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    'Os Armários Vazios' permite ler Annie Ernaux antes de Annie Ernaux

    Há uma pequena perversidade na ordem em que Annie Ernaux vem sendo lida no Brasil: conhecemos primeiro a escritora que já havia encontrado sua forma. Leia mais (09/18/2026 - 13h00)

    Folha de S.Paulo
    18 de setembro de 2026 às 16:00
    'Os Armários Vazios' permite ler Annie Ernaux antes de Annie Ernaux
    Mulher idosa com cabelos grisalhos e expressão neutra, vestindo blusa bege, em ambiente externo com céu azul ao fundo. — Foto: Folha de S.Paulo

    Expressa juízo de valor sobre a obra cultural comentada e destaca seus elementos positivos e negativos

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    A escritora Annie Ernaux durante o Festival de Cannes, em maio - Valery Hache - 17.mai.2026/AFP · Valery Hache - 17.mai.2026/AFP
    A escritora Annie Ernaux durante o Festival de Cannes, em maio - Valery Hache - 17.mai.2026/AFP · Valery Hache - 17.mai.2026/AFP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Crítico literário e professor de literatura na Universidade Federal Fluminense

    Há uma pequena perversidade na ordem em que Annie Ernaux vem sendo lida no Brasil: conhecemos primeiro a escritora que já havia encontrado sua forma.

    Em "O Lugar", "Uma Mulher" e "O Acontecimento" , a experiência pessoal é submetida a uma espécie de decantação, como se escrever exigisse retirar do passado qualquer facilidade sentimental antes de devolvê-lo ao leitor. Agora chega "Os Armários Vazios", seu primeiro romance, publicado na França em 1974 e traduzido por Mariana Delfini.

    Conheça Annie Ernaux, autora de
    Conheça Annie Ernaux, autora de — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Quase tudo está lá. A filha de pequenos comerciantes que avança pela escola e descobre que aprender significa também adquirir vergonha da própria família; a violência das distinções de classe inscrita nos gestos e na língua; a mãe excessiva, que quer a filha acima dela; o pai pertencente a um mundo que a filha começa a observar de fora; o sexo feminino cercado por culpa e vigilância; o aborto clandestino; a educação como promessa de libertação e instrumento de separação.

    Quem chega a "Os Armários Vazios" depois dos outros livros pode ter a impressão de entrar numa casa cujos móveis já conhece, só que aqui eles ainda estão todos no mesmo cômodo.

    Ernaux ainda não distribuiu essa matéria pelos livros que escreverá nas décadas seguintes nem encontrou para cada experiência a forma particular de observá-la. No primeiro romance, tudo irrompe junto, embaralhado pela raiva e pela memória da protagonista.

    Capa de 'Os Armários Vazios', o primeiro romance de Annie Ernaux - Divulgação · Divulgação
    Capa de 'Os Armários Vazios', o primeiro romance de Annie Ernaux - Divulgação · Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Denise, estudante de letras de 20 anos, acaba de sair da casa de uma aborteira clandestina e espera, em um quarto da cidade universitária, que a sonda faça efeito. É desse presente físico e ameaçador que parte o romance.

    Entre as contrações e o medo, ela remonta à infância, à entrada na escola, às primeiras humilhações, aos sucessos acadêmicos, à adolescência e aos homens. A memória avança aos solavancos porque o corpo também está aos solavancos. A cena do aborto funciona como detonador: diante da possibilidade da morte, Denise procura descobrir em que momento sua vida se tornou aquela vida.

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    Capa com fundo em tons de amarelo, rosa e vermelho. Foto em sépia mostra duas pessoas na janela de uma casa antiga com a inscrição "Mercerie". Texto com o nome da autora Annie Ernaux e o título do livro "Os Armários Vazios". Selo indicando
    Capa com fundo em tons de amarelo, rosa e vermelho. Foto em sépia mostra duas pessoas na janela de uma casa antiga com a inscrição "Mercerie". Texto com o nome da autora Annie Ernaux e o título do livro "Os Armários Vazios". Selo indicando — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Décadas depois, Ernaux voltaria ao mesmo aborto em "O Acontecimento". A comparação ajuda a medir o caminho percorrido pela escritora. Em "Os Armários Vazios", o episódio pertence ainda a uma personagem e alimenta um romance de formação às avessas.

    Em "O Acontecimento", Ernaux fará do aborto o centro do livro e o reinscreverá, sem a proteção de Denise Lesur, na história coletiva das mulheres. O que aparece misturado à fúria de uma jovem será retomado como objeto de investigação.

    Algo semelhante ocorre com os pais. A matéria que produzirá "O Lugar" e "Uma Mulher" já aparece quase inteira no primeiro romance, com outra temperatura. Denise olha para a maneira como os pais comem, falam, se vestem e recebem clientes com o horror recente de quem aprendeu que aquilo pode ser considerado vulgar.

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A escola lhe ofereceu os códigos necessários para subir e, junto com eles, os instrumentos para julgar aqueles que financiaram sua subida. Cada aprovação a afasta um pouco mais dos pais, e esse afastamento volta como culpa. A educação acaba produzindo uma estrangeira dentro da própria família, cuja violência é palpável do início ao fim da narrativa.

    Essa violência determina também a forma do livro. A prosa é febril, cumulativa, cheia de insultos, enumerações, associações e mudanças bruscas de direção. Há pouco da contenção que o leitor passou a associar imediatamente à autora.

    Talvez seja essa a maior surpresa proporcionada pela publicação brasileira: "Os Armários Vazios" contém a obra futura de Ernaux, mas ainda sob pressão. As matérias às quais ela voltará durante décadas aparecem aqui comprimidas na consciência de Denise Lesur.

    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor
    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Ler esse livro depois dos demais permite perceber tanto o que já estava lá quanto aquilo que Ernaux precisou abandonar para se tornar a escritora que conhecemos: desapareceriam a personagem, o excesso e parte daquela raiva quase sem mediação. Os temas permanecem, já a forma muda radicalmente.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/09/os-armarios-vazios-permite-ler-annie-ernaux-antes-de-annie-ernaux.shtml.

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    A escritora Annie Ernaux durante o Festival de Cannes, em maio - Valery Hache - 17.mai.2026/AFP · Valery Hache - 17.mai.2026/AFP — Foto: Folha de S.Paulo

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