Brasil

    Olfato tem “via expressa” no cérebro que liga cheiros a memórias

    Neurologia explica a ligação direta do nariz com as emoções, enquanto a perfumaria funcional mapeia reações do cérebro

    Metrópoles
    22 de setembro de 2026 às 05:00
    Olfato tem “via expressa” no cérebro que liga cheiros a memórias
    Foto: Metrópoles

    Uma rajada súbita de perfume, o odor de terra molhada antes da chuva ou o aroma de pão recém-assado. Em uma fração de segundo, a mente pode ser transportada para uma cena da infância ou para uma conversa antiga. Esse fenômeno, conhecido como memória olfativa, tem explicação na anatomia do sistema nervoso humano e na forma como o cérebro processa os estímulos do ambiente.

    Ao contrário do que ocorre com a visão e a audição — cujos sinais passam primeiro pelo tálamo para triagem e análise racional —, o olfato acessa diretamente as estruturas ligadas às emoções.

    De acordo com o neurologista e psicanalista Sérgio Spritzer, criador do Campo de Ciências da Interação Humana, em Porto Alegre, as células receptoras localizadas no nariz conectam-se ao bulbo olfatório — estrutura da base do cérebro que processa os sinais de odores — e seguem diretamente para a amígdala e o hipocampo . Isso quer dizer que o cheiro tem um “caminho expresso” para o cérebro.

    Magnific
    Magnific — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    “O olfato é o único sentido que não faz esse desvio pelo tálamo. É por isso que o cheiro chega antes da palavra: a pessoa sente primeiro e só depois consegue dizer o que é”, explica Spritzer. O especialista aponta que o estímulo olfativo raramente resgata um fato isolado, em geral, recupera um contexto completo, associado a pessoas e locais. “O cheiro nos põe de volta numa relação”, acrescenta.

    Esse caminho direto justifica a consolidação das memórias mais duradouras na primeira infância, fase em que a apreensão do mundo ocorre predominantemente de forma corporal. Segundo o neurologista, o sistema olfativo opera sob a regra de que a primeira associação prevalece: ao se conectar a um ambiente ou indivíduo pela primeira vez, a marca olfativa ganha estabilidade e resiste a interferências ao longo das décadas.

    “Quando um cheiro se liga pela primeira vez a uma pessoa ou a um lugar, essa ligação fica muito difícil de ser sobrescrita pelas seguintes. A memória olfativa resiste à interferência muito mais do que as outras, e é por isso que o cheiro da casa da avó continua reconhecível cinquenta anos depois”, detalha Spritzer. Mesmo em quadros graves de perda cognitiva, essa via de acesso pode permanecer preservada. Os testes e estímulos olfativos vêm sendo estudados com interesse na medicina diagnóstica e terapêutica. “Cheiros familiares conseguem evocar memórias autobiográficas e melhorar o humor em pacientes com Alzheimer que já não respondem a fotos ou a nomes. O que o cheiro faz é oferecer uma porta de acesso que fica aberta por mais tempo do que as outras”, completa o neurologista.

    Mulher sente aroma que a remete uma memória
    Mulher sente aroma que a remete uma memória — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    A relação direta entre o olfato e o sistema límbico — conjunto de estruturas cerebrais localizado na parte interna do cérebro que gerencia as emoções, a memória e os comportamentos básicos — passou a ser mapeada também pela indústria de cosméticos. A perfumaria funcional utiliza dados neurofisiológicos para desenvolver produtos voltados à indução de estados como relaxamento, foco e bem-estar.

    Maria Ribeiro Gomes, consultora de marketing da Capuani do Brasil, atua no desenvolvimento de fragrâncias neurossensoriais e explica como esses mapeantos ocorrem na prática.

    “Acompanhamos a atividade cerebral por meio de eletroencefalograma (EEG), que registra em tempo real as ondas elétricas produzidas pelo cérebro, para observar como os estímulos influenciam padrões associados a estados de relaxamento, atenção ou processamento emocional”, afirma. Durante testes em laboratório, a equipe registra o estado basal do cérebro e monitora as variações nas ondas cerebrais (como alfa, beta e theta) diante de cada aroma. Os levantamentos revelam que a resposta fisiológica do corpo nem sempre coincide com o relato verbal do participante.

    Imagem da matéria
    Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    “Às vezes, a pessoa diz que não percebeu nada diferente, mas observamos uma alteração na atividade cerebral. O que o indivíduo verbaliza nem sempre corresponde às respostas fisiológicas”, destaca Maria.

    Embora fatores culturais e experiências individuais influenciem a percepção de cada aroma, o mapeamento neurofisiológico permite identificar tendências estatísticas de resposta.

    Publicado originalmente por Metrópoles. Leia a matéria completa em https://www.metropoles.com/saude/olfato-tem-via-expressa-no-cerebro-que-liga-cheiros-a-memorias.

    Imagem 1
    1 / 3

    Magnific — Foto: Metrópoles

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)