Brasil

    Oi tirou o gesso de uma perna necrosada

    Engessar uma perna faz sentido quando existe uma fratura que pode se recuperar com a imobilização. Quando o diagnóstico exige amputação, colocar uma camada de gesso tira o problema de vista, enquanto a situação piora.

    UOL
    7 de setembro de 2026 às 03:00
    Oi tirou o gesso de uma perna necrosada
    Fachada cinza com detalhes azuis da loja Oi em área urbana. Três pessoas estão próximas à entrada e um homem caminha na calçada em frente. Sinalização amarela e branca da Oi aparece na parede. — Foto: UOL

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    Engessar uma perna faz sentido quando existe uma fratura que pode se recuperar com a imobilização. Quando o diagnóstico exige amputação, colocar uma camada de gesso tira o problema de vista, enquanto a situação piora.

    Prédio da Oi no Rio de Janeiro - Sergio Moraes - 22.jun.26/Reuters · Sergio Moraes - 22.jun.26/Reuters
    Prédio da Oi no Rio de Janeiro - Sergio Moraes - 22.jun.26/Reuters · Sergio Moraes - 22.jun.26/Reuters — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Do mesmo jeito, o instituto da recuperação judicial , introduzido no Brasil em 2005, serve para ajudar a reorganizar as contas e a operação de uma empresa , não para adiar sua falência enquanto consome os ativos que poderiam pagar seus credores. No fim das contas, literalmente, trata-se de transparência sobre o diagnóstico e o tratamento escolhido.

    Quem acompanha o noticiário econômico viu, nos últimos dias, a ex-gigante da telefonia Oi retirar a bota de gesso de uma perna já necrosada. Em 25 de agosto, a Justiça do Rio confirmou a falência decretada em novembro de 2025 .

    A companhia passou, impressionantemente, por duas recuperações judiciais. A primeira começou em 2016 e teve seu encerramento determinado em dezembro de 2022. O novo pedido veio em março de 2023. Na primeira, apontou dívidas de aproximadamente R$ 65 bilhões. Na segunda, cerca de R$ 44 bilhões.

    Imagem da matéria
    Foto: UOL · Fonte: UOL

    Ao longo dos dois processos, vendeu a operação móvel, o controle da infraestrutura de fibra e a unidade de TV por assinatura. O dinheiro permitiu pagar alguns credores . Mas pagar parte da dívida não significa recuperar o negócio.

    Vender um ativo produz caixa uma vez e pode reduzir despesas. Ao mesmo tempo, pode acabar com fontes de receita. O resultado depende da capacidade de a operação restante sustentar as obrigações que sobreviveram à venda. No caso da Oi, a reorganização não entregou autonomia.

    Em julho, a gestão judicial informou que a disponibilidade de caixa projetada para o fim daquele mês havia caído de R$ 88,1 milhões para R$ 19,6 milhões. Avisou que o valor poderia tornar a operação insustentável a partir de agosto.

    O teste econômico para justificar a continuidade de uma recuperação deveria comparar o valor preservado pela operação com aquele que poderia ser recuperado por uma venda ou liquidação de ativos. Não basta mostrar que a empresa consegue chegar ao mês seguinte. Ela precisa oferecer uma perspectiva melhor do que a simples venda de ativos para pagar dívidas.

    O cenário brasileiro de crédito caro faz esse exame ser ainda mais necessário. Vivemos o recorde de empresas em recuperação judicial . Juros elevados podem tornar insustentável uma estrutura de dívida antes administrável. Isso torna mais urgente a distinção entre uma empresa sufocada por financiamentos e outra cujo negócio deixou de se sustentar e quer escolher os credores que vão receber uma fatia do butim. A primeira pode precisar de tempo. A segunda tem no relógio um inimigo.

    Para o investidor em Bolsa, a palavra "recuperação" pode induzir a uma falsa segurança. Mas ela descreve uma tentativa, não uma certificação de que a companhia voltará a ser viável. Comprar a ação exige avaliar o negócio que restará e a parcela dele que ainda pertencerá ao investidor, não apenas apostar no encerramento de um processo.

    A Oi mostrou a distância entre essas duas coisas. O gesso não é um atestado de cura. E, para quem compra ações esperando a empresa voltar a andar, a pergunta decisiva não é quanto tempo ela permanecerá de pé, mas o que restará quando retirarem a proteção.

    LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Na página Colunas da Folha você encontra opinião e crônicas de colunistas como Mônica Bergamo , Elio Gaspari , Djamila Ribeiro , Tati Bernardi , Dora Kramer , Ruy Castro , Muniz Sodré , Txai Suruí , José Simão , Thiago Amparo , Antonio Prata e muito mais.

    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marcos-de-vasconcellos/2026/09/oi-tirou-o-gesso-de-uma-perna-necrosada.shtml.

    Imagem 1
    1 / 2

    Prédio da Oi no Rio de Janeiro - Sergio Moraes - 22.jun.26/Reuters · Sergio Moraes - 22.jun.26/Reuters — Foto: UOL

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)