Brasil

    Os efeitos da crise de confiança pública em nossas relações privadas

    O que acontece quando a crise de confiança pública se instaura nas relações privadas e, pior, quando passamos a usar com quem amamos os mesmos métodos que condenamos no Judiciário ? Leia mais (09/16/2026 - 12h00)

    Folha de S.Paulo
    16 de setembro de 2026 às 15:00
    Os efeitos da crise de confiança pública em nossas relações privadas
    Foto: Folha de S.Paulo

    Escrita por Carol Tilkian, psicanalista, pesquisadora de relacionamentos e palestrante. Fundadora do podcast e do canal Amores Possíveis e professora da Casa do Saber

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    Gorodenkoff/Adobe Stock · Gorodenkoff/Adobe Stock
    Gorodenkoff/Adobe Stock · Gorodenkoff/Adobe Stock — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O que acontece quando a crise de confiança pública se instaura nas relações privadas e, pior, quando passamos a usar com quem amamos os mesmos métodos que condenamos no Judiciário ?

    Freud, em "O Mal-estar na Civilização", diz que a primeira exigência da civilização é a justiça: a garantia de que a lei não será violada em favor de alguém. Um tribunal é, simbolicamente, seu guardião.

    Nas últimas semanas , diante de vazamentos, quebras de sigilo e decisões que puseram em xeque o respeito às regras comuns, cada um de nós se viu duvidando justamente de quem deveria zelar por elas.

    Por que mulheres dizem estar no 'mapa da fome hétero'
    Por que mulheres dizem estar no 'mapa da fome hétero' — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Metade dos brasileiros (49,7%) diz ter pouca ou nenhuma confiança no STF (Supremo Tribunal Federal). E o motivo da desconfiança pública é exatamente o que se replica nas relações privadas: 51,6% acreditam que as decisões são tomadas por interesse próprio, e não pelo bem comum, segundo a pesquisa Meio/Ideia de 4 a 7 de setembro.

    É essa suspeita que passa a nortear um paradoxo corrosivo nos nossos amores. Mais do que nunca buscamos a confiança como principal valor numa relação e, mais do que nunca, desconfiamos daquele em quem juramos querer confiar.

    Em tempos de lobos em pele de cordeiro, de juízes, de ministros e de amigos, 41% dos brasileiros colocam a honestidade como o fator principal que uma relação precisa ter. São dados do "Raio X da Vida Afetiva", pesquisa que conduzi com Camila Holpert com mil brasileiros de todas as regiões e idades.

    Nem todo término de relacionamento amoroso precisa significar o fim do vínculo
    Nem todo término de relacionamento amoroso precisa significar o fim do vínculo — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Confiança é o novo anel de brilhantes do amor brasileiro: 62% de quem viu a relação melhorar este ano atribuem a melhora à confiança. Entre quem viu piorar, apenas 9% diziam confiar no parceiro, e essa desconfiança foi fator decisivo para a sensação de crise e insegurança.

    Dizemos que buscamos no casal o refúgio do tribunal, mas o que observo é que o casal vira o próprio tribunal. Assim como na política, o medo e a incredulidade se tornaram maiores que a fé: já acreditamos demais, já nos entregamos demais, nos abrimos demais, flexibilizamos demais. Para muitos resta o gosto amargo e a culpa de ter se anulado, de ter duvidado do próprio ciúme, de ter passado por cima dos próprios limites em nome do sentimento.

    Somos todos gatos escaldados. Medrosos. Machucados. Sobreviventes de falta de carinho e de verdade. Hoje o maior medo de quase metade dos brasileiros (42,6%) é se machucar de novo . E este medo não é só das ações e mentiras do outro. É também medo de nós mesmos, que, quando apaixonados, já nos vimos iludidos, anulados, diminuídos.

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O psicanalista húngaro Sándor Ferenczi mostrou que o que traumatiza não é o acontecimento, mas o desmentido: quando quem deveria reconhecer o que aconteceu nega, relativiza ou silencia, passamos a duvidar da própria percepção. Exatamente o que assistimos na sessão pública do STF . A crise pública e os ecos dos nossos dramas privados produzem essa desconfiança de si. E quem não confia no que vê precisa que o outro prove o tempo todo. Queremos certezas e garantias.

    Garantia é palavra de contrato: é o que o credor exige quando a palavra do devedor não basta. Antes de ser joia, o anel foi a penhor. Pedimos confiança e oferecemos vigilância. E, pior, nos tornamos juízes em causa própria, reproduzindo no privado as mesmas práticas que condenamos nas figuras públicas.

    A primeira é a suspeita de motivo: deixo de julgar o ato e passo a julgar o interesse escondido atrás dele. O celular que ficou sem bateria no happy hour deixa de ser um celular sem bateria e vira prova de alguma coisa com a Leila do RH.

    A segunda é a régua dupla. A lei existe, mas não vale para todos: serve para justificar os meus atos e condenar os do parceiro. Na "Radiografia da Infidelidade" (2022), 95% dos brasileiros dizem que é um absurdo o parceiro mentir sobre estar tendo um caso . E os mesmos 95% dizem que mentiriam se estivessem tendo um.

    A terceira prática é a quebra de sigilo. Tão defendida por nós nesse momento da política, posto que entendemos nas tramas do Supremo que toda manutenção de sigilo foi, antes de tudo, um recurso para esconder o que não se quer revelado e não um cuidado com a privacidade e garantias individuais. No contexto em que vivemos, violar o sigilo deixa de parecer invasão e passa a parecer direito.

    E a lógica vem para casa: entramos no WhatsApp do parceiro; pedimos a localização em tempo real, a senha do celular, a captura de tela da conversa que já foi apagada. 30% dos brasileiros acham aceitável monitorar o parceiro sem consentimento , segundo pesquisa feita pela empresa de cibersegurança Kaspersky de 2021.

    Prova, delação, vazamento, sentença. Palavras e práticas da vida judicial e da vida política organizando —e implodindo—a vida a dois. Será que temos mesmo que nos render a uma lógica defensiva, que relativiza os limites do outro e a própria ética para conter o medo?

    Georg Simmel, filósofo alemão, definiu a confiança como um estado intermediário entre o saber e o não saber: quem sabe tudo não precisa confiar. E o desejo de voltar a ele está declarado: 1 em cada 5 brasileiros diz que seu grande desafio é confiar novamente, e 1 em cada 3 fala da urgência de diminuir a própria ansiedade. Se nos parece difícil acreditar em regras comuns e num bem-estar coletivo no âmbito público, que possamos exercitá-lo no privado. Sim, ficaremos angustiados, enciumados, com pulgas atrás da orelha. Que possamos falar dos nossos medos sem atacar nem invadir o outro.

    Ao invadir o espaço do outro em busca de provas de amor e de honestidade para construir confiança, destruímos o vínculo porque tiramos dele o que ele tem de mais importante: o privado, o íntimo, a distância que permite a proximidade.

    Discussões, notícias e reflexões pensadas para mulheres

    E se você também tem um dilema ou uma dúvida sobre suas relações afetivas, me escreva no colunaamorcronico@amorespossiveis.love. Toda quarta-feira respondo a uma pergunta aqui.

    LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Na página Colunas da Folha você encontra opinião e crônicas de colunistas como Mônica Bergamo , Elio Gaspari , Djamila Ribeiro , Tati Bernardi , Dora Kramer , Ruy Castro , Muniz Sodré , Txai Suruí , José Simão , Thiago Amparo , Antonio Prata e muito mais.

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/amor-cronico/2026/09/os-efeitos-da-crise-de-confianca-publica-em-nossas-relacoes-privadas.shtml.

    Imagem 1
    1 / 4

    Gorodenkoff/Adobe Stock · Gorodenkoff/Adobe Stock — Foto: Folha de S.Paulo

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)