ONG ligada a “Dark Horse” pagou R$ 3 mi à empresa de possível membro do PCC
Notas fiscais mostram repasses do ICB à Favela Conectada, que tinha Alex Leandro Bispo dos Santos entre os sócios à época; empresário é apontado por órgãos de inteligência como integrante da facção

O Instituto Conhecer Brasil (ICB), organização comandada pela produtora do filme biográfico “Dark Horse”, Karina Gama , pagou R$ 3 milhões à Favela Conectada Serviço e Tecnologia Ltda ., empresa que tinha entre seus sócios, à época, Alex Leandro Bispo dos Santos, citado em decisão do ministro Flávio Dino, do STF (Supremo Tribunal Federal) , como suposto integrante do PCC (Primeiro Comando da Capital).
Notas fiscais contidas na investigação sobre contratos do programa WiFi Livre SP evidenciam as transferências do ICB para a Favela Conectada por prestação de serviços, em junho e julho de 2025, dentro do projeto de internet gratuita da Prefeitura de São Paulo.
Foram emitidas notas de R$ 500 mil, em 24 de junho; R$ 500 mil, em 4 de julho; e R$ 2 milhões, em 7 de julho de 2025 .

Nos documentos, a descrição dos serviços menciona a "disponibilização, sem cessão definitiva, de conteúdos de imagem e texto por meio da internet".
A Favela Conectada havia sido subcontratada pelo ICB para atuar no WiFi Livre SP. Segundo a Polícia Civil, o contrato firmado entre as duas entidades tinha valor final de R$ 12 milhões e a empresa havia recebido mais de R$ 2 milhões até dezembro de 2025.
O ICB, por sua vez, é a entidade que mantém contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo para a execução do programa WiFi Livre SP . A organização é comandada por Karina Gama, que também é dona da Go Up Entertainment, produtora responsável por “Dark Horse”, filme biográfico do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

A investigação apura se recursos públicos destinados a entidades ligadas à produtora foram posteriormente repassados à produção de “Dark Horse” . A PF (Polícia Federal) suspeita, entre outros pontos, que R$ 750 mil repassados à produtora tenham origem em recursos públicos de emendas parlamentares.
O nome de Alex Leandro Bispo dos Santos foi mencionado por Dino ao analisar o caso como suposto membro da facção criminosa.
Em decisão divulgada na última quinta-feira (10), o ministro citou informações segundo as quais o empresário seria apontado por órgãos de inteligência policial como integrante relevante do PCC em São Paulo .

Neste domingo (13), Dino voltou a mencionar a possível ligação do investigado com a facção criminosa ao justificar a manutenção do inquérito sob responsabilidade da PF (Polícia Federal).
Alex também foi preso preventivamente em 9 de dezembro de 2025 , suspeito de jogar a própria esposa do 10º andar de um prédio na zona Sul de São Paulo .
Após a prisão e a repercussão das investigações, a sociedade da Favela Conectada foi alterada e transferida formalmente para Tatiane Camargo de Oliveira Fernandes . Posteriormente, a Favela Conectada passou a se chamar Urban Connect Serviços e Tecnologia Ltda.

Em representação da Polícia Civil incorporada aos autos, a autoridade policial afirma haver suspeitas sobre a forma como a Favela Conectada foi contratada e sobre as alterações realizadas depois da prisão de Alex.
Segundo a investigação, o contrato original de R$ 12 milhões apresentaria ausência de informações consideradas essenciais sobre a qualificação do representante da empresa, identificado inicialmente apenas como “Alex” .
Posteriormente, os investigadores apontaram que se tratava de Alex Leandro Bispo dos Santos.
Após a prisão preventiva, a empresa teria sido formalmente transferida para Tatiane, que, segundo a representação da Polícia Civil, residiria no mesmo endereço do antigo sócio . A polícia afirma ainda que não teria ocorrido alteração substancial na execução das atividades empresariais.
Diante desses elementos, a autoridade policial registrou suspeita de “blindagem patrimonial e ocultação de pessoas” . A suspeita faz parte da investigação e não representa conclusão definitiva sobre a ocorrência dos crimes.
A contratação da Favela Conectada faz parte de várias subcontratações realizadas pelo ICB para executar o WiFi Livre SP.
Segundo documentos da investigação, a empresa foi contratada pelo instituto por R$ 12 milhões para serviços relacionados ao programa de internet gratuita. A relação comercial é uma das transações analisadas pela Polícia Civil na apuração sobre a destinação dos recursos recebidos pelo ICB.
A Operação Wi-Fi Livre foi deflagrada em junho para investigar suspeitas de fraude na licitação de R$ 108 milhões e eventuais irregularidades na implantação, operação e manutenção de pontos de acesso à rede pública .
A investigação busca esclarecer o caminho percorrido pelo dinheiro público depois dos pagamentos feitos ao instituto e as relações entre as empresas e pessoas que receberam os recursos.
Relatórios de inteligência financeira do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) também integram a investigação.
Como mostrou a CNN, o órgão identificou o ICB como principal captador de recursos entre as entidades analisadas . O trabalho de inteligência financeira apontou ainda transferências para a ANC (Academia Nacional de Cultura), também administrada por Karina Gama, repasses sucessivos entre entidades e empresas, além de saques e depósitos relevantes em espécie.
Os relatórios também identificaram empresas que receberam e redistribuíram valores, além de conexões financeiras entre pessoas físicas e jurídicas investigadas.
A relação entre as entidades comandadas por Karina e a produtora de “Dark Horse” está entre os pontos analisados pela Justiça. A PF suspeita que R$ 750 mil enviados à produtora tenham origem em recursos públicos de emendas parlamentares .
Por outro lado, uma perícia privada contratada pela própria Go Up Entertainment afirmou não ter identificado transferências de recursos públicos para a produção do filme . Segundo o laudo, “Dark Horse” custou cerca de R$ 75 milhões, dos quais mais de R$ 54 milhões teriam sido gastos nos Estados Unidos e R$ 20,92 milhões no Brasil.
Neste domingo (13), Karina Gama também negou à CNN que recursos de emendas parlamentares tenham sido usados na produção do longa e disse não reconhecer a ligação de Alex com o PCC.
A CNN Brasil procurou a Prefeitura de São Paulo e aguarda posicionamento.
A reportagem também buscou a antiga Favela Conectada Serviço e Tecnologia Ltda, atualmente Urban Connect Serviços e Tecnologia Ltda. , para se manifestar sobre o caso. O espaço segue aberto.
A defesa de Karina Gama enviou nota de esclarecimento.
A defesa da Sra. Karina Gama recebe com absoluto respeito e considera positiva a decisão do Ministro Flávio Dino de levantar o sigilo sobre os elementos da investigação conduzida pela Polícia Civil do Estado de São Paulo envolvendo o Instituto Conhecer Brasil e contrato celebrado com a Prefeitura de São Paulo.
A transparência interessa à Justiça, à sociedade e, sobretudo, à própria defesa.
Quem já apresentou voluntariamente mais de 20 mil páginas de documentação não teme transparência.
Desde o primeiro momento, a Sra. Karina Gama tem sustentado, de maneira firme e inequívoca, que não praticou qualquer ilícito.
A publicidade dos elementos da investigação permitirá que os fatos sejam conhecidos em sua integralidade e examinados objetivamente, para além de especulações ou juízos antecipados.
A defesa confia que a plena exposição dos fatos demonstrará que a Sra. Karina Gama não pode ser transformada em culpada pela intensa efervescência da vida nacional, em um momento de extraordinária agitação e movimentação política.
Investigar é legítimo. Esclarecer é do interesse de todos. Mas investigação não é acusação, muito menos, condenação e a repercussão política jamais poderá substituir o devido processo legal.
Por essa razão, a defesa nada tem a opor quanto à transparência e ao levantamento do sigilo.
Ao contrário, deseja que o Brasil tenha acesso à realidade integral dos acontecimentos e que cada documento, contrato, pagamento e circunstância seja examinado tecnicamente, dentro da legalidade e sem contaminação por disputas políticas ou narrativas previamente construídas.
A Sra. Karina Gama continuará colaborando com as autoridades competentes e exercendo, com serenidade, seu direito constitucional de defesa, convicta de que a verdade dos fatos prevalecerá.
A Constituição protege a investigação, mas também protege o investigado. E é justamente nos casos de maior repercussão pública que essa garantia precisa ser mais rigorosamente observada.
Publicado originalmente por CNN Brasil. Leia a matéria completa em https://www.cnnbrasil.com.br/politica/ong-ligada-a-dark-horse-pagou-r-3-mi-a-empresa-de-possivel-membro-do-pcc/.

Jim Caviezel interpreta Jair Bolsonaro em "Dark Horse" • Instagram/Jim Caviezel · • Instagram/Jim Caviezel — Foto: CNN Brasil
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