Brasil

    Os pterodátilos contra-atacam

    Tive o prazer de saber por José Eduardo Agualusa de um bem-vindo contra-ataque do analógico a certos flancos da ditadura digital: fotógrafos que voltaram a trabalhar com o velho filme, músicos gravando discos em fita magnética e escritores que -como ele- escrevem à mão e depois passam o texto para o computador. Não é só uma volta ao tempo dos pterodátilos. Os mais jovens talvez gostem de saber que há razões inclusive estéticas para essa recuperação de mídias dadas como extintas. É fácil disparar a câmera do celular e ver se, até sem querer, sai algo que preste. Já a foto em filme obriga o fotó

    Folha de S.Paulo
    9 de setembro de 2026 às 11:00
    Os pterodátilos contra-atacam
    Cadernetas do Ruy Castro onde ele escreve â mão as colunas enviadas à Folha — Foto: Folha de S.Paulo

    Jornalista e escritor, autor das biografias de Carmen Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues, é membro da Academia Brasileira de Letras

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    Cadernetas de Ruy Castro, onde ele escreve à mão as colunas publicadas na Folha
    Cadernetas de Ruy Castro, onde ele escreve à mão as colunas publicadas na Folha — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Tive o prazer de saber por José Eduardo Agualusa de um bem-vindo contra-ataque do analógico a certos flancos da ditadura digital: fotógrafos que voltaram a trabalhar com o velho filme, músicos gravando discos em fita magnética e escritores que —como ele— escrevem à mão e depois passam o texto para o computador. Não é só uma volta ao tempo dos pterodátilos. Os mais jovens talvez gostem de saber que há razões inclusive estéticas para essa recuperação de mídias dadas como extintas. É fácil disparar a câmera do celular e ver se, até sem querer, sai algo que preste. Já a foto em filme obriga o fotógrafo, pelo custo do material, a buscar a expressão, a luz e o enquadramento perfeitos antes de clicar. O mesmo quanto à gravação da música em fita. Sem os recursos que hoje permitem afinar desafinados, dar voz a quem não tem e inventar ídolos incapazes de reproduzir no palco o que sai da mesa de som, os artistas precisam mostrar a que vêm. Quanto a escrever à mão, eu próprio teimo em fazer isso —todo dia. Fui dos primeiros da minha turma a trocar a máquina de escrever pelo computador, em 1988, e nunca mais olhei para trás. Mas também nunca abandonei a caneta. Nos 19 anos em que ocupo este espaço na Folha , desde 2007 já produzi mais de 3.000 colunas. Todas escritas primeiro à mão, em cadernetas, com a infalível Bic preta, depois transcritas para o computador e, em muitos casos, impressas, rabiscadas e só então, se as acho prontas, enviadas para o jornal. Escrevo em qualquer lugar —no táxi, na fila do supermercado, na sala de espera do dentista. Acho ótimo. Publicada a coluna, reabro a caderneta e xizo o rascunho de alto a baixo. Não me deixo apanhar de surpresa —se uma caderneta está acabando, já trago outra no bolso, pronta para entrar em campo. E não jogo fora as usadas. Servem para me lembrar o quanto me custaram de queima de massa cinzenta. Estou me interessando agora pelos lápis, treinando em lhes fazer a ponta com gilete e lambê-la (a ponta, não a gilete) antes de escrever.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ruycastro/2026/09/os-pterodatilos-contra-atacam.shtml.

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