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    Para fazer da IA uma ferramenta

    Los Angeles foi assolada por tanta criminalidade que a cidade instalou um sistema de justiça por inteligência artificial (IA), uma corte chamada Mercy (Misericórdia), para coletar e avaliar todos os dados acessíveis pela internet - mídia social , vídeos e mensagens em telefones, câmeras de segurança , relatório legista e outros documentos policiais - para julgar e sentenciar criminosos em apenas 90 minutos. Leia mais (09/17/2026 - 18h00)

    Folha de S.Paulo
    17 de setembro de 2026 às 21:00
    Para fazer da IA uma ferramenta
    A imagem mostra um letreiro iluminado com as palavras 'AI DATA CENTER' em letras grandes e brancas. Ao fundo, há uma estrutura com luzes azuis, sugerindo um ambiente tecnológico, possivelmente um centro de dados. A iluminação e o design mod — Foto: Folha de S.Paulo

    Bióloga e neurocientista da Universidade Vanderbilt (EUA)

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    Uma corte formada por inteligência artificial que analisa em 90 minutos vídeos, mídias sociais, documentos e imagens de câmeras de segurança para julgar crimes é a história por trás do filme "Justiça Artificial", de Timur Bekmambetov - Jose
    Uma corte formada por inteligência artificial que analisa em 90 minutos vídeos, mídias sociais, documentos e imagens de câmeras de segurança para julgar crimes é a história por trás do filme "Justiça Artificial", de Timur Bekmambetov - Jose — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Los Angeles foi assolada por tanta criminalidade que a cidade instalou um sistema de justiça por inteligência artificial (IA), uma corte chamada Mercy (Misericórdia), para coletar e avaliar todos os dados acessíveis pela internet — mídia social , vídeos e mensagens em telefones, câmeras de segurança , relatório legista e outros documentos policiais — para julgar e sentenciar criminosos em apenas 90 minutos.

    O sistema parece promissor aos olhos do detetive que mediou a criação da corte de IA, até... ele ser preso, acusado de ter matado sua esposa. A corte então lhe dá os tais 90 minutos para provar sua inocência, e o que se segue é o filme "Justiça Artificial" (Mercy, no original), do diretor Timur Bekmambetov.

    O que começa como uma reedição do "Minority Report", do Spielberg , vira um exercício interessante sobre as limitações da inteligência artificial e como seu valor depende do uso que se faz dela.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Poucos dias atrás este era o tópico da reunião semanal do grupo de Estudos Sobre Evolução na Universidade Vanderbilt, e dias antes, do seminário do meu próprio departamento: o que constitui bom uso de IA por cientistas? O palestrante, um colega antes entusiasta do uso de IA para fazer descobertas científicas, testou o AutoDiscovery, ferramenta do Allen Institute for AI (Ai2) que varre a literatura como se isso fosse suficiente para gerar novos avanços. Sua conclusão: os algoritmos sabem deduzir (aplicar uma regra geral) e induzir (testar casos para achar uma regra), mas não sabem abduzir, que é gerar novas hipóteses testáveis.

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    Achar que basta olhar para todos os dados para "revelar a verdade do mundo" é uma falácia manjada, da qual o finado Douglas Adams bem fez troça em seu "Guia do Mochileiro das Galáxias" . No livro, a humanidade reúne seus recursos para construir um supercomputador que por fim revelará a resposta final sobre "a vida, o universo e tudo mais". A resposta é 42, e a humanidade precisa construir outro supercomputador para destrinchar qual exatamente é a pergunta para a qual a resposta é 42. O supercomputador é o planeta Terra.

    Como Douglas Adams bem disse, entender o mundo começa com fazer boas perguntas e continua ao empregar ferramentas para achar respostas. Mas, como explico aos alunos do grupo de evolução, usar uma ferramenta é muito mais do que interagir com um objeto, por exemplo fazendo uma pergunta para obter uma resposta. Usar uma ferramenta significa interagir com um objeto para alcançar (ou "desbloquear", como nos videogames) uma segunda ação. Bater um martelo na parede não é usá-lo como ferramenta; bater o martelo em um prego para enterrar o prego na parede é.

    Usar a IA como ferramenta para fazer revelações sobre o mundo, portanto, requer mais do que consultá-la como um oráculo ou colega omnisciente, editor de texto ou fashionista. Só usa IA como ferramenta quem tem hipóteses em mente ("a parede vai segurar o prego, que vai segurar o quadro"), testáveis por meio da oportunidade daquela segunda ação que a ferramenta oferece.

    E quem tem hipóteses testáveis sobre o mundo é quem tem valores na reta, seja um quadro bonito, um enigma que importa para a gente ou a execução iminente por uma corte de IA. Perguntas sobre o mundo dos humanos envolvem valores humanos, que a IA da corte Misericórdia não tem como entender – mas, quando ela vira uma ferramenta a serviço do detetive, a história é outra. O filme, disponível na Amazon Prime , vale a pena.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/suzanaherculanohouzel/2026/09/para-fazer-da-ia-uma-ferramenta.shtml.

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    Uma corte formada por inteligência artificial que analisa em 90 minutos vídeos, mídias sociais, documentos e imagens de câmeras de segurança para julgar crimes é a história por trás do filme "Justiça Artificial", de Timur Bekmambetov - Jose — Foto: Folha de S.Paulo

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