Os desafios de meninas que enfrentam uma gravidez precoce
A pesquisa "Marcas do tempo", da Plan International Brasil , ouviu mais de 1.500 mulheres em todas as regiões do país e mostra que a gravidez na infância e na adolescência não é um evento pontual: seus efeitos se estendem por toda a vida, atingindo trajetórias educacionais, econômicas e sociais. Leia mais (08/19/2026 - 08h00)

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Coordenadora de Advocacy e Direitos Sexuais e Reprodutivos da Plan International Brasil
A pesquisa "Marcas do tempo", da Plan International Brasil , ouviu mais de 1.500 mulheres em todas as regiões do país e mostra que a gravidez na infância e na adolescência não é um evento pontual: seus efeitos se estendem por toda a vida, atingindo trajetórias educacionais, econômicas e sociais.
Mais do que medir casos, o estudo revela como a gravidez precoce aprofunda desigualdades de gênero , raça, renda e território, limitando o acesso a direitos como educação, saúde e proteção integral.

Os resultados apontam para um ciclo de violências em três atos. O primeiro é a prevenção: o acesso à informação sobre sexualidade e contracepção ainda é insuficiente, marcado por tabus e pela falta de educação sexual baseada em evidências.
Entre as meninas que engravidaram antes dos 14 anos e foram vítimas de estupro de vulnerável , apenas metade recebeu informações sobre o direito à interrupção legal da gravidez. Sem protocolo nacional e fluxo integrado, esse direito se perde entre a lei e a prática.
O segundo ato é a gravidez em si. A gestação precoce é hoje o principal motivo de evasão escolar entre adolescentes : meninas que engravidam antes dos 19 anos têm 24 pontos percentuais a mais de chance de não estudar, e a gravidez aumenta em 49 pontos a probabilidade de abandono escolar.

Segundo o Ipea (Instituto de Pesquisas Econômicas Avançadas), concluir o ensino médio pode representar cerca de R$ 480 mil a mais em ganhos ao longo de 40 anos, o que se perde quando essa trajetória é interrompida.
A lei nº 6.202/1975 garante à estudante gestante o direito a exercícios domiciliares a partir do oitavo mês, mas o estigma e a falta de acolhimento escolar continuam sendo os principais obstáculos à sua efetivação.
O terceiro ato é a maternidade. A sobrecarga do trabalho doméstico e do cuidado com os filhos , somada à falta de creches, afasta jovens mães da educação e do mercado de trabalho: 83% relatam impactos nas oportunidades de renda.

Essa sobrecarga também cobra um preço na saúde mental. Normalizada como parte da maternidade, ela é vivida em silêncio, o que ajuda a explicar por que essas jovens buscam menos, e não mais, os serviços de saúde.
Políticas como o Pé-de-Meia , aliadas à ampliação de creches e cuidado psicossocial, são caminhos para evitar que a maternidade interrompa esses projetos de vida.
O estudo também liga gravidez precoce e casamento infantil: 53% das mulheres que engravidaram na infância ou adolescência estão casadas ou em união estável, o dobro da proporção entre as demais.
O Brasil ocupa a 6ª posição mundial em número absoluto desses casamentos. O censo de 2022 do IBGE identificou 34 mil crianças de 10 a 14 anos em união conjugal . Entre uma criança de até 14 anos e um parceiro mais velho não existe consentimento válido, o que revela a naturalização do abuso sexual infantil.
As marcas do tempo também revelam resistência e busca por autonomia, mas essa responsabilidade não pode recair sozinha sobre meninas e mulheres. Enfrentar essa realidade exige acesso à informação, permanência escolar e apoio às jovens mães no mercado de trabalho.
Também exige levar a sério a prioridade absoluta que a Constituição já garante a crianças e adolescentes, com protocolos que efetivem o direito à interrupção legal da gravidez decorrente de violência sexual, combate ao casamento infantil disfarçado de "relação consensual" e cuidado com a saúde mental dessas jovens.
As evidências mostram que mudar essas trajetórias é possível. Nenhuma menina deveria ter seu projeto de vida definido por desigualdades que a sociedade tem o dever de combater.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/papo-de-responsa/2026/08/os-desafios-de-meninas-que-enfrentam-uma-gravidez-precoce.shtml.

Milena (nome fictício), 20, conta como se casou com 14 anos com um homem de mais de 22 anos, em Belém (PA) - Mathilde Missioneiro - 06.nov.2021/Folhapress · Mathilde Missioneiro - 06.nov.2021/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
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