Brasil

    Os efeitos do negacionismo climático

    Não posso falar dos efeitos do negacionismo climático no mundo inteiro. Mas, do que acontece na França e no Brasil, eu sei porque vivo entre os dois países. A França foi tomada por ondas de calor que provocaram a morte de quase 6.000 pessoas. Houve um recorde trágico de incêndios florestais . E, por causa da secura do clima , as chamas apagadas logo reapareciam noutro lugar. Esses incêndios devoraram quase 100 mil hectares de áreas verdes. Leia mais (08/18/2026 - 22h00)

    Folha de S.Paulo
    19 de agosto de 2026 às 01:00
    Os efeitos do negacionismo climático
    Um operário de escavadeira está demolindo uma estrutura de concreto em um terreno. Ao fundo, há uma montanha e o céu está claro. Um homem vestido com uniforme militar observa a operação de demolição. — Foto: Folha de S.Paulo

    Expressa as ideias do autor e defende sua interpretação dos fatos​

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    Policial militar ambiental observa retroescavadeira demolir casa em área de proteção ambiental em Parelheiros, na zona sul de SP, em ação da Oida (Operação Integrada em Defesa das Águas) - Zanone Fraissat - 3.ago.25/Folhapress
    Policial militar ambiental observa retroescavadeira demolir casa em área de proteção ambiental em Parelheiros, na zona sul de SP, em ação da Oida (Operação Integrada em Defesa das Águas) - Zanone Fraissat - 3.ago.25/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Escritora e psicanalista, é membro da Academia Paulista de Letras

    Não posso falar dos efeitos do negacionismo climático no mundo inteiro. Mas, do que acontece na França e no Brasil, eu sei porque vivo entre os dois países. A França foi tomada por ondas de calor que provocaram a morte de quase 6.000 pessoas. Houve um recorde trágico de incêndios florestais . E, por causa da secura do clima , as chamas apagadas logo reapareciam noutro lugar. Esses incêndios devoraram quase 100 mil hectares de áreas verdes.

    A existência de piromaníacos ou irresponsáveis é inegável, mas ainda que a mudança climática não esteja na origem do incêndio, ela criou as condições ideais para esse tipo de cenário. Os alertas do governo francês —numerosos e regulares—, os bombeiros e a infraestrutura disponível não estiveram à altura da tragédia: 200 mil pessoas foram obrigadas a deixar suas casas.

    Urbanização avança sobre áreas de preservação das represas Billings e Guarapiranga
    Urbanização avança sobre áreas de preservação das represas Billings e Guarapiranga — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A França segue ameaçada pelo fogo e o Brasil, pela redução da oferta de água . São Paulo corre o risco de um "colapso hídrico" , como diz o secretário de Mudanças Climáticas da cidade, José Renato Nalini. Nossos rios foram convertidos em "condutores de imundície", um esgoto a céu aberto.

    O pior é a situação dos reservatórios que abastecem os paulistanos. A represa de Guarapiranga tem sido vítima de ocupações clandestinas e criminosas , que despejam esgoto nos afluentes . O esgoto faz proliferar algas macrófitas, que tomam o leito do reservatório e dificultam a captação da água.

    Consequentemente, com o intuito de fazer a captação, é preciso lançar sobre as algas substâncias químicas perigosas para a saúde —algumas delas cancerígenas. O tratamento não elimina coliformes fecais, microplásticos e resíduos farmacêuticos. Enquanto a sociedade civil não exigir atuação de todos os setores responsáveis a fim de impedir o loteamento de terras destinadas para reservas de água, o problema só vai se agravar.

    Incêndios florestais se espalham pela Europa em meio a calor extremo
    Incêndios florestais se espalham pela Europa em meio a calor extremo — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A Prefeitura de São Paulo mantém ativa a Oida (Operação Integrada de Defesa das Águas) , resultante de um convênio com o governo paulista. A ação se ocupa de demolir construções criminosamente edificadas às margens do manancial. Mas o ritmo da invasão é superior ao da defesa.

    A indústria da construção civil , que inunda São Paulo com novos edifícios , poderia se tornar um exemplo de cidadania, protegendo a reserva de Guarapiranga —a única apenas com nascentes locais. Para tanto, basta cada incorporadora fazer uma "adoção afetiva" de um espaço do perímetro da represa. Daí, já não será possível se apropriar de pequenas vilas, onde moram poucas pessoas, a fim de construir edifícios para 400.

    A indiferença à preservação do reservatório se explica pela negação do que pode acontecer, exatamente como na pandemia. Sabemos hoje que milhares de pessoas não teriam morrido no Brasil se o alerta da Organização Mundial da Saúde (OMS) tivesse sido levado mais a sério.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A negação é um mecanismo de defesa inconsciente contra fatos insuportáveis. Sobre isso, Freud escreveu em 1925, há um século, explicando como lidamos com o que é traumático. Os negacionistas são humanos e devem ser tratados como tal. Mas, além de punir severamente os criminosos pela poluição da água , o poder público precisa fazer uma campanha de difusão sobre o risco do colapso hídrico para convencer a sociedade civil a se manifestar, exigindo atos de cidadania.

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    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/08/os-efeitos-do-negacionismo-climatico.shtml.

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    Policial militar ambiental observa retroescavadeira demolir casa em área de proteção ambiental em Parelheiros, na zona sul de SP, em ação da Oida (Operação Integrada em Defesa das Águas) - Zanone Fraissat - 3.ago.25/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo

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