Passando pano para o Banco Central?
"Você está passando pano para o Banco Central", diz a moça com a voz indignada e a melhor das intenções no coração. Minha resposta sobre as altíssimas taxas de juros de fato foca os erros do governo, relegando o BC a um papel secundário.

Doutor em economia por Yale, foi professor da London School of Economics (2004-2010) e é professor titular da FGV EESP
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

"Você está passando pano para o Banco Central ", diz a moça com a voz indignada e a melhor das intenções no coração. Minha resposta sobre as altíssimas taxas de juros de fato foca os erros do governo, relegando o BC a um papel secundário.
Pode parecer estranho, mas é assim. O Banco Central tem o poder de escolher entre juros maiores, que esfriam a economia e reduzem pressões inflacionárias, ou juros menores, que estimulam a economia, mas podem gerar inflação . O BC, porém, tem pouco poder para melhorar os parâmetros dessa escolha.
O que nós queremos é inflação de 3% e juros a 6% ao ano. Hoje, isso está completamente fora do alcance do BC. É função do governo, não do BC, criar condições para que isso seja factível.

"O problema é que a Selic alta, escolhida pelo BC, gera uma conta enorme de juros para o governo pagar, alimentando o déficit fiscal e a dívida", me explica o rapaz com a voz agitada. É verdade. Será que o BC poderia reduzir a Selic, reduzindo assim o pagamento de juros, de modo que chegássemos a uma situação com juros menores e inflação menor?
Essa proposição foi testada em 2011. Sob o comando de Alexandre Tombini, o Banco Central reduziu as taxas de juros em um momento em que a inflação pressionava. Os juros caíram, mas a inflação aumentou e anos depois o BC teve que levar os juros a 14% ao ano para trazer a inflação de volta à meta.
Claro, um exemplo de fracasso não prova que a lógica não funciona. Pode ser que a culpa tenha sido não dessa queda nos juros, mas de toda a política macroeconômica de então. Temos, porém, bons motivos para duvidar dessa lógica.
Juros altos transferem dinheiro do governo para quem tem títulos da dívida. Isso estimula a demanda agregada, mas não muito, porque as pessoas detentoras de títulos são as mais ricas e não vão gastar muito mais por causa dessa renda extra. Por outro lado, juros maiores desestimulam o investimento das empresas e o consumo, reduzindo a demanda agregada. Assim, juros altos devem esfriar, não aquecer, a economia —portanto, devem reduzir pressões inflacionárias.
Temos, porém, um exemplo recente de sucesso de queda de juros e inflação.
Em 2018, fechamos com inflação de 3,75% e Selic a 6,5% ao ano. Os juros cairiam ainda mais em 2019. O que possibilitou tamanha queda sem a inflação disparar?
Em 2014, os desembolsos do BNDES somaram cerca de R$ 188 bilhões. Em 2017, esse valor estava por volta de R$ 70 bilhões. Se o BNDES oferece menos crédito, há espaço para o Banco Central cortar juros, estimulando o crédito na economia, contrabalançando os cortes do BNDES, sem gerar pressão na inflação.
Além disso, a mudança da TJLP para a TLP no início de 2018 indicava que os subsídios implícitos no crédito do BNDES dali adiante seriam muito menores. O teto de gastos, que passou a valer em 2017, veio com uma queda no déficit primário naquele ano e expectativas de déficits menores no futuro.
Com uma situação fiscal ruim e bancos públicos expandindo o crédito, o Banco Central tem que optar entre a picada do inseto e o veneno do inseticida.
Cabe ao governo frear a expansão do crédito direcionado, reduzir o déficit e sinalizar compromisso com as contas públicas para que os juros possam voltar a níveis civilizados.
Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!
Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?
Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.
Na página Colunas da Folha você encontra opinião e crônicas de colunistas como Mônica Bergamo , Elio Gaspari , Djamila Ribeiro , Tati Bernardi , Dora Kramer , Ruy Castro , Muniz Sodré , Txai Suruí , José Simão , Thiago Amparo , Antonio Prata e muito mais.
Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/colunas/bernardo-guimaraes/2026/08/passando-pano-para-o-banco-central.shtml.

Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central do Brasil, em evento na sede do banco em junho - Raphael Ribeiro - 25.jun.26/Banco Central · Raphael Ribeiro - 25.jun.26/Banco Central — Foto: UOL
Compartilhe
Espalhe essa notícia

