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    Paralisia cerebral vai além das limitações motoras e exige cuidado individualizado

    Dia Mundial da Paralisia Cerebral, nesta terça (6), chama atenção para acesso a tratamento, inclusão e autonomia

    UOL
    6 de outubro de 2026 às 08:00
    Paralisia cerebral vai além das limitações motoras e exige cuidado individualizado
    Mulher de cabelos castanhos soltos, vestindo camisa branca e calça jeans azul, sentada em banco contra fundo neutro bege, sorrindo e com uma mão atrás da cabeça. — Foto: UOL

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    Quando engravidou, Aline Messias, 36, se perguntava se teria força para segurar o próprio filho. Os comentários de outras pessoas, que questionavam sua capacidade de ser mãe, reforçavam a insegurança.

    Aline Messias, 36, tem paralisia cerebral - Nathu Sousa - 26.mar.26 · Nathu Sousa - 26.mar.26
    Aline Messias, 36, tem paralisia cerebral - Nathu Sousa - 26.mar.26 · Nathu Sousa - 26.mar.26 — Foto: UOL · Fonte: UOL

    "Quem vai cuidar do seu filho?" e "você acha que consegue dar conta de uma criança?" eram algumas das perguntas que ouvia.

    Aline tem paralisia cerebral , que afeta seus movimentos e sua fala e faz com que algumas atividades do dia a dia exijam mais planejamento e esforço. Isso não a impediu de viver a maternidade que sonhava.

    Para cuidar do filho Rafael, 3, reorganizou a casa, adaptou tarefas e aprendeu a identificar situações em que precisa de ajuda. Neste ano, comemorou por ter conseguido levá-lo sozinha ao cinema pela primeira vez.

    Cidade do interior de SP tem o único prefeito com paralisia cerebral do país
    Cidade do interior de SP tem o único prefeito com paralisia cerebral do país — Foto: UOL · Fonte: UOL

    A paralisia cerebral engloba um grupo de condições permanentes provocadas por uma lesão ou alteração no cérebro ainda em formação.

    Esse dano neurológico pode acontecer de diferentes formas durante a gravidez, na hora do parto ou nos primeiros anos da infância.

    Na gestação, por exemplo, infecções da mãe como toxoplasmose , rubéola, sífilis e zika podem atravessar a placenta e prejudicar a formação do cérebro do feto.

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    Foto: UOL · Fonte: UOL

    Já no momento do parto, situações de emergência que interrompem bruscamente a oxigenação do bebê —como o descolamento da placenta antes da hora ou nós e compressões no cordão umbilical— são as principais causas de lesão.

    Nos primeiros anos de vida, a condição pode ser desencadeada por infecções graves que atingem o sistema nervoso, como a meningite , ou pancadas fortes na cabeça.

    Segundo Anna Dominguez Bohn, pediatra e presidente do Núcleo de Estudos da Criança com Deficiência da SPSP (Sociedade de Pediatria de São Paulo), como a lesão pode atingir diferentes regiões do cérebro e ter diferentes tamanhos, seus efeitos variam muito de uma pessoa para outra.

    Ela pode causar desde limitações na visão, audição e aprendizado até crises convulsivas.

    Nesta terça-feira (6), o Dia Mundial da Paralisia Cerebral chama atenção para questões como acesso ao tratamento, inclusão e autonomia.

    Os sinais da paralisia cerebral costumam ser percebidos nos primeiros anos de vida e incluem atrasos em etapas do desenvolvimento motor, como sustentar a cabeça, sentar e engatinhar.

    A criança também pode apresentar músculos muito rígidos ou muito flácidos, fraqueza nos braços ou nas pernas, movimentos involuntários ou dificuldades de equilíbrio e coordenação.

    Aline diz que seus pais contam que ela era "muito molinha". "Com sete, oito meses de idade, uma criança já começa a sentar sozinha, e eu não conseguia. Meus pais começaram a desconfiar que tinha algum problema e foram atrás de um diagnóstico", afirma.

    Os sinais variam conforme cada caso e, isoladamente, não confirmam a condição. O diagnóstico considera o histórico da gestação e do parto, o desenvolvimento da criança e a avaliação clínica.

    Não é possível reverter a lesão neurológica que causa a paralisia cerebral. No entanto, ela não é progressiva —ou seja, o dano não se agrava com o passar do tempo, como ocorre em doenças neurodegenerativas .

    O tratamento varia conforme as necessidades individuais e, quanto mais cedo começam as intervenções, maiores são as chances de estimular o desenvolvimento e funcionalidade da criança.

    A reabilitação exige uma abordagem multiprofissional. Dependendo do grau de comprometimento motor e cognitivo, a rotina pode incluir fisioterapia , terapia ocupacional e fonoaudiologia.

    Também pode envolver consultas com neuropediatras e ortopedistas, acompanhamento visual e auditivo e uso de medicamentos para controlar sintomas como rigidez muscular e convulsões .

    Segundo o Ministério da Saúde , em 2025 o SUS (Sistema Único de Saúde) realizou mais de 1,1 milhão de atendimentos relacionados à paralisia cerebral. Esse número representa um crescimento de 13% em relação a 2022.

    Garantir uma rotina contínua de cuidados ainda é um desafio no Brasil. No SUS , a reabilitação especializada é oferecida pela Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência , que inclui 359 CERs (Centros Especializados em Reabilitação).

    No entanto, estudos apontam que a oferta de serviços e profissionais não é uniforme entre as regiões do país e que a falta de profissionais especializados dificulta o acesso ao acompanhamento.

    No setor privado, a ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) eliminou, em 2022, o limite de sessões de fisioterapia, terapia ocupacional, fonoaudiologia e psicologia para planos regulamentados com cobertura ambulatorial. A regra vale para a paralisia cerebral.

    Isso não significa, porém, que todos os métodos terapêuticos prescritos sejam obrigatoriamente oferecidos pelos planos. Técnicas específicas podem ser objeto de divergência entre famílias e operadoras e, em alguns casos, levar a disputas judiciais .

    E, mesmo quando o atendimento é oferecido pelo SUS, o cuidado pode gerar custos indiretos para as famílias, como deslocamentos frequentes e gastos com recursos de tecnologia assistiva.

    Um estudo publicado em 2026, com 1.098 pessoas com paralisia cerebral de todas as regiões do Brasil, mostrou que 44,7% tinham acesso parcial ou nenhum acesso aos dispositivos de auxílio de que necessitavam. Além disso, 67,7% não tinham a casa totalmente adaptada.

    Soma-se a isso o impacto sobre o trabalho e a renda quando um dos responsáveis precisa reduzir a jornada ou deixar o emprego para se dedicar à rotina de cuidados e consultas da criança. No estudo, 41,1% viviam em famílias com renda mensal inferior a dois salários mínimos.

    Aline conta que sua mãe teve que deixar o emprego, pois "era muito difícil conciliar o trabalho com a rotina de atendimentos".

    Ainda na infância, começou a fazer terapias no Sesi Ipiranga, por meio de um desconto obtido pelo vínculo profissional do pai com a indústria.

    Segundo ela, o tratamento foi "essencial" para desenvolver autonomia e habilidades cotidianas, como amarrar o cadarço e segurar talheres sozinha.

    Apesar de a lesão cerebral não ser progressiva, seus efeitos podem mudar com o tempo. Com o envelhecimento , podem surgir dor, rigidez, alterações no equilíbrio e redução da mobilidade, o que exige novas estratégias de cuidado.

    A passagem dos serviços pediátricos para os serviços de adultos é um dos desafios relatados por pessoas com paralisia cerebral.

    Estudos apontam dificuldades na continuidade do atendimento, no acesso a profissionais especializados e na adaptação às novas demandas da vida adulta, como saúde sexual e reprodutiva.

    Esse cuidado deve considerar as necessidades de cada pessoa e oferecer os recursos necessários para que ela participe das decisões sobre a própria vida e tenha autonomia nas atividades do cotidiano.

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    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2026/10/paralisia-cerebral-vai-alem-das-limitacoes-motoras-e-exige-cuidado-individualizado.shtml.

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    Aline Messias, 36, tem paralisia cerebral - Nathu Sousa - 26.mar.26 · Nathu Sousa - 26.mar.26 — Foto: UOL

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