Parcelar um risoto em seis vezes
Há algumas semanas, pedi um risoto por aplicativo . Esse não é o tipo de decisão que costuma render uma reflexão sobre a economia brasileira. Mas, na hora de pagar, entre escolher o cartão e confirmar o endereço de entrega, o aplicativo me ofereceu, com a maior naturalidade do mundo, a chance de parcelar o jantar. Aquele risoto, o mesmo que chegaria em sofridos 20 minutos, poderia ser pago em até seis vezes. Leia mais (08/15/2026 - 22h00)

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Geógrafo, é professor da Unicamp; autor de 'Parcelado: Dinâmicas de Consumo na Periferia' (ed. Fósforo)
Há algumas semanas, pedi um risoto por aplicativo . Esse não é o tipo de decisão que costuma render uma reflexão sobre a economia brasileira. Mas, na hora de pagar, entre escolher o cartão e confirmar o endereço de entrega, o aplicativo me ofereceu, com a maior naturalidade do mundo, a chance de parcelar o jantar. Aquele risoto, o mesmo que chegaria em sofridos 20 minutos, poderia ser pago em até seis vezes.
Senti, naquela opção, um desconforto difícil de nomear. Parcelar um apartamento, um carro ou uma geladeira faz parte do imaginário brasileiro há décadas ; a gente cresceu ouvindo falar nas famosas "suaves prestações". Mas há algo de novo em financiar, em suaves prestações, uma porção de arroz que deixará de existir antes do vencimento da primeira parcela.

E não é um caso isolado. Antes da refeição, o parcelamento já havia chegado ao supermercado e à farmácia —sim, também se divide o remédio em vezes— em setembro de 2025; em dezembro, alcançou os restaurantes. Nestes, segundo o próprio iFood, mais de 1,3 milhão de pedidos foram pagos em parcelas em apenas dois meses. Dividido em seis vezes, um jantar chega a acumular mais de 8% em juros : o cliente paga a mais para poder comer agora. Não se trata de excentricidade tecnológica nem de um consumidor que não sabe se controlar. É a ponta visível de uma transformação profunda, e séria, da economia do país e da forma como consumimos as coisas.
O parcelamento nunca foi, no Brasil, uma questão de capricho. Em um país de salários baixos —o mínimo de 2026 é de R$ 1.621, quando o Dieese calcula que o necessário para sustentar uma família seria de R$ 8.110,92, ou cinco vezes mais—, dividir a compra em vezes foi, durante um bom tempo, a principal forma de milhões de famílias terem acesso a bens que jamais caberiam no orçamento de um mês. Parcelar a casa, o fogão, a televisão foi um jeito de antecipar uma vida um pouco melhor do que a renda presente pagava. Isso está longe de ser um defeito moral; trata-se de uma forma contemporânea de gestão da escassez.
O que mudou foi a escala . Nas últimas décadas, o país se bancarizou de ponta a ponta. Vieram os cartões, as contas digitais, as fintechs, o Pix, o crédito em cada esquina e, sobretudo, no bolso. O celular virou ao mesmo tempo banco, carteira, loja e caixa eletrônico. E o crédito, que antes acompanhava as grandes compras, passou a acompanhar todas elas. Primeiro parcelamos a casa e o carro. Depois, a roupa, a passagem, o supermercado. Agora, o almoço. Sim, o almoço.

Os números dão a dimensão disso. Segundo a Confederação Nacional do Comércio, 82% das famílias brasileiras estão endividadas , recorde histórico, e passam, em média, 7,2 meses comprometidas com dívidas, mais do que o prazo de um parcelamento de risoto. Parcelar uma geladeira é distribuir no tempo o custo de algo que vai durar anos na cozinha; o bem acompanha a dívida. Parcelar um jantar é distribuir por meses o pagamento de algo que desapareceu do prato 20 minutos depois de nele chegar. A dívida sobrevive à refeição. E, quando o crédito deixa de financiar o que dura e começa a sustentar o que evapora, o consumo de hoje passa a depender, cada vez mais, da renda de amanhã.
Nada disso se resolve com sermão a quem parcela o jantar. A saída é estrutural e tem nome. Passa por renda: salários que deem conta do mês sem que o cartão precise tapar o buraco. E passa por juros.
Mesmo com a Selic recuando, o rotativo do cartão ainda supera 300% ao ano, e o brasileiro compromete cerca de 20% da renda com juros e amortizações —o dobro da média dos países desenvolvidos, calcula o Ipea. Enquanto ganhar for pouco e dever for caro, o parcelamento não é liberdade de escolha: é o único jeito de chegar ao fim do mês.

De volta ao risoto. No fim, respirei fundo, ainda incrédulo com esse grande laboratório financeiro que é o Brasil, e paguei o prato à vista. Foi uma das minhas melhores decisões da semana, porque aquela comida chegou muito mal em casa: um bloco altamente coeso de arroz, já frio e com alguma lembrança de vinho e parmesão.
Ficam aqui uma constatação e uma recomendação: 1 - numa economia organizada cada vez mais pelo crédito, aprendemos a consumir hoje o que seguiremos pagando muito depois de ter desaparecido; e 2 - não peçamos mais risoto por delivery.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/08/parcelar-um-risoto-em-seis-vezes.shtml.

O geógraf oe professor da Unicamp Kauê Lopes dos Santos - Ronny Santos - 26.jun.26/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
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