País pagará o preço do debate eleitoral indigente
A decisão de Luiz Inácio Lula da Silva ( PT ) de não participar do derradeiro debate televisivo da campanha presidencial deste ano -e, assim, de nenhum confronto aberto de ideias antes do primeiro turno- evidencia o descaso com o eleitor. Não se pode dizer, infelizmente, que essa seja a única, ou mesmo a maior, mostra da degradação da disputa política nacional. Leia mais (09/30/2026 - 22h00)

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A decisão de Luiz Inácio Lula da Silva ( PT ) de não participar do derradeiro debate televisivo da campanha presidencial deste ano —e, assim, de nenhum confronto aberto de ideias antes do primeiro turno— evidencia o descaso com o eleitor. Não se pode dizer, infelizmente, que essa seja a única, ou mesmo a maior, mostra da degradação da disputa política nacional.
Flávio Bolsonaro ( PL ), que na condição de principal postulante oposicionista teria a obrigação de ser mais propositivo, passou a campanha ora fazendo críticas demagógicas ao custo de vida, como se tivesse o poder de fazer os preços baixarem, ora inventando desculpas esfarrapadas para a revelação de suas relações de afeto com o corruptor Daniel Vorcaro.
A indigência do cotejo de programas é o efeito nefasto de uma corrida em que a estratégia mais relevante de cada um dos candidatos competitivos consiste em explorar a enorme rejeição ao adversário. É fato que, em pleitos passados, temas incômodos já foram tratados à base de platitudes e tergiversações; hoje, porém, são quase ignorados.

Isso ocorre devido à conjugação de um cenário de forte polarização ideológica afetiva com o virtual empate entre os dois favoritos nesta reta final , tanto em intenções de voto como em repulsa do eleitorado. Sem ter muito espaço para crescer, eles optam por táticas de guerrilha.
Qualquer pessoa minimamente bem informada sabe que o país está diante de uma escolha difícil entre um duro ajuste dos gastos públicos, que envolverá medidas potencialmente impopulares, e o risco de agravamento do estresse financeiro que já sufoca famílias, empresas e o próprio governo, podendo levar a uma recessão.
Lula, além de não dar sinal de que pretende fazer uma correção de rumos, esmera-se em criar novos gastos às vésperas do pleito acirrado; Flávio promete um grande ajuste que, no mundo de fantasia das campanhas, será feito sem sacrifícios.

O que pode parecer uma estratégia eleitoral sagaz torna, depois, muito mais difícil a tarefa de governar —em prejuízo dos cidadãos. Candidatos fazem compromissos públicos com a finalidade de mitigar o risco de surpresas amargas à frente, expondo-se à responsabilização política em caso de descumprimento.
Isso nada tem de abstrato. Para não ir muito longe na história, o grande estelionato eleitoral perpetrado por Dilma Rousseff (PT) depois da eleição de 2014, quando se tentaram reformas orçamentárias renegadas na campanha, foi um dos elementos que contribuíram decisivamente para o impeachment da ex-presidente.
Em poucas semanas estará esquecido todo o ridículo alarido criado em torno do estatuto de padroeira de Nossa Senhora Aparecida —uma ficção que hoje mobiliza até ministros do Supremo Tribunal Federal ( STF ). Restarão problemas graves e reais para o eleitorado, que os principais candidatos trataram de ignorar por oportunismo ou covardia.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/09/pais-pagara-o-preco-do-debate-eleitoral-indigente.shtml.

Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidatos à Presidência - Tita Barros e Ricardo Stuckert/Reuters e Presidência da República · Tita Barros e Ricardo Stuckert/Reuters e Presidência da República — Foto: Folha de S.Paulo
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