), passe a reunir informações ambientais, fundiárias, territoriais e trabalhistas de propriedades rurais e possa ser apresentado a compradores estrangeiros como prova da origem dos produtos.

    Na semana passada, o documento teve sua resolução publicada pela Camex (Conselho Estratégico da Câmara de Comércio Exterior). A medida faz parte da preparação brasileira para a entrada em vigor da Lei Antidesmatamento da União Europeia , conhecida pela sigla em inglês EUDR, que passará a impor novas condições para a importação de produtos agropecuários pelo bloco.

    A lei europeia passa a valer em 30 de dezembro deste ano para grandes e médias empresas e em 30 de junho de 2027 para micro e pequenas empresas. A regra se aplica a comerciantes que colocam produtos no mercado europeu. Os importadores terão de provar, por meio de rastreabilidade e coordenadas geográficas, que a produção respeitou a legislação do país de origem.

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    Embora a obrigação legal recaia sobre as empresas europeias, produtores e exportadores brasileiros terão de fornecer as informações exigidas para evitar que suas cargas sejam recusadas.

    A nova legislação tem, portanto, impacto direto em produtos como soja, carne bovina, café, cacau, madeira, borracha, óleo de palma e centenas de derivados dessas matérias-primas.

    Para vendê-los na União Europeia, as empresas terão de demonstrar que a produção respeitou a legislação do país de origem, ou seja, do Brasil, e que não veio de área desmatada depois de 31 de dezembro de 2020, data de corte estabelecida pelo bloco europeu.

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    Caberá ao importador europeu saber de qual área saiu cada produto que comprar. As punições previstas para quem desrespeitar a regra incluem apreensão de produtos, proibição temporária de comercialização, restrição de acesso a financiamento público e impedimento de participar de licitações na Europa .

    O passaporte ambiental pretende facilitar esse trabalho. Em vez de o produtor ou exportador buscar documentos em vários órgãos, a chamada "Plataforma Agro Brasil + Sustentável", administrada pelo Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária), passa a fazer o cruzamento automático de bancos de dados federais.

    Serão consultadas informações do Incra, Receita Federal, Ministério do Meio Ambiente , Ibama, Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, Serviço Florestal Brasileiro, Funai, Ministério do Trabalho e Emprego e Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, além de cadastros administrados pelo Ministério da Gestão e da Inovação.

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    O relatório identifica a propriedade, a área total do imóvel, o espaço usado para produzir a mercadoria, a localização geográfica dessa área e os números dos cadastros rurais. Também inclui um arquivo com o polígono da área produtiva e um código para verificar a autenticidade do documento.

    Ao final da análise, o governo informa se encontrou violações federais que possam impedir a venda e se a área foi atingida por bloqueio ou desmatamento após dezembro de 2020.

    A União Europeia é um dos principais mercados do agronegócio brasileiro. Dados dos ministérios das Relações Exteriores e da Agricultura apontam que o bloco compra cerca de 50% do café exportado pelo Brasil, 15% da soja e 20% da madeira.

    As vendas brasileiras ao bloco, considerando todos os produtos, somaram US$ 49 bilhões (R$ 250 bilhões) em 2025. A nova regulamentação europeia pode afetar cerca de 36% de tudo o que o Brasil exporta para a região.

    Desde 2023, representantes brasileiros mantêm rodadas de negociação com a Comissão Europeia para tentar reduzir custos, esclarecer os critérios e apresentar os sistemas nacionais de monitoramento ambiental, em postura crítica à imposição das regras.

    A estratégia definida pelo governo é adaptar os exportadores, mas sem admitir que a exigência europeia seja legítima.

    Uma nota do Ministério da Fazenda é clara sobre o tema. "O reconhecimento do Rasoe constitui instrumento de transparência e facilitação de comércio, e não reconhecimento da legalidade ou legitimidade do EUDR enquanto medida unilateral", afirma a área técnica da Fazenda.

    O passaporte socioambiental não será uma certificação completa da regularidade da propriedade, ou seja, não se trata de uma chancela do governo assumindo a responsabilidade pelo produtor.

    O que o relatório faz é informar o que foi encontrado nas bases federais consultadas e, a partir disso, sinalizar se a propriedade está em conformidade com as leis brasileiras. O documento, portanto, não substitui a responsabilidade do exportador, do importador europeu e dos órgãos que interpretam cada informação.

    Durante a preparação do documento, o próprio Ministério do Meio Ambiente pediu que o governo trocasse o verbo "atestar" a regularidade das propriedades por "informar" sobre a sua situação.

    A Fazenda destacou que o relatório tem natureza informativa e apenas consolida e comunica informações oficiais preexistentes.

    Em resposta à Folha , o Ministério das Relações Exteriores declarou que o documento "já está operacional e seu acesso é gratuito para os produtores rurais".

    "A emissão do Rasoe reforça ainda mais o compromisso do Brasil, tanto do seu setor produtivo quanto do governo, com relação à transparência e sustentabilidade da produção agropecuária brasileira. O relatório reforça a confiabilidade dos operadores de comércio em relação à excelência na qualidade e ao cumprimento de elevados padrões ambientais e sociais da produção brasileira", disse o Itamaraty.

    Segundo a pasta, o documento oferece "um retrato da propriedade rural no que se refere aos requisitos socioambientais constantes de bases de dados públicas do governo federal", como cadastro fundiário e ausência da lista de empregadores que tenham submetido pessoas a condições análogas à escravidão.

    "A produção do relatório foi resultado de importante esforço governamental, com o apoio de 14 ministérios na elaboração desse importante instrumento de política comercial", informou.

    O Mapa afirmou que "o serviço foi desenvolvido para apoiar produtores rurais, exportadores e demais agentes das cadeias produtivas" e que sua "expectativa é ampliar a transparência e a organização das informações socioambientais relacionadas à produção agropecuária brasileira".

    A pasta reforça que o relatório "tem caráter informativo" e "não constitui certificação socioambiental, não substitui certificações públicas ou privadas e tampouco substitui os procedimentos de devida diligência e análise de risco realizados pelos importadores ou demais agentes da cadeia comercial".

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://c-level.folha.uol.com.br/agro/2026/09/passaporte-socioambiental-tenta-proteger-agro-brasileiro-de-nova-barreira-da-ue.shtml.

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