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    Passando pano para o Banco Central?

    "Você está passando pano para o Banco Central", diz a moça com a voz indignada e a melhor das intenções no coração. Minha resposta sobre as altíssimas taxas de juros de fato foca os erros do governo, relegando o BC a um papel secundário.

    UOL
    25 de agosto de 2026 às 20:00
    Passando pano para o Banco Central?
    Homem de terno escuro e gravata senta-se atrás de mesa com microfone e copo de água, falando em evento no Banco Central do Brasil. — Foto: UOL

    Doutor em economia por Yale, foi professor da London School of Economics (2004-2010) e é professor titular da FGV EESP

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    Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central do Brasil, em evento na sede do banco em junho - Raphael Ribeiro - 25.jun.26/Banco Central · Raphael Ribeiro - 25.jun.26/Banco Central
    Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central do Brasil, em evento na sede do banco em junho - Raphael Ribeiro - 25.jun.26/Banco Central · Raphael Ribeiro - 25.jun.26/Banco Central — Foto: UOL · Fonte: UOL

    "Você está passando pano para o Banco Central ", diz a moça com a voz indignada e a melhor das intenções no coração. Minha resposta sobre as altíssimas taxas de juros de fato foca os erros do governo, relegando o BC a um papel secundário.

    Pode parecer estranho, mas é assim. O Banco Central tem o poder de escolher entre juros maiores, que esfriam a economia e reduzem pressões inflacionárias, ou juros menores, que estimulam a economia, mas podem gerar inflação . O BC, porém, tem pouco poder para melhorar os parâmetros dessa escolha.

    O que nós queremos é inflação de 3% e juros a 6% ao ano. Hoje, isso está completamente fora do alcance do BC. É função do governo, não do BC, criar condições para que isso seja factível.

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    Foto: UOL · Fonte: UOL

    "O problema é que a Selic alta, escolhida pelo BC, gera uma conta enorme de juros para o governo pagar, alimentando o déficit fiscal e a dívida", me explica o rapaz com a voz agitada. É verdade. Será que o BC poderia reduzir a Selic, reduzindo assim o pagamento de juros, de modo que chegássemos a uma situação com juros menores e inflação menor?

    Essa proposição foi testada em 2011. Sob o comando de Alexandre Tombini, o Banco Central reduziu as taxas de juros em um momento em que a inflação pressionava. Os juros caíram, mas a inflação aumentou e anos depois o BC teve que levar os juros a 14% ao ano para trazer a inflação de volta à meta.

    Claro, um exemplo de fracasso não prova que a lógica não funciona. Pode ser que a culpa tenha sido não dessa queda nos juros, mas de toda a política macroeconômica de então. Temos, porém, bons motivos para duvidar dessa lógica.

    Juros altos transferem dinheiro do governo para quem tem títulos da dívida. Isso estimula a demanda agregada, mas não muito, porque as pessoas detentoras de títulos são as mais ricas e não vão gastar muito mais por causa dessa renda extra. Por outro lado, juros maiores desestimulam o investimento das empresas e o consumo, reduzindo a demanda agregada. Assim, juros altos devem esfriar, não aquecer, a economia —portanto, devem reduzir pressões inflacionárias.

    Temos, porém, um exemplo recente de sucesso de queda de juros e inflação.

    Em 2018, fechamos com inflação de 3,75% e Selic a 6,5% ao ano. Os juros cairiam ainda mais em 2019. O que possibilitou tamanha queda sem a inflação disparar?

    Em 2014, os desembolsos do BNDES somaram cerca de R$ 188 bilhões. Em 2017, esse valor estava por volta de R$ 70 bilhões. Se o BNDES oferece menos crédito, há espaço para o Banco Central cortar juros, estimulando o crédito na economia, contrabalançando os cortes do BNDES, sem gerar pressão na inflação.

    Além disso, a mudança da TJLP para a TLP no início de 2018 indicava que os subsídios implícitos no crédito do BNDES dali adiante seriam muito menores. O teto de gastos, que passou a valer em 2017, veio com uma queda no déficit primário naquele ano e expectativas de déficits menores no futuro.

    Com uma situação fiscal ruim e bancos públicos expandindo o crédito, o Banco Central tem que optar entre a picada do inseto e o veneno do inseticida.

    Cabe ao governo frear a expansão do crédito direcionado, reduzir o déficit e sinalizar compromisso com as contas públicas para que os juros possam voltar a níveis civilizados.

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    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/colunas/bernardo-guimaraes/2026/08/passando-pano-para-o-banco-central.shtml.

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    Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central do Brasil, em evento na sede do banco em junho - Raphael Ribeiro - 25.jun.26/Banco Central · Raphael Ribeiro - 25.jun.26/Banco Central — Foto: UOL

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