Brasil

    Os robôs de Beijing (por Marcos Magalhães)

    O Brasil precisa estabelecer com clareza os seus objetivos

    Metrópoles
    18 de agosto de 2026 às 13:16
    Os robôs de Beijing (por Marcos Magalhães)
    Foto: Metrópoles

    Ao mesmo tempo em que candidatos saem às ruas no Brasil, no início de uma campanha eleitoral de poucas ideias, do outro lado do mundo o futuro se insinua em um evento que só poderia acontecer ali: a Conferência Mundial de Robôs, em Beijing.

    Mais de um milhão de visitantes devem comparecer a partir de quarta-feira ao centro de convenções Beiren Etrong International, onde mais de 300 empresas apresentarão 150 novos produtos, sob o tema da Simbiose Robôs-Humanos.

    A conferência será uma espécie de vitrine para as últimas novidades em robôs. Uma delas será o Super Homem desenvolvido pela Unitree, a maior empresa mundial de humanoides, capaz de saltar a uma altura de dois metros e correr 12 metros por segundo.

    Com forte apoio governamental, a China está promovendo um grande esforço para se consolidar como liderança mundial no setor. Logo após a conferência, a partir de sábado, ocorrerão os Jogos Mundiais de Robôs Humanoides, com a participação de mais de duas mil máquinas.

    Tudo isso soa como ficção científica para os brasileiros, a 17 mil quilômetros de distância. Na verdade, soa do mesmo jeito para quase todo o resto do planeta – com exceção, talvez, dos Estados Unidos.

    É sempre bom lembrar, porém, que uma competição de robôs não constaria dos sonhos dos próprios chineses há poucas décadas.

    E o Brasil, que hoje assiste com admiração o salto tecnológico de seu maior parceiro comercial, já foi exemplo no passado não muito distante para a China. Em outubro de 1985, o então primeiro-ministro Zhao Ziyang ficou maravilhado ao visitar a usina hidrelétrica de Itaipu e as Cataratas de Iguaçu.

    “Uma imagem vale mais do que mil palavras”, disse ele após contemplar as cataratas e conhecer a usina, que depois serviu de inspiração para a construção de grandes hidrelétricas em seu próprio país.

    De lá para cá, a China se consolidou como segunda maior potência econômica do planeta e protagonista na corrida tecnológica.

    Do lado da energia, além das hidrelétricas, é líder na implantação de usinas solares e eólicas. Na indústria, além dos robôs, assumiu também a liderança em setores como carros elétricos.

    Também o Brasil deu um salto à frente desde 1985. Consolidou a democracia, adotou uma nova Constituição, venceu a hiperinflação e se tornou uma potência global na exportação de produtos agrícolas.

    Ninguém espera que o Brasil alcance tão cedo o estágio de desenvolvimento econômico e tecnológico obtido pela China.

    No momento em que os brasileiros se preparam para ir às urnas, porém, é bom lembrar que os chineses só chegaram onde chegaram porque souberam escolher suas metas e planejar cada passo no caminho do desenvolvimento.

    Pois o Brasil também precisa estabelecer com clareza os seus objetivos. O parco debate eleitoral, até aqui, resume-se – além do combate à violência – à necessidade de um ajuste fiscal, para evitar que a dívida pública saia do controle e para possibilitar uma gradual redução dos juros.

    Pouca gente vai discordar da busca de contas públicas mais equilibradas. Mas um mundo em mutação exige mais. A ruptura da ordem liberal, o crescente protecionismo, as guerras na Europa e no Oriente Médio e a rivalidade entre as grandes potências pedem uma visão estratégica de longo prazo.

    É mais fácil chegar a isso em um país de partido único, como a China. A democracia exige uma contínua busca de consensos que permitam a governabilidade. Dá mais trabalho. É mais barulhento. Mas o Brasil não tem mais muito tempo a perder.

    Em que setores, além da agricultura, podemos ser mais competitivos? Como podemos estimular esses setores, para que olhem de frente o mercado global? Que reformas devemos fazer para aumentar a produtividade de nossa economia? Como construir um país ambientalmente saudável e socialmente mais justo?

    Essas perguntas estarão à frente dos vitoriosos nas urnas em outubro: presidente, governadores, senadores, deputados federais e estaduais. Por enquanto, a campanha tem sido mais agressiva do que propositiva. Ainda há tempo para mudar.

    Publicado originalmente por Metrópoles. Leia a matéria completa em https://www.metropoles.com/blog-do-noblat/artigos/os-robos-de-beijing-por-marcos-magalhaes.

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