Onda antipetista, mais do que entusiasmo por Flávio, inunda igrejas evangélicas
A bispa Sonia Hernandes tem o costume de abrir uma caixinha de perguntas em seu Instagram. No sábado (3), véspera do primeiro turno da eleição que contrapõe Lula ( PT ) a Flávio Bolsonaro ( PL ), uma fiel compartilhou algo que a afligia: "Meu namorado é esquerdista e fica me chamando de 'minha Janja'. Eu não gosto!!!". Leia mais (10/04/2026 - 12h30)

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A bispa Sonia Hernandes tem o costume de abrir uma caixinha de perguntas em seu Instagram. No sábado (3), véspera do primeiro turno da eleição que contrapõe Lula ( PT ) a Flávio Bolsonaro ( PL ), uma fiel compartilhou algo que a afligia: "Meu namorado é esquerdista e fica me chamando de ‘minha Janja’. Eu não gosto!!!".

A líder da Renascer em Cristo riu e questionou se o rapaz a ama mesmo. Horas depois, Sonia também sorria enquanto seu marido, o apóstolo Estevam Hernandes, com jaqueta da seleção no púlpito, dizia profetizar que "o Brasil vai ser transformado, amém". Estevam levantou a bandeira nacional e, na manhã seguinte, intercedeu na internet por Flávio para "ver o Brasil feliz de novo".
A algo prosaica citação de Sonia à primeira-dama, somada ao afã patriótico com invólucro bolsonarista, serve de sismógrafo para a onda antipetista que continua desaguando em muitas igrejas. O primogênito pode não despertar a devoção quase religiosa que Jair Bolsonaro (PL) cultivou no segmento, mas se beneficia diretamente de uma rejeição a Lula que permanece em alta nos templos.
Os dias que antecederam a votação deste domingo (4) ilustram bem a animosidade contra um presidente que, em suas duas primeiras campanhas vitoriosas, teve 2 em cada 3 votos evangélicos —pesquisas lhe dão hoje em torno de 30% da predileção nas urnas.

Pastores graúdos, que influenciam vários fiéis para além de suas igrejas, mantêm postura movida menos por simpatia a Flávio e mais pelo objetivo comum de barrar a esquerda. Cláudio Duarte pregou aos seus 10,7 milhões de seguidores no Instagram a "oportunidade de estabelecer uma resistência contra um sistema que quer se perpetuar", o que daria para fazer "sem briga". Basta "não votar 13" e "tomar a decisão de escolher alguém que pode vencer".
O reverendo Augustus Nicodemus Lopes, referência no presbiterianismo, lembrou a passagem em Romanos 13:1-7 que orienta sujeição a governantes, pois "não há autoridade que não venha de Deus". A frase, historicamente usada para justificar apoio ao eleito da vez, ganhou uma ressalva de explícito viés anti-Lula.
"Agora, se a autoridade constituída não está promovendo bem-estar, segurança, tranquilidade, meios de darmos o pão, se representa uma ameaça à liberdade de expressão da igreja, então a gente pode orar de maneira precatória para que Deus derrube e coloque outro no lugar."

O pastor Samuel Vagner, pregando na Igreja Batista da Lagoinha em Alphaville, foi um dos mais virulentos. Desancou "esse cão desse presidente que falou mal da Lagoinha" e praguejou: "Lava tua boca, endemoniado".
Dias antes, em Belém, Lula disse que "a única igreja mentirosa é aquela da Lagoinha, daquele pastor chamado Valadão, que era sócio do Vorcaro". Falava de André Valadão, próximo a Daniel Vorcaro e líder da denominação na qual também pastoreava Fabiano Zettel, cunhado do ex-banqueiro e preso, assim como ele.
André Fernandes, pastor que saiu da Lagoinha para abrir sua própria igreja, a Celeiro, também caiu em cima da esquerda: "Domingo é dia de rompermos com uma herança maldita do marxismo cultural e socialismo no nosso país".

Na véspera do 7 de Setembro, ele recebeu Flávio em sua "house of prayer" (casa de oração). Disse na ocasião que, se "em algum momento fizer do púlpito desta igreja comércio, que o Senhor pese sua poderosa mão sobre mim". Mas, enquanto fosse "voz profética nessa nação", não se furtaria a compartilhar sua opção nas urnas: aquele que "tem chance de vencer pela direita", Flávio.
O tom exaltado se repetiu com Valnice Milhomens. "Não haverá inferno que impeça o mover de Deus nesta nação", declarou a apóstola, uma ex-entusiasta de Marina Silva (Rede) que se converteu ao bolsonarismo.
A Igreja Universal do Reino de Deus encerrou no sábado seu Desafio de Neemias , campanha que durou 52 dias e terminou na véspera do pleito, o que não foi tomado como acaso. Com alegado propósito espiritual de "restauração e construção dos valores cristãos, da fé e da proteção das famílias", a iniciativa propôs desafios diários aos fiéis, que deveriam refletir sobre temas como fake news e falsos profetas.

O pastor Marcos Granconato, da Igreja Batista Redenção, afirmou que preferiria votar em Judas a Lula, caso o homem descrito como traidor de Jesus ressuscitasse. Judas, apesar de perverso, "pelo menos reconheceu o seu erro a ponto de se matar", disse.
O pastor José Wellington Bezerra da Costa, do Ministério Belém da Assembleia de Deus, nunca foi tomado como simpático ao lulismo. Seu discurso nessa reta final das eleições , contudo, foi mais conciliatório do que o de muitos de seus pares. "Precisamos reaprender a respeitar as lideranças, as instituições e uns aos outros", disse, evocando o versículo "bem-aventurados os pacificadores".
O tsunami bolsonarista de 2022 nas igrejas evangélicas veio mais fraco neste ano, mas não dá para dizer que virou marolinha. E esse movimento não é pouca coisa. Com 3 em cada 10 eleitores, crentes se consolidaram como um dos ativos políticos mais cobiçados devido a uma expressiva expansão demográfica e à altíssima capacidade de mobilização. Contam com uma rede bastante capilarizada, estruturada fisicamente nos templos e amplificada por redes sociais de pastores como Silas Malafaia , ex-apoiador de Lula em pleitos passados que se tornou um canhão virtual contra o PT.

Embora católicos sejam maioria (5 em cada 10 brasileiros), seu comportamento social é mais pulverizado, inclusive pelo número de não praticantes. Fora que o Vaticano proíbe o engajamento partidário do clero. Mas também não dá para dizer que o discurso eleitoral passou ao largo desse outro bloco cristão.
O padre Júlio Lancellotti celebrou no domingo uma missa dedicada a Nossa Senhora Aparecida , escolha com patente lastro político. Também anunciou a venda de camisas com imagem da santa e a legenda "o Brasil tem mãe", isso num momento em que Flávio é acusado, sem evidências, de querer demovê-la do posto de padroeira do país.
Dom Itacir Brassian, bispo de Santa Cruz do Sul (RS), publicou um texto em que aponta dois grupos seguindo "direções opostas", um que ajudaria e outro que impediria "o desenvolvimento nacional, a autonomia das organizações civis e populares e a integração soberana do Brasil no concerto das nações".
Há quem veja nesses critérios um alinhamento à esquerda, "e isso seria inaceitável para um cristão católico ", afirmou em artigo publicado no site da CNBB, atacada por Flávio . "Mas eu pergunto: é aceitável que um católico escolha [...] candidatos que pleiteiam unicamente interesses privados, combatam os direitos humanos, relativizem a democracia e a soberania do país, tolerem a destruição do meio ambiente, submetam tudo aos interesses dos ricos e relativizem a dignidade inviolável do ser humano?"
Dom Adair José Guimarães, bispo da goiana Formosa, foi para a outra direção. Em homilia na Catedral de Brasília, pediu que Nossa Senhora "nos livre da peste da fome, da guerra e do comunismo, amém".
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/10/onda-antipetista-mais-do-que-entusiasmo-por-flavio-inunda-igrejas-evangelicas.shtml.

Fiel com bandeira do Brasil no culto na Zion Church - Jardiel Carvalho/Folhapress · Jardiel Carvalho/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
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