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    ONG teria desviado R$ 420 mil para papelaria da nora de "pastor talarico"

    Investigações da PF revelaram um esquema de corrupção envolvendo empresas de fachada e contratação de familiares do pastor Manoel Xavier

    Metrópoles
    21 de setembro de 2026 às 12:15
    ONG teria desviado R$ 420 mil para papelaria da nora de "pastor talarico"
    Foto: Metrópoles

    Investigada pela Polícia Federal (PF), a Associação Beneficente Evangélica (ABE) recebeu R$ 850 mil de verbas federais para promover ações de capacitação e projetos culturais. Deste valor, o grupo teria desviado cerca de R$ 420 mil para a papelaria Bras Gel, em Taguatinga Sul (DF) sob o contrato para “ensino de música”.

    A empresa que embolsou o valor pertencia à Poliana Rodrigues Lopes Xavier, nora do pastor da Assembleia de Deus Manoel Pereira Xavier, 53, acusado de ser o dono oculto da entidade sem fins lucrativos .

    O marido dela e filho do pastor, Jesimiel Pereira Xavier, também integrou a estrutura como ex-funcionário.

    Reprodução/Google Street View
    Reprodução/Google Street View — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    Contratada pela Secretaria de Educação do DF para gerir creches públicas entre 2012 e 2025 por um valor de R$ 117 milhões, a empresa é investigada por servir de fachada para um esquema de desvio de verbas públicas . A entidade sem fins lucrativos foi fundada pela Igreja Evangélica Assembleia de Deus (ADEB) de Brasília, em 1984, e tem 18 filiais no Distrito Federal.

    A associação recebeu R$ 850 mil em dois convênios feitos com o Ministério da Cultura (MinC) e o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), em 2024. Os dois ministérios e a Secretaria de Educação estão apurando os contratos firmados, mas ainda não foram acionados formalmente pela PF para prestar esclarecimentos. Leia as notas na íntegra no fim da matéria .

    A investigação não especificou qual montante está em investigação por suposta utilização da verba de forma irregular. O Ministério Público do DF (MPDFT) e o Tribunal de Contas do DF (TCDF) chegaram a apontar irregularidades na prestação de contas nos anos de 2024 e 2025.

    ONG teria desviado R$ 420 mil para papelaria da nora de “pastor talarico”
    ONG teria desviado R$ 420 mil para papelaria da nora de “pastor talarico” — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    A investigação iniciada em maio de 2025, após denúncia anônima, revelou um esquema de corrupção baseada em diretores “laranjas”, empresas de fachada e contratação em massa de parentes dos envolvidos .

    Formalmente, a associação era liderada pelo pastor Willthimberg Bittencourt da Silva, 51 anos. Segundo os investigadores, o presidente da ONG exercia o papel de “laranja” apenas para assinar documentos e cumprir requisitos legais. O número 1 da entidade chegou a ocupar um cargo comissionado na Secretaria do Entorno, em 2012. Manoel teria utilizado Willthimberg como copastor na igreja que chefiava em Ceilândia Sul (DF).

    Manoel Xavier esteve no centro de outra polêmica em julho de 2024. Acusado de se envolver com a esposa de um fiel da igreja, ele foi pego no flagra com a “irmã”, enquanto os dois saíam de um motel em Ceilândia .

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    Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    Apesar disso, ele segue casado com a esposa Maria Marta Xavier, que é apontada como diretora financeira e pedagógica da instituição e também como coordenadora de um grupo da igreja, e frequentemente aparecem juntos publicamente.

    Nas eleições de 2018, Manoel tentou seguir os passos de outro irmão – o mais velho, ex-deputado distrital Carlos Pereira Xavier, 62, acusado de encomendar a morte de um adolescente de 16 anos, ao desconfiar de traição . À época, Manoel se candidatou para o cargo de deputado federal, mas não foi eleito. Ele chegou a ser homenageado pela Câmara dos Deputados no Dia do Evangélico em 2023.

    A sede da Associação Beneficente Evangélica, em Samambaia Sul

    ONG teria desviado R$ 420 mil para papelaria da nora de “pastor talarico” - destaque galeria
    ONG teria desviado R$ 420 mil para papelaria da nora de “pastor talarico” - destaque galeria — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    Contratos firmados com a Secretaria de Educação

    O pastor Manoel Pereira Xavier e a sua esposa Maria Marta Xavier

    Papelaria que teria recebido cerca de R$ 420 mil para "dar aulas de música"

    Contratos firmados com a Secretaria de Educação
    Contratos firmados com a Secretaria de Educação — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    Contrato firmado entre a ONG e o Ministério do Trabalho e Emprego

    De acordo com a investigação da PF, filhos, noras e sobrinhas de Manoel e Marta apareciam simultaneamente acumulando cargos na entidade, recebendo salários de convênios federais e comandando as empresas que venciam os processos de contratação.

    Além do envolvimento do filho e da nora, nas apurações, o irmão de Manoel, Orcival Pereira Xavier também é citado fundamentalmente por sua posição de liderança institucional máxima na igreja.

    Contratos firmados com a Secretaria de Educação
    Contratos firmados com a Secretaria de Educação — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    A teia contava com o apoio do pastor da Assembleia de Deus Ademar de Sena Sampaio, que acumula os papéis de 1º tesoureiro da igreja, contador e prestador de serviços por meio de sua empresa de contabilidade. Assessor comissionado no gabinete do deputado Iolando (MDB-DF), o pastor é um dos alvos da operação que mira produtores do filme Dark Horse .

    A rede se estendia ainda a sobrinhas, como Talyta Xavier Porto Almeida, e filhas, que também figuravam como beneficiários de pagamentos diretos dos convênios, além de assessores como Heliton Felipe Pereira Nunes, que operava múltiplos perfis de controle nos sistemas federais de repasse.

    No total, 12 pessoas são investigadas por fazerem parte do esquema.

    O pastor Manoel Pereira Xavier e a sua esposa Maria Marta Xavier
    O pastor Manoel Pereira Xavier e a sua esposa Maria Marta Xavier — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    Além das fraudes contratuais e do superfaturamento de itens, como gastos desproporcionais com combustíveis e alta movimentação de dinheiro vivo, o relatório policial apontou indícios de fraudes trabalhistas — com demissões e recontratações em massa no final de cada ano para burlar o pagamento de encargos e direitos de funcionários.

    As investigações apuram crimes de nepotismo e contratações cruzadas, divergências salariais injustificadas, movimentação atípica em espécie e acumulação irregular de funções e remunerações.

    Apesar de ter recebido mais de R$ 117 milhões, a entidade acumulou entre 2018 e 2023 dívida ativa na União de R$ 9.570.478,03 . A organização responde também diversos processos na esfera trabalhista.

    Papelaria que teria recebido cerca de R$ 420 mil para
    Papelaria que teria recebido cerca de R$ 420 mil para — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    O inquérito da Polícia Federal segue em andamento com quebras de sigilo, relatórios de inteligência financeira e diligências da PF e da CGU. Em julho deste ano, a PF iniciou a fase de oitiva das testemunhas e caso comprovados os crimes, o Ministério Público Federal (MPF) oferece a denúncia e, se aceita, o caso será julgado pela Justiça Federal de Brasília.

    O Metrópoles procurou os acusados de fazerem parte do esquema, mas as defesas de Willthimberg, Heliton Felipe Pereira e de Aldivan Rodrigues do Nascimento não foram encontradas. Ao entrar em contato com telefone cadastrado por Willthimberg em um contrato firmado com o MTE, a reportagem se deparou com um homem identificado como Felipe que diz estar ciente que o número de telefone dele estaria no documento. A autorização teria se dado após um “serviço prestado” para o dono da ONG.

    A Secretaria de Educação do DF informou que acompanha e apura, no âmbito das prestações de contas das parcerias firmadas, as questões relacionadas aos recursos públicos e a execução dos instrumentos celebrados. “A pasta analisa os relatórios financeiros e a documentação apresentada pela instituição, observando os procedimentos de acompanhamento e prestação de contas previstos na legislação. Eventuais inconsistências identificadas no curso das análises serão tratadas pelos canais e procedimentos administrativos competentes”, disse a pasta.

    Contrato firmado entre a ONG e o Ministério do Trabalho e Emprego
    Contrato firmado entre a ONG e o Ministério do Trabalho e Emprego — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    Em nota, o MTE disse que não foi comunicado oficialmente sobre a investigação. “O MTE realiza o acompanhamento e o monitoramento contínuo da execução dos instrumentos de parceria financiados com recursos oriundos de emendas parlamentares, com o objetivo de assegurar a correta aplicação dos recursos públicos e o cumprimento das finalidades previstas em cada ação”.

    “ Ressalta-se que, caso sejam identificados indícios de irregularidades, o ministério adotará as medidas cabíveis, no âmbito de suas competências legais e administrativas, em articulação com os órgãos de controle competentes, visando à proteção do interesse público e à adequada gestão dos recursos públicos”, citou o documento. O MinC, também em nota, disse que foram identificados dois instrumentos firmados com a ABE, referentes a emendas parlamentares, ambas destinadas à realização de oficinas de instrumentos musicais para adolescentes e jovens de 12 a 29 anos no Distrito Federal.

    “Não houve solicitação formal de esclarecimentos ao Ministério da Cultura por parte da Polícia Federal ou de outros órgãos de controle relacionada aos processos mencionados. Em relação ao instrumento de 2023, – que ficou vigente até fevereiro de 2025 –, a prestação de contas foi apresentada e o ministério irá realizar a análise, conforme os procedimentos previstos na legislação”, disse.

    Publicado originalmente por Metrópoles. Leia a matéria completa em https://www.metropoles.com/distrito-federal/ong-teria-desviado-r-420-mil-para-papelaria-da-nora-de-pastor-talarico.

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