Brasil

    Os pais palestinos preocupados com ataques a escolas na Cisjordânia ocupada: 'O que fazer quando colonos atiram em seus filhos?'

    Professores orientam alunos a se esconder se soldados israelenses se aproximarem

    UOL
    17 de setembro de 2026 às 08:00
    Os pais palestinos preocupados com ataques a escolas na Cisjordânia ocupada: 'O que fazer quando colonos atiram em seus filhos?'
    Quatro crianças vestindo camisetas azuis e mochilas caminham em rua com carros estacionados à esquerda. Fundo mostra parede clara e sombra no chão. — Foto: UOL

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    No primeiro dia do novo ano letivo palestino, o diretor da escola masculina de Al-Mughayyir chegou ao trabalho antes do amanhecer, passando pelas cercas de arame farpado recém-instaladas e pelos portões reforçados da escola, enquanto o sol começava a surgir entre as oliveiras ao redor da aldeia, no interior da Cisjordânia ocupada.

    Crianças indo para escola, na Cisjordânia - BBC · BBC
    Crianças indo para escola, na Cisjordânia - BBC · BBC — Foto: UOL · Fonte: UOL

    "Estamos com medo", disse Bassam al-Assaf. "Os alunos estão com medo, e os pais deles estão com medo."

    Seis pessoas, incluindo três alunos da escola, foram mortas em Al-Mughayyir neste ano, em uma onda de violência de colonos contra palestinos. Uma delas foi Aws al-Naasan, 14, morto a tiros por um colono em abril, do lado de fora dos portões da escola.

    "Eu estava dentro da minha sala de aula quando dois alunos pequenos vieram correndo me dizer que havia colonos perto do muro da escola", lembra o professor de inglês Waheed Abu Naem, cujo irmão, Jihad, também foi morto por um soldado israelense no mesmo ataque.

    O impacto da guerra na Cisjordânia
    O impacto da guerra na Cisjordânia — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Waheed disse que estava tentando levar os alunos para um local seguro dentro dos portões da escola quando o colono atirou na direção deles. Imagens gravadas por telefone celular mostram o momento em que Aws foi baleado.

    "Quando o virei de costas, vi muito sangue saindo do nariz e da boca, e a bala em sua cabeça", disse Waheed. "Nós o perdemos."

    Ele contou que as balas continuaram atingindo o prédio da escola enquanto os alunos se escondiam atrás das paredes das salas de aula ou se deitavam no chão.

    O diretor de uma escola em al-Mughayyir, Waheed Abu, ao lado de uma cerca de arame farpado - BBC · BBC
    O diretor de uma escola em al-Mughayyir, Waheed Abu, ao lado de uma cerca de arame farpado - BBC · BBC — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Em um comunicado divulgado na época, o Exército israelense afirmou que pedras haviam sido atiradas contra um carro que transportava "civis, incluindo um soldado da reserva", e que o reservista saiu do veículo e atirou contra suspeitos.

    Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo

    A imprensa israelense afirmou que o reservista foi posteriormente afastado de suas funções e que uma investigação foi aberta.

    Israel expulsa colonos na Cisjordânia
    Israel expulsa colonos na Cisjordânia — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Desde aquele dia, o número de vítimas aumentou, assim como o medo dos pais.

    Durante o verão, outros dois alunos foram mortos a tiros por forças de Tel Aviv durante ataques e incursões de colonos na aldeia, juntamente com um jovem de 19 anos que havia acabado de sair da escola.

    Nos dois casos, o Exército israelense afirmou que suas forças responderam aos responsáveis por "um motim violento".

    Nakba, o grande êxodo palestino lembrado na guerra Israel-Hamas
    Nakba, o grande êxodo palestino lembrado na guerra Israel-Hamas — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Com três carteiras vazias nas salas de aula, alguns pais relutavam em mandar seus filhos de volta para o novo ano letivo.

    A escola fica exatamente na extremidade de Al-Mughayyir, uma aldeia isolada ao nordeste de Ramallah, cada vez mais cercada por postos avançados de colonos judeus e frequentemente bloqueada por forças israelenses, que costumam manter um posto de controle improvisado na entrada.

    Bassam al-Assaf instalou uma longa cerca de arame farpado ao redor do complexo escolar e reforçou os portões da escola para tentar tranquilizar os pais. Equipes de ambulância agora permanecem posicionadas na estrada do lado de fora, e vários pais se ofereceram para passar o dia inteiro diante da escola como uma camada extra de proteção.

    Crianças jogando futebol em uma escola na Cisjordânia - BBC · BBC
    Crianças jogando futebol em uma escola na Cisjordânia - BBC · BBC — Foto: UOL · Fonte: UOL

    "Vim porque isso faz as crianças sentirem que seus pais estão com elas, que estão seguras. Isso lhes dá uma sensação de segurança", disse Haroon Bishara, cujos filhos estudam no primeiro e no segundo ano.

    "Tememos mais por nossos filhos neste ano", disse ele. "Sabemos que a situação na escola não é segura."

    Mas ele afirmou que esse medo vem acompanhado da determinação de não permitir que a ameaça dos ataques de colonos os obrigue a sair.

    O estudante Salim, com seu pai Sami no sofá. Ele foi baleado enquanto brincava com amigos em julho - BBC · BBC
    O estudante Salim, com seu pai Sami no sofá. Ele foi baleado enquanto brincava com amigos em julho - BBC · BBC — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Alinhados no pátio para a primeira reunião do ano, os alunos ouviram as instruções repetidas pelos professores várias vezes ao longo do dia: se soldados ou colonos se aproximarem da escola, não gritem, não se aproximem deles e não reajam.

    Pouco mais de uma hora após o início das aulas, colonos foram avistados pelas janelas da escola: dois homens conduzindo ovelhas por campos palestinos a algumas centenas de metros da escola, enquanto soldados israelenses permaneciam por perto.

    Minutos depois, surgiu outro colono com um rebanho de ovelhas.

    Homem de camisa xadrez e calça escura encostado em cerca de arame farpado com montanhas e vegetação ao fundo sob céu azul.
    Homem de camisa xadrez e calça escura encostado em cerca de arame farpado com montanhas e vegetação ao fundo sob céu azul. — Foto: UOL · Fonte: UOL

    "Eles se aproximaram mais da aldeia desde abril", disse Abu Naem. "Costumavam manter as ovelhas atrás daquela colina, mas agora os soldados trazem os colonos até a aldeia."

    Pedimos ao Exército israelense uma resposta a todas as alegações contidas nesta reportagem, mas ela não foi fornecida antes da publicação.

    Todos os assentamentos israelenses na Cisjordânia ocupada são ilegais segundo o direito internacional. Muitos dos pequenos postos avançados improvisados de colonos que surgiram ao redor de al-Mughayyir também são ilegais segundo a legislação israelense.

    Seis crianças vestindo uniformes esportivos jogam futebol em quadra externa cercada por muros altos com grades no topo. Um adulto observa próximo à parede. O ambiente é iluminado pela luz do dia, com prédios ao fundo.
    Seis crianças vestindo uniformes esportivos jogam futebol em quadra externa cercada por muros altos com grades no topo. Um adulto observa próximo à parede. O ambiente é iluminado pela luz do dia, com prédios ao fundo. — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Mas um dos integrantes das equipes de ambulância posicionadas diante da escola afirmou que, em vez de remover assentamentos ilegais, os soldados israelenses passaram a apoiar e facilitar incursões de colonos na aldeia.

    Hadi al-Naasan, motorista de ambulância na aldeia, disse que houve uma mudança no comportamento das forças israelenses ao longo do último ano. E que o aumento das mortes e dos ferimentos de palestinos em al-Mughayyir neste ano reflete essa mudança.

    "No início de 2025, os ataques de colonos eram poucos devido às intervenções do Exército", afirmou. "Em 2026, a situação mudou completamente: os colonos passaram a contar com proteção total dos soldados da ocupação. Neste ano, o número de mártires é maior, o número de feridos também é muito maior e o número de crianças feridas também aumentou."

    Homem de camiseta azul e menino com faixa no braço estão sentados juntos em sofá bege. Ambiente interno com televisão e móveis ao fundo.
    Homem de camiseta azul e menino com faixa no braço estão sentados juntos em sofá bege. Ambiente interno com televisão e móveis ao fundo. — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Hadi, junto com outros moradores de al-Mughayyir, acredita que alguns colonos israelenses estejam deliberadamente usando crianças como alvo para pressionar os adultos da aldeia a abandonar suas casas.

    Uma Comissão de Inquérito da ONU publicou em junho um relatório que concluiu que os ataques de colonos "instrumentalizaram crianças" como parte de uma estratégia coercitiva mais ampla para expulsar palestinos de suas terras .

    O relatório também descreveu "um padrão de colonos visando deliberadamente crianças palestinas" enquanto elas brincavam perto de suas casas, caminhavam para a escola ou voltavam dela, trabalhavam em fazendas ou conduziam rebanhos, "transformando espaços cotidianos em locais de medo".

    Imagem da matéria
    Foto: UOL · Fonte: UOL

    Israel rejeitou o relatório , classificando-o como uma "farsa difamatória".

    O criador de ovelhas Sami Abu Rahma acredita firmemente que alguns colonos violentos estão tendo crianças como alvo.

    No final de julho, seu filho Salim, de nove anos, foi baleado e ferido enquanto brincava com os irmãos na fazenda de ovelhas da família nos arredores de al-Mughayyir. A bala ainda permanece alojada em seu braço.

    An Italian passport with a smartphone over a tourist magazine of South America, on a light background.
Foto:  Mario / adobe stock
    An Italian passport with a smartphone over a tourist magazine of South America, on a light background. Foto: Mario / adobe stock — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Imagens de câmeras de segurança da fazenda mostram Salim apontando e gritando para os pais que colonos estavam se aproximando, antes de correr para se abrigar com os irmãos e a mãe, enquanto dois disparos são ouvidos. Salim aparece levando a mão ao ombro.

    "Naquele momento, você para de pensar; sente apenas medo", disse Sami. "Medo de que, Deus nos livre, [o agressor] estivesse atirando para matar. A primeira coisa que passa pela sua cabeça é perder aquilo que você tem de mais precioso."

    Segundo ele, o homem que atirou em seu filho morava em um posto avançado ilegal de colonos que surgiu ao lado da fazenda em junho e já havia atirado contra Salim na mesma área uma semana antes.

    "Você já não sente que pode mantê-los seguros na rua, ou mesmo na escola", disse. "Os colonos não querem que permaneçamos aqui, [querem que sintamos] como se não houvesse futuro para nós neste lugar."

    Sami afirmou ser o último criador de ovelhas que restou na região. Os demais foram expulsos pelos ataques de colonos. O colono que atirou em seu filho dizia repetidamente à família para abandonar suas terras, segundo ele.

    "Por mais determinado que você esteja a permanecer", acrescentou, "o que fazer quando os colonos começam a atirar nos seus filhos?"

    O conselho regional dos colonos informou que um soldado fora de serviço foi preso sob suspeita de envolvimento no tiroteio.

    "Lamentamos qualquer dano a pessoas inocentes, judeus ou árabes, e nos opomos a qualquer ato de violência que viole a lei", afirmou em comunicado, acrescentando que rejeita "a tentativa de atribuir à totalidade da comunidade de assentamentos na Judeia e Samaria atos que ainda não foram determinados por investigação, bem como a alegação infundada de que o pastoreio legal de ovelhas ou a presença judaica na área façam parte de um plano deliberado para prejudicar crianças ou expulsar moradores de suas casas."

    Al-Mughayyir faz parte de um padrão que vem se desenrolando em toda a Cisjordânia ocupada, com mais postos avançados ilegais de colonos cercando aldeias palestinas, maior proteção aos colonos por parte das forças israelenses e ataques se deslocando de fazendas e áreas de pastagem para áreas urbanizadas , onde mulheres e crianças correm mais riscos .

    "As crianças, ao verem o Exército entrar, não compreendem a gravidade da situação", disse Hadi al-Naasan, integrante da equipe local de ambulância. "Os adultos têm mais consciência de como os acontecimentos podem evoluir."

    Dados da ONU sugerem que o número de palestinos feridos durante ataques de colonos por soldados israelenses ou pelos próprios colonos aumentou acentuadamente neste ano, chegando a uma média de três feridos por dia, e que o número de ferimentos causados diretamente pelos colonos também é maior.

    Esse aumento foi acompanhado pela expansão dos assentamentos israelenses e dos postos avançados de colonos na Cisjordânia.

    Todos os assentamentos israelenses na Cisjordânia são ilegais segundo o direito internacional, e o governo israelense fortemente favorável aos assentamentos enfrenta crescente pressão internacional, inclusive do Reino Unido , que anunciou sanções nesta semana em resposta às políticas israelenses de assentamento .

    A prisão de alguns colonos violentos e um plano noticiado do primeiro-ministro de Israel para desmantelar postos avançados ilegais na Cisjordânia ainda não conseguiram interromper os ataques nem tranquilizar os palestinos, que afirmam que postos avançados anteriormente demolidos pelas autoridades israelenses foram rapidamente reconstruídos.

    Com as eleições israelenses a menos de dois meses de acontecer, o Ministério das Finanças de Israel deu andamento nesta semana a planos para assumir o controle do registro de terras na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental, medida descrita pela organização israelense de monitoramento de assentamentos Peace Now como "um passo claro rumo à anexação".

    O primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu , atribuiu a violência dos colonos a uma pequena minoria extremista, descrevendo-os em uma entrevista recente à televisão como "150 delinquentes juvenis".

    Desde o início de 2025, a ONU registrou 316 palestinos mortos por forças israelenses ou colonos e mais de 5.600 feridos até o final de julho de 2026. A organização afirma que 20 israelenses foram mortos no mesmo período, incluindo uma criança e oito integrantes das forças de segurança, e que 123 israelenses ficaram feridos.

    Pais palestinos que permaneceram em aldeias como al-Mughayyir apesar da escalada da violência de colonos agora enfrentam um medo crescente de perder seus filhos caso continuem em suas terras.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Semanalmente, os principais fatos do globo, explicados de forma leve e interessante

    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/09/os-pais-palestinos-preocupados-com-ataques-a-escolas-na-cisjordania-ocupada-o-que-fazer-quando-colonos-atiram-em-seus-filhos.shtml.

    Imagem 1
    1 / 12

    Crianças indo para escola, na Cisjordânia - BBC · BBC — Foto: UOL

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)