Os efeitos colaterais do súbito emagrecimento da fila do INSS
Inspirado na moda das canetas emagrecedoras , a sensação é de que aplicaram regime similar na gigantesca fila do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social). O emagrecimento artificializado vem causando efeitos acelerados na autarquia. Leia mais (08/12/2026 - 07h00)

Advogado especialista em Previdência Social, é professor, autor do livro Fraude nos Fundos de Pensão e mestre em Direito Previdenciário pela PUC-SP
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Inspirado na moda das canetas emagrecedoras , a sensação é de que aplicaram regime similar na gigantesca fila do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social). O emagrecimento artificializado vem causando efeitos acelerados na autarquia.
Em fevereiro deste ano, eram 3,1 milhões de pessoas aguardando resposta há mais de 45 dias. Hoje, a fila regrediu em quase 90% do tamanho.
Em entrevista à Record News, o ministro da Previdência Social , Wolney Queiroz , anunciou que atualmente há cerca de 370 mil requerimentos pendentes e que devem ser zerados ainda este ano, mas pode acontecer entre setembro e outubro, antes das eleições. "Um feito inédito".

Com a mesma rapidez da inapetência de usuários de tirzepatida , princípio ativo usado nas canetas, em poucos meses a fila do INSS trocou a obesidade mórbida pela magreza anoréxica.
Com mais de 36 anos de existência, o INSS nunca apresentou esse metabolismo. Pelo contrário, vem envelhecendo mal. Cheio de comorbidades, como corrupção, inoperância, ingerência política e desorganização administrativa.
Essa redução brusca é algo histórico. Mas é cedo para comemorar. Diante da suspeita de que não se trata de emagrecimento saudável e equilibrado, é melhor aguardar a janela de estabilização.
Da mesma forma que algumas mulheres emagrecem na proximidade do verão, o INSS montou espécie de força-tarefa para ficar esbelto e instagramável até o evento das eleições. Depois disso, há uma desconfiança de que tudo voltará ao que era antes. O tamanho da fila do INSS deverá ter o formato barrigudo.
Até lá, o INSS vem usando da criatividade e de vários atalhos no encolhimento dos números. As negativas de benefícios dispararam para 66,5% nesse ano de 2026, além do afrouxamento de concessões sem perícia médica no Atestemed , imposição de biometria para requerimentos em curso, negativas sem análise de peritos médicos, expansão dos incentivos financeiros para os servidores trabalharem mais.
A novidade agora é que existe uma brecha no INSS que pode influenciar na caracterização da demora da fila. Quase uma "maquiagem estatística".
Historicamente, o desafio de todo governo consiste no INSS responder os requerimentos no prazo de até 45 dias. Esse número é representativo. Além de ser exigência legal, é parâmetro objetivo na sua medição. O TCU (Tribunal de Contas da União), inclusive, já pressionou o INSS para honrá-lo.
Todavia, a contagem do prazo pode ser estancada se o servidor abrir exigência para o segurado tomar alguma providência, a exemplo de anexar documentos. Curiosamente, alguns servidores do INSS vêm abrindo exigências com a seguinte frase: "Seu pedido será analisado por outro servidor".
É um procedimento que foge do roteiro e da lógica, até porque prescindível anunciar que haverá de ser apreciada.
Esse procedimento provoca consequências. Camufla a estatística dos processos parados, artificializa a eficiência administrativa, induz o TCU em erro, confunde o segurado com exigência inútil e provoca retenção de processos para servidor ganhar mais bônus, pois tarefa em exigência evita que o robô redistribua o caso para outrem.
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Apesar de constar como exigência, em nota o INSS esclareceu que se trata apenas de uma "comunicação administrativa interna que ficou visível para o segurado."
A mensagem não demanda nova exigência ao requerente. No entanto, é importante que o segurado "verifique se existe outra exigência vinculado ao processo". E que tudo isso não passou de intercorrência administrativa diante de milhões de casos.
O problema de zerar a fila do INSS a qualquer custo é adiar o problema, aumentando o gasto público com indenizações, juros e correção. Essa redução não deve ser ostentada como troféu ou marca de uma gestão, acaso a redução não tenha se desenvolvido respeitando o direito de tantos que anseiam por uma resposta sensata.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/romulo-saraiva/2026/08/os-efeitos-colaterais-do-subito-emagrecimento-da-fila-do-inss.shtml.

Superintendência Regional do INSS no Centro Histórico de São Paulo - Rafaela Araújo - 11.jul.2025/Folhapress · Rafaela Araújo - 11.jul.2025/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
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