Organização ligada à CIA vai treinar e financiar funcionários do Banco Mundial no Brasil
O Banco Mundial assinou um contrato com a Noble Reach, organização ligada à CIA (Agência Central de Inteligência, semelhante à Abin), para enviar oito funcionários norte-americanos para os escritórios do banco no Brasil, Panamá e Colômbia . Leia mais (09/22/2026 - 12h15)

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O Banco Mundial assinou um contrato com a Noble Reach, organização ligada à CIA (Agência Central de Inteligência, semelhante à Abin), para enviar oito funcionários norte-americanos para os escritórios do banco no Brasil, Panamá e Colômbia .

Os funcionários serão pagos com recursos da entidade, que passou por uma fusão com uma subsidiária da agência de inteligência americana em 2022. A Noble Reach também treinará e oferecerá mentoria aos funcionários enviados para o Banco Mundial na América Latina .
A organização, que descreve a própria missão como defesa da "segurança nacional e econômica" dos Estados Unidos , tem contratos com a NSA (Agência Nacional de Segurança) e com o Departamento de Defesa do país.
O Banco Mundial afirmou em nota que o programa de talentos é semelhante a outras iniciativas de empresas ao redor do mundo, e reiterou que os participantes estarão sujeitos às regras do banco, sem ligação com a entidade doadora. A NobleReach foi questionada, mas não respondeu à reportagem.

Em 2022, a NobleReach fundiu-se com a IQT Emerge, subsidiária da In-Q-Tel. A In-Q-Tel é o braço de venture capital, setor de investimento voltado a empresas de estágio inicial, da CIA.
A fundação firmou, em 2025, parceria com a NSA, a agência de segurança nacional dos EUA envolvida em casos de espionagem também no Brasil , para recrutar jovens para trabalhar na área de inteligência. O contrato tem teor semelhante ao da entidade com o Departamento de Defesa americano.
Já com a Darpa, a agência de pesquisas avançadas do Pentágono, a NobleReach tem um acordo para desenvolvimento de tecnologia de uso dual, civil e militar. A organização é membro-fundador da Tech Force da Casa Branca, que visa contratar especialistas em cibersegurança, inteligência artificial e software para trabalhar em cargos ligados à segurança nacional no governo americano.

"O trabalho da NobleReach aumenta a confiança entre governo, indústria e academia, e é essencial para a dominância dos EUA na competição de ameaças globais", diz no site da organização Victoria Virasingh, vice-presidente sênior de alianças estratégicas da NobleReach. A organização tem ativos de US$ 448 milhões (R$ 2,3 bilhões) segundo dados do imposto de renda americano compilados pela ProPublica.
Segundo o contrato entre o Banco Mundial e a NobleReach, obtido pela Folha , a organização financiará funcionários da organização internacional no Brasil, Panamá e Colômbia por meio de uma doação de US$ 500 mil (R$ 2,5 milhões) ao fundo truste (que passa a administração de bens para um terceiro) da instituição.
O acordo gerou estranhamento entre funcionários do banco, já que a instituição costuma receber doações de governos, não de organizações, e com foco em desenvolvimento e clima , não em segurança nacional .

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O foco da In-Q-Tel e da IQT Emerge, absorvida pela NobleReach em 2022, é investir em tecnologias de uso duplo –comercial e para segurança nacional– que sejam estratégicas para a CIA e agências de inteligência dos EUA. A In-Q-Tel foi uma das primeiras investidoras da Palantir, a gigante de IA e vigilância que é uma das maiores fornecedoras do Departamento de Defesa americano.
A NobleReach funciona como catalisador de talentos para contratação pelo Pentágono, CIA e NSA. Mas, por meio da NobleReach Emerge, também atua em projetos considerados estratégicos para segurança nacional americana –como o de verificação autônoma de cabos submarinos com a gigante de defesa Anduril.

As vagas da parceria entre World Bank Explorer Program e a NobleReach Scholars são exclusivas para cidadãos americanos. São duas vagas em Brasília , duas em São Paulo , duas no Panamá e duas na Colômbia. As vagas são para áreas de análise financeira, infraestrutura e administração.
No site institucional, a NobleReach afirma que o programa de bolsas "oferece um caminho único e estruturado para que talentos emergentes em ciência e tecnologia sejam empregados na comunidade de inteligência dos EUA, incluindo conexões diretas para empregos na NSA e intersecções com a CIA".
O banco não especifica se os funcionários trabalharão em projetos de minerais críticos e infraestrutura de tecnologia. Também não consultou previamente o governo brasileiro sobre o envio dos funcionários ligados à fundação.
Procurado, o diretor-executivo Marcos Vinicius Chiliatto, que representa Brasil, Colômbia, República Dominicana , Equador , Haiti , Panamá, Filipinas , Suriname e Trinidad e Tobago , afirmou que "esse tema não é de competência do Conselho (representantes dos países membros) e, sim, da Administração. Ainda assim, quando tomei conhecimento do processo, solicitei informações sobre a diligência prévia efetuada pela administração do banco antes de assinar o convênio e solicitei um parecer do departamento jurídico, além de pedir que as contratações não fossem efetivadas até a conclusão dessas consultas.
A Folha enviou nove perguntas ao Banco Mundial, questionando o tipo de treinamento e mentoria que a NobleReach oferecerá aos funcionários do banco, além do motivo para a escolha da organização como parceira e se os países anfitriões poderiam se recusar a receber os funcionários.
A reportagem também indagou se a organização internacional não vê conflito de interesses entre as atividades de inteligência e segurança nacional dos EUA da NobleReach e a neutralidade do banco como instituição multilateral de fomento ao desenvolvimento. O órgão não respondeu às perguntas e enviou nota.
"O Programa Explorers do Grupo Banco Mundial é um programa de talentos financiado por doadores, concebido para oferecer a profissionais de países desenvolvidos em início de carreira experiência prática de campo em apoio ao trabalho de desenvolvimento do banco", afirmou a instituição. Segundo a assessoria, o Banco Mundial "mantém programas similares de talentos com financiamento externo em parceria com organizações ao redor do mundo."
Segundo a instituição, os participantes do programa estão sujeitos às normas e padrões de conduta do Banco Mundial e se reportam a gestores da instituição, não possuindo qualquer vínculo empregatício ou hierárquico com o doador. "O acordo com a NobleReach, doador de parte deste programa, passou pelos processos padrão de due diligence, análise jurídica e institucional, e aprovação do Grupo Banco Mundial."
Questionado posteriormente sobre quais outras organizações, além de governos soberanos, são doadores do programa, o banco não respondeu.
A Folha enviou três emails com 15 perguntas à NobleReach, mas não obteve retorno.
Vários ex-integrantes da CIA e do Pentágono estão nos conselhos diretivos da NobleReach, entre eles Constantine Saab, que trabalhou por 18 anos na agência de inteligência americana e chegou à chefia de estratégia da agência, e Lisa Disbrow, presidente do conselho da Associação da Indústria de Defesa dos EUA e ex-secretária da Aeronáutica no Pentágono.
Entre os mentores do programa parceiro com o Banco Mundial estão o general Paul Nakasone, ex-diretor da NSA e comandante do Comando Cibernético dos EUA, e John Raymond, ex-chefe das Operações Espaciais do Departamento de Defesa.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2026/09/organizacao-ligada-a-cia-vai-treinar-e-financiar-funcionarios-do-banco-mundial-no-brasil.shtml.

Sede do Banco Mundial, em Washington, capital dos Estados Unidos - Liu Jie - 21.abr.22/Xinhua · Liu Jie - 21.abr.22/Xinhua — Foto: Folha de S.Paulo
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