Para vítimas, escapar de traficantes de pessoas não garante volta para casa
Brasileiros dependem de assistência de organizações sociais mediante auxílio limitado oferecido pelo Itamaraty

Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.
Bambang (nome fictício), 35, esperava a abertura da Embaixada da Indonésia em Phnom Penh, capital do Camboja , para pedir ajuda. Assim como ele, outros quatro homens que haviam escapado de complexos de golpes precisavam de auxílio consular.

Ele estava lá para buscar o novo passaporte. O anterior havia sido retido pelos criminosos que o mantinham preso em um complexo em Poipet, a cerca de 400 km da capital.
Pai de duas crianças, foi ao país enganado por um conhecido com a promessa de trabalho na área de telemarketing e ganhos altos, mas, ao chegar, tornou-se vítima de tráfico humano e foi obrigado a aplicar golpes em pessoas de seu país de origem. Quando não atingia as metas, era agredido com socos e tapas. Os outros indonésios ao seu lado também relataram choques e privação de comida por até um mês.
"Quero voltar o quanto antes. Já pedi para a minha família ajudar com o dinheiro da passagem, mas o preço é muito alto", diz Bambang.

Mesmo após escaparem dos complexos, nome dado aos locais de onde partem golpes eletrônicos, vítimas de tráfico humano enfrentam dificuldade para ter acesso a comida, abrigo e dinheiro para voltar para casa. A barreira, comum entre traficados de diferentes nacionalidades, é também uma realidade para os brasileiros, que se veem entre a burocracia do governo e a disponibilidade de organizações sociais.
O crescente número de vítimas no Sudeste Asiático fez a questão ser tema de alerta consular do Itamaraty , que identificou a área como o principal destino de brasileiros traficados para exploração laboral. Diante disso, a pasta recomenda recusar ofertas de trabalho que prometam ganhos elevados, contratação rápida ou intermediação informal na região.
A Embaixada do Brasil em Phnom Penh, aberta em 2025, passou a ser uma das frentes de atendimento dos casos no Camboja, país que liderou o número de registros sob o Protocolo Operativo Padrão de Atendimento no mesmo ano, segundo o Ministério da Justiça.

Para receber a assistência no exterior, a regra geral é que o brasileiro em situação de risco busque o auxílio consular, mas a ajuda pode demorar a chegar em decorrência de trâmites burocráticos ou de limitação de orçamento, fazendo com que pedidos de abrigo e alimentação, por exemplo, tenham retorno limitado ou não sejam sequer atendidos.
É o caso de Cristina, 28, que prefere omitir o sobrenome por segurança. A carioca viajou ao Camboja para atuar como tradutora para uma empresa que custearia passagens, alimentação e hospedagem, mas, ao chegar ao local, teve o passaporte retido e foi obrigada a aplicar golpes em brasileiros e se passar por uma policial civil.
A dívida da família com um agiota e as ameaças constantes do criminoso às suas filhas fizeram com que ela e o marido ficassem presos a uma espécie de contrato de três meses. Ao fim do período, porém, os criminosos cobravam US$ 12 mil (cerca de R$ 62 mil) para a devolução do documento de viagem e ameaçavam incriminá-los com drogas nas malas. "Muitas vezes bebíamos para tentar esquecer o que estávamos vivendo", diz.

Reportagem da Folha visitou o Camboja para entender porque o país se tornou o destino de vítimas brasileiras de tráfico de pessoas
Nove meses após a chegada ao país, Cristina foi transferida à força para Madagascar. Ao completar três meses no local, a quadrilha que a mantinha presa descobriu uma denúncia de tráfico humano que ela teria enviado à Polícia Federal e, como forma de retaliação, acusou-a falsamente de roubo, diz. Ela, o marido e um amigo ficaram na cadeia por cerca de um mês.
Ao serem liberados, tornou-se um impasse conseguir comer, ter abrigo e se vestir. A carioca afirma que a embaixada do Brasil em Maputo, capital de Moçambique e responsável pelo atendimento consular em Madagascar, forneceu um auxílio suficiente para uma noite em hotel e poucas refeições. Cerca de 15 dias depois, foram cedidos mais US$ 40 por pessoa, valor que custeou mais cinco diárias. O dinheiro para água, comida, uma troca de roupa e abrigo no restante do período foi oferecido por organizações sociais que eles buscaram por conta própria.
A lei brasileira de prevenção e repressão ao tráfico de pessoas afirma que a assistência imediata às vítimas do crime no exterior está sob responsabilidade da rede consular brasileira.
Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo
Já o regulamento que rege a assistência consular prevê o encaminhamento de brasileiros vítimas de tráfico humano a instituições locais de assistência ou, se necessário, a abrigos.
O texto também prevê que aqueles em situação de desvalimento podem receber auxílio pontual, emergencial e módico, que pode se prolongar por um período curto e em circunstâncias excepcionais. O documento determina que seja seguido um critério de razoabilidade e que sejam utilizadas como referência as alternativas mais econômicas para alimentação e alojamento temporário, por exemplo.
O retorno de Cristina ao Brasil custeado pelo governo foi discutido com a representação diplomática responsável, afirma ela, mas a orientação foi tentar por outros meios. "A própria embaixada deixou claro que, caso conseguíssemos a passagem por outro meio, seria melhor, porque o processo pelo governo poderia demorar muito", diz ela, que teve a passagem paga pelo Projeto Resgate Brasil.
À Folha o Itamaraty afirma que prestou a assistência consular devida por intermédio das embaixadas de Maputo e de Phnom Penh, no limite do que é facultado pela legislação nacional e internacional sobre o tema.
Não há obrigação legal de repatriação pelo poder público. Para avaliar um pedido, o Itamaraty exige que a vítima comprove incapacidade financeira por meio da DPU (Defensoria Pública da União), nunca tenha sido repatriada e que a pasta disponha do orçamento necessário.
O regulamento que rege a assistência consular determina também que a autoridade responsável avalie se o brasileiro, seus familiares, amigos ou empregadores têm condições de pagar pelo retorno ou se há programas oficiais de repatriação.
Entre o pedido de ajuda e a resposta da pasta, porém, organizações sociais, como o Projeto Resgate Brasil, que atuou no caso de Cristina, entram na equação.
Marco Aurélio de Sousa, secretário-executivo da instituição, vê a relação com o governo como de parceria, mas afirma que a entidade atua onde o poder público falha. "Somos parceiros depois dos limites do governo", diz, acrescentando que o Brasil tem a obrigação de cuidar dos seus cidadãos.
A organização é conhecida, entre as que atuam no Brasil com casos de tráfico humano, como a que mais se dedica a trazer vítimas de volta para casa. Em 2026, a Resgate repatriou até agora ao menos 20 brasileiros, sendo 15 do Camboja, dois da África do Sul, um de Laos, um de Madagascar e um da Tailândia. Além dos custos com a passagem, a organização ainda mantém uma verba média equivalente a pouco mais de R$ 18 mil para auxiliar no processo de reinserção social.
"Onde o governo tem as limitações a gente consegue ser mais ágil, mas eu não consigo salvar todo mundo", afirma Sousa.
O posicionamento é semelhante ao de Cintia Meirelles, diretora da ONG The Exodus Road Brasil, que fornece assistência a vítimas de tráfico humano e atua como braço da organização americana de mesmo nome. A representação diplomática do Brasil no exterior, diz, é ineficaz se essa presença não se traduz em proteção concreta quando os cidadãos mais precisam.
"O Estado não pode terceirizar a dignidade de seus cidadãos à sociedade civil. Assistência consular não pode ser uma nota oficial ou uma resposta burocrática; precisa significar presença, proteção e solução. O Brasil tem protocolos e fluxos, mas eles precisam sair do papel", afirma Meirelles.
A Folha entrou em contato com a OIM (Organização Internacional para as Migrações), da ONU, que também atua no auxílio de vítimas brasileiras, mas não obteve retorno até a publicação deste texto.
Em resposta aos questionamentos da reportagem, o Itamaraty afirma que, em 2026, a pasta repatriou até agora 61 brasileiros, mas não indicou quantos poderiam ser vítimas de tráfico humano. O ministério declarou ainda que não existe orçamento dedicado ao custeio de repatriações.
"Os recursos empregados para essa finalidade integram o orçamento mais amplo destinado à assistência consular como um todo, que atende às diversas demandas dos mais de 5 milhões de brasileiros residentes no exterior", diz, em nota.
O Itamaraty destaca que a medida é de caráter excepcional e não configura direito adquirido, e que a concessão está condicionada à avaliação de todas as alternativas existentes.
Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!
Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?
Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.
Semanalmente, os principais fatos do globo, explicados de forma leve e interessante
Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/08/para-vitimas-escapar-de-traficantes-de-pessoas-nao-garante-volta-para-casa.shtml.

Jovens indonésios se reúnem em frente à embaixada do país em Phnom Penh, no Camboja - Victoria Damasceno/Folhapress · Victoria Damasceno/Folhapress — Foto: UOL
Compartilhe
Espalhe essa notícia

