Pais que rompem com o velho contrato
Quando seu filho mais velho chegou em casa, com unhas pintadas e usando saia, tudo o que ele disse foi: tem pizza na geladeira

Escritora, roteirista e uma das idealizadoras do movimento Um Grande Dia para as Escritoras
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Sou casada com aquilo que costumo chamar de bofe clássico: um sujeito nascido nos anos 70, cisgênero, que, quando não acha o abridor de garrafas, arranca a tampa da cerveja com o molar.
Ainda assim, quando seu filho mais velho chegou em casa, aos 16 anos, com unhas pintadas e usando saia, ele não levantou uma sobrancelha. Tudo o que disse foi: "Tem pizza na geladeira".
Um mês depois, quando o garoto continuava aparecendo de saia, somada a um top justo, e puxando pela mão uma namorada (o que daria nó na cabeça de muitos), meu companheiro só lhe perguntou: "Filho, você vai continuar usando essa saia?" O garoto não disse nada. Ele prosseguiu: "Se continuar usando, tem que comprar uma nova para revezar. Essa aí não vê a lava-roupa há mais de um mês, e você sabe que seu pai não suporta roupa suja".

Se meu companheiro é um bofe clássico, meu pai pode ser considerado um bofe pré-histórico . Nascido em uma colônia italiana nos anos 40, foi criado sem diálogo e com truculência, em um ambiente em que um filho jamais discordava, nem sequer fazia perguntas.
Aos 19 anos, não só discordei dele como me coloquei com firmeza, avisando que largaria a faculdade que ele havia insistido para eu fazer e não responderia a outras de suas expectativas, acrescentando ainda algumas verdades boquirrotas ao meu discurso.
O rosto dele foi ficando vermelho. Temi que pudesse vir para cima de mim, mas, em vez disso, resmungou uma blasfêmia, deu as costas e se fechou no quarto. Algumas horas depois, deslizou por baixo da minha porta uma carta em que escrevia tudo aquilo que, se fosse dito no calor do momento , teria saído de forma agressiva, quiçá violenta e, muito provavelmente, confusa.
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Esses dias estive ao lado de um pai que desconhecia, cujo passado desconhecia. Dividimos, com outras pessoas, o mesmo ambiente durante um jogo do Brasil na Copa . Junto dele, estava seu filho, um garoto de uns sete anos que vestia camisa da seleção e chuteira e parecia muito envolvido na partida.
Quando um gol marcou a derrota da seleção, o menino ficou enfurecido. Fechou os punhos e a respiração; tive a impressão de que esmurraria ou chutaria alguma coisa. Ao vê-lo assim, seu pai se aproximou e abriu uma picada no meio de suas emoções, dizendo: "Chora, filho".
Cito esses exemplos porque, em todos, vi pais subverterem, de alguma maneira, o que era esperado de genitores de suas gerações, rasgando um contrato de paternidade patriarcal que ainda rege o comportamento de muitos.
Um contrato em que os pais ocupam posições de poder sobre seus filhos e esposas, com visões rígidas de gênero, pouco diálogo e sempre a última palavra, que costuma ser proferida de forma autoritária —e sem demonstrar emotividade, já que tal traço é relacionado à fraqueza.
Meu companheiro, meu velho, e, provavelmente, o desconhecido não são pais perfeitos —alguém é? — , nem desconstruídos por inteiro —alguém é? —, mas, nestas e em outras situações, conseguiram avançar alguns centímetros além do antigo script.
Bom para os filhos e também para eles, que deixam de se isolar na ilha da masculinidade , onde tantos homens se desconectam dos outros e até de si no exercício de fabricar uma macheza tola, que também acaba por oprimi-los.
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Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/colunas/giovana-madalosso/2026/08/pais-que-rompem-com-o-velho-contrato.shtml.

Catarina Pignato/Folhapress · Catarina Pignato/Folhapress — Foto: UOL
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