Os aperitivos e o vazio existencial de Antonioni
A palavra aperitivo ou apéritif vem do latim aperire, "abrir". Abrir o apetite. No Brasil, na França e na Grécia, abre-se o apetite com aperitivos fortes, para lá dos 40% de álcool -cachaça, pastis e ouzo, por exemplo. Já italianos e espanhóis preferem algo mais fraco: um vermute , um bitter, um xerez seco. Leia mais (09/30/2026 - 18h59)

Coluna é assinada pelo jornalista e tradutor Daniel de Mesquita Benevides
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A palavra aperitivo ou apéritif vem do latim aperire, "abrir". Abrir o apetite. No Brasil, na França e na Grécia, abre-se o apetite com aperitivos fortes, para lá dos 40% de álcool —cachaça, pastis e ouzo, por exemplo. Já italianos e espanhóis preferem algo mais fraco: um vermute , um bitter, um xerez seco.
É uma postura sensata, assopra a intuição. Ao se perder nas brumas etílicas antes de comer, corre-se o risco de perder também a distinção gustativa. Seria melhor, portanto, acelerar aos poucos e deixar para escorregar na jaca com o bucho pleno, uma rede de segurança para a bebericagem de responsa. Aí, sim, conhaques, licores, Calvados, single malt, aquela pinga envelhecida e, não menos importante, os deliciosos coquetéis digestivos.
Dito isso, vamos ao cinema. Pois Michelangelo Antonioni , elegância máxima do celuloide, era um adepto dos aperitivos. Marcas famosas da velha bota, como Campari, Martini, Carpano e Cinzano, aparecem casualmente em seus filmes . Como no clássico "La Notte".

É a parte central da chamada Trilogia da Incomunicabilidade, que começa com "A Aventura", em 1960, e termina com "O Eclipse", dois anos depois. No filme, um casal em crise existencial vaga pela noite de Milão (Marcello Mastroianni e Jeanne Moreau). Por onde vão, há quase sempre um copo ou uma taça, com o som do choque entre os gelos pontuando conversas que exalam alienação emocional.
Mas os aperitivos em "A Noite" não abrem o apetite; ao contrário, despertam um certo desapetite pela vida, o caminho melancólico para o desentendimento, a indiferença, o desespero —é uma breve anestesia para o que virá. Tudo é muito bonito, os atores gesticulam e conversam naturalmente, como se não houvesse câmeras ao redor, mas prevalece o sentimento de vazio. Mesmo com todo o dinheiro, charme e boas intenções, o amor foi parar num beco sem saída, parecem dizer os fotogramas.
Na época, o grande cineasta posou com o elenco no Terrazza Martini de Milão : ele, o casal de protagonistas e a radiante Monica Vitti . Trata-se de um rooftop bar da antiga casa de vermutes, no alto de um arranha-céu. Outros oito terraços na mesma linha foram instalados em cidades estratégicas, como Paris, Veneza e Roma , onde foi palco do lançamento de " La Dolce Vita ", de Fellini.

"As Amigas", obra-prima anterior de Antonioni, de 1955, tem uma cena logo no início mostrando o encontro da personagem central Clelia (Eleonora Rossi Drago) com Cesare (Franco Fabrizi) para tomar um aperitivo. O pedido é Campari, bitter e Punt e Mes, que é um vermute mais amargo criado em 1870 pela Carpano, em Turim, onde se passa o filme. (A Casa Martini fica a 30 km da cidade.)
A Campari, por sua vez, escalou Paolo Sorrentino, de "A Grande Beleza", discípulo dos cineastas italianos dos anos 1960, para dirigir um curta promocional, com Clive Owen como garoto-propaganda. Serve, quem sabe, como aperitivo aos belos filmes de Antonioni.
Coloque os ingredientes num copo highball com gelo até o topo. Decore com uma rodela de laranja.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/daniel-de-mesquita-benevides/2026/09/os-aperitivos-e-o-vazio-existencial-de-antonioni.shtml.

'A Noite' (1961), de Michelangelo Antonioni - Reprodução · Reprodução — Foto: Folha de S.Paulo
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