Pacto secreto entre Trump e Bukele fez migrantes desaparecerem em prisão de segurança máxima
Em El Salvador, a história de Kevin e Elmer se assemelha à de tantos outros migrantes expulsos pelos Estados Unidos à margem de qualquer procedimento legal. A RFI encontrou suas irmãs, que não cessam de lutar para encontrá-los. Studio FMM Artigo produzido no âmbito de uma investigação coordenada pelo Forbidden Stories, intitulada “The Deportation Project”, da qual participa a RFI, além de outros 23 veículos de comunicação. Angélica Pérez, enviada especial da RFI a El Salvador. No caso de El Salvador, a história de Kevin e Elmer se parece com a de tantos outros migrantes expulsos pelos Estados
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Em El Salvador, a história de Kevin e Elmer se assemelha à de tantos outros migrantes expulsos pelos Estados Unidos à margem de qualquer procedimento legal. A RFI encontrou suas irmãs, que não cessam de lutar para encontrá-los. — Foto: Studio FMM
Artigo produzido no âmbito de uma investigação coordenada pelo Forbidden Stories, intitulada “The Deportation Project”, da qual participa a RFI, além de outros 23 veículos de comunicação.
Angélica Pérez, enviada especial da RFI a El Salvador.

No caso de El Salvador, a história de Kevin e Elmer se parece com a de tantos outros migrantes expulsos pelos Estados Unidos à margem de qualquer procedimento legal. A RFI encontrou as irmãs de cada um deles, que não cessam de lutar para encontrá-los. Glenda e Karen são duas salvadorenhas que se tornaram investigadoras na busca por seus irmãos expulsos dos Estados Unidos.
“Meu irmão desapareceu. Está detido há mais de um ano sem qualquer procedimento legal. Gostaríamos de ter provas de que ele está bem, porque não podemos continuar vivendo na incerteza, sem receber nenhuma notícia dele”, diz Glenda.
“Ele foi expulso há mais de um ano e, até hoje, ninguém quis nos dizer onde ele está. Não há nenhum registro dele na promotoria. Para nós, trata-se de um desaparecimento forçado. É como se eles não existissem aqui em El Salvador”, afirma Karen.
O que é um “desaparecimento forçado”? Segundo a ONU, entende-se por desaparecimento forçado a prisão, detenção, sequestro ou qualquer outra forma de privação de liberdade cometida por agentes do Estado ou por pessoas ou grupos que atuem com autorização, apoio ou consentimento do Estado, seguida da recusa em reconhecer a privação de liberdade ou da ocultação do destino da pessoa desaparecida ou do local onde ela se encontra, retirando-a da proteção da lei.
Eles não existem oficialmente e, no entanto, chegaram de fato a San Salvador entre março e abril de 2025, a bordo de voos militares fretados pelo governo Trump. Esses voos transportaram 252 venezuelanos e um número indeterminado de salvadorenhos, todos acusados pelos dois governos de serem criminosos perigosos. A partir daquele momento, perdeu-se o rastro de Elmer Concepción Romero Janes, irmão de Glenda, e de Kevin Rolando Barrera Torres, irmão de Karen.
As transferências ocorreram em três datas: 15 e 30 de março e 12 de abril. “Infelizmente, ao contrário do caso dos venezuelanos, nenhum número exato nem qualquer informação oficial jamais foi divulgada sobre os salvadorenhos. Primeiro tomamos conhecimento por meio de uma nota da Casa Branca, depois por um tuíte e, finalmente, pela imprensa”, explica Nathalye Cotrino, pesquisadora sênior da divisão das Américas da Human Rights Watch (HRW).
Glenda e sua família descobriram que Elmer estava no país graças a um vídeo no qual a Presidência de El Salvador mostrava a chegada de voos militares transportando pessoas suspeitas de pertencer a gangues, expulsas dos Estados Unidos.
“Graças a Deus, conseguimos reconhecê-lo no vídeo. Ele é o último a aparecer, no momento em que desce do avião para entrar em um ônibus. Meu irmão estava a bordo do segundo voo, que pousou em 31 de março de 2025. Além disso, ele havia falado com uma tia que mora nos Estados Unidos e disse a ela que seria enviado de volta ao país, pedindo que ela lhe enviasse roupas. Essa tia conseguiu reconhecer as roupas que havia enviado a ele como sendo as que ele vestia. O fato de tê-lo visto e ter certeza de que ele havia chegado ao país foi a única coisa que nos permitiu manter a esperança”, explica Glenda.
Captura de vídeo publicado pelo governo salvadorenho, que mostra pessoas expulsas pelos Estados Unidos. A imagem mostra o irmão de Glenda descendo do avião. — Foto: Secretaría de Prensa de la Presidencia de la República
Depois de registrar uma denúncia por desaparecimento e procurar as instituições competentes, Karen teve certeza de que seu irmão Kevin havia chegado a El Salvador. “Foi em maio de 2025. A procuradora-geral me confirmou que ele havia sido expulso em 15 de março, junto com o grupo de venezuelanos. O avião havia pousado às 22h30. No entanto, ela me disse que não poderia fornecer mais informações porque não estava autorizada. Chegou a se recusar a me mostrar o documento, alegando que era confidencial. Desde então, multiplicamos as iniciativas, mas ninguém nos dá uma resposta.”
Pacto secreto sob regime de exceção Essas expulsões ocorreram sob o regime de exceção instaurado em 2022 pelo presidente salvadorenho, Nayib Bukele, no âmbito de sua guerra contra as “maras” (gangues). O dispositivo permite prender uma pessoa sem informar os motivos, negar-lhe assistência jurídica e mantê-la em detenção incomunicável, por tempo indeterminado e sem que ela compareça perante um juiz.
Elas também ocorreram no contexto da guerra contra a imigração conduzida pelo presidente americano, Donald Trump, tendo como palavra de ordem “promover a maior campanha de expulsões da história dos Estados Unidos”.
Karen e sua mãe travam há um ano e meio buscas incansáveis. Karin conseguiu estabelecer que seu irmão, Kevin Rolando Barrera Torres, fazia parte do grupo de 36 salvadorenhos expulsos dos EUA entre março e abril de 2025. — Foto: Reprodução/TV Globo
Karen e sua mãe realizam há um ano e meio buscas incessantes. Karen conseguiu estabelecer que seu irmão, Kevin Rolando Barrera Torres, fazia parte dos 36 salvadorenhos expulsos dos Estados Unidos entre março e abril de 2025.
Antes de proceder à expulsão desses imigrantes, em março e abril de 2025, os dois governos haviam firmado um acordo secreto sobre imigração, anunciado duas semanas depois do retorno de Trump à Casa Branca, sem, contudo, ter seus detalhes revelados.
Em 4 de fevereiro de 2025, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, em visita oficial a El Salvador, qualificou de “ato de generosidade sem precedentes” a oferta do presidente Nayib Bukele de “receber criminosos perigosos expulsos pelos Estados Unidos — membros do Tren de Aragua ou da gangue Mara S13 — e encarcerá-los em suas prisões”. Isso incluiria cidadãos norte-americanos ou residentes legais condenados nos Estados Unidos. “É mais uma prova da incrível amizade do presidente Bukele”, afirmou Marco Rubio.
Por sua vez, o presidente Nayib Bukele confirmou em sua conta no X que aceitaria receber os detidos em troca de uma pequena compensação financeira dos Estados Unidos, mas com benefícios significativos para El Salvador. Os prisioneiros seriam transferidos para o Cecot, a prisão de segurança máxima emblemática da política repressiva de seu governo.
O acordo migratório EUA e El Salvador Os detalhes do acordo migratório firmado entre os governos dos presidentes americano e salvadorenho permaneceram desconhecidos até setembro de 2025, quando foram revelados no âmbito de um processo judicial.
“Trata-se de um contrato que eles não quiseram divulgar. Tomamos conhecimento de sua existência graças a um documento do governo Trump que vazou e que fazia parte das provas no processo GGV vs Trump”, explica Nathalye Cotrino.
A pesquisadora da Human Rights Watch refere-se à ação coletiva apresentada em 15 de março de 2025 pela American Civil Liberties Union (ACLU) e pela Democracy Forward perante o Tribunal Federal do Distrito de Columbia, nos Estados Unidos. A ação, movida em nome de cidadãos venezuelanos detidos pelo Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos Estados Unidos (ICE), buscava impedir a ameaça iminente de expulsão dos migrantes pelo governo Trump.
A prova é uma carta oficial do Departamento de Estado norte-americano enviada ao governo de El Salvador, datada de 22 de março de 2025, oficializando a concessão de US$ 4,76 milhões destinados a apoiar as estruturas penitenciárias e logísticas necessárias para a detenção dos migrantes venezuelanos e salvadorenhos expulsos e seu encarceramento no Cecot. A transferência desses recursos estava condicionada à proibição de El Salvador de fornecer recursos ou assistência jurídica aos solicitantes de asilo.
Como consequência desse acordo, o Centro de Confinamento do Terrorismo (Cecot) — símbolo da guerra conduzida pelo presidente salvadorenho contra as gangues — transformou-se em uma ferramenta da política migratória de seu homólogo Donald Trump.
“Bem-vindos ao inferno” Algemados nos pulsos e nos pés, os expulsos desembarcaram dos aviões no aeroporto internacional de El Salvador e foram conduzidos ao Centro de Confinamento do Terrorismo (Cecot), uma megapenitenciária de segurança máxima.
“Além do discurso oficial, os dados que conseguimos reunir contavam uma história completamente diferente”, afirma René Valiente, diretor da Cristosal, principal organização humanitária de El Salvador, recentemente obrigado a se exilar.
“Eram migrantes pobres em busca de um futuro melhor nos Estados Unidos. Apenas uma pequena porcentagem tinha antecedentes criminais e, nesses casos, as infrações não indicavam de forma alguma envolvimento com atividades de crime organizado”, explica.
A Cristosal e a HRW constataram que, no Cecot, essas pessoas foram submetidas a graves torturas físicas, psicológicas e sexuais de forma sistemática, além do crime contra a humanidade que constitui o desaparecimento forçado.
“O diretor do centro disse a eles: ‘Bem-vindos ao inferno’, acrescentando que a única maneira de sair de lá era ‘mortos’”, afirma René Valiente.
O responsável pela Cristosal denuncia que, durante os quatro meses em que essas pessoas ficaram detidas nessa prisão, não tiveram acesso a um juiz ou tribunal que lhes oferecesse garantias. Também não foram submetidas a nenhum procedimento judicial. O Estado salvadorenho se recusou sistematicamente a fornecer informações sobre elas, inclusive às suas famílias.
“No direito internacional, isso tem um nome: desaparecimento forçado”, afirma.
Trinta e seis salvadorenhos desaparecidos Em julho de 2025, os venezuelanos recuperaram a liberdade e retornaram ao país em troca de prisioneiros políticos, após uma negociação entre os três governos. Em contrapartida, não houve mais notícias dos salvadorenhos expulsos junto com eles e apresentados como membros das “maras”, as gangues que Bukele classificou como organizações terroristas.
“Assim como no caso dos venezuelanos, conseguimos documentar que os salvadorenhos foram imediatamente apagados de todas as informações que poderiam ser comunicadas pelo governo americano, sem que o governo salvadorenho fornecesse qualquer indicação sobre o local e as condições de sua detenção”, afirma Juanita Goebertus, diretora da divisão das Américas da Human Rights Watch.
Após uma investigação minuciosa, organizações de defesa dos direitos humanos e migrantes nos Estados Unidos conseguiram estabelecer que os três voos de março e abril de 2025 transportaram 36 salvadorenhos expulsos. Desses, apenas 11 foram identificados.
Foi graças às iniciativas dos familiares desses salvadorenhos e de seus advogados junto ao sistema interamericano que foi possível estabelecer onde seis deles estavam. Um está detido no Centro de Confinamento do Terrorismo (Cecot) e os outros no Centro de Execução de Penas de Santa Ana. Essas são as informações fornecidas pelo governo de El Salvador em resposta às medidas cautelares concedidas pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos em favor dessas pessoas expulsas.
“Quanto às outras pessoas, não sabemos onde estão. É por isso que afirmamos que os Estados Unidos, em conluio com El Salvador, as submeteram a um desaparecimento forçado”, insiste Nathalye Cotrino, da HRW.
Publicado originalmente por G1. Leia a matéria completa em https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/09/23/pacto-secreto-entre-trump-e-bukele-fez-migrantes-desaparecerem-em-prisao-de-seguranca-maxima.ghtml.

Agora no g1 — Foto: G1
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