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    Oferecer um inimigo ao eleitor pode se tornar mais rentável do que resolver problemas concretos

    Um deputado concentrou quase 80% dos votos numa cidade; outro construiu uma audiência pelo estado. O contraste ajuda a entender os novos incentivos da representação política. Leia mais (10/09/2026 - 04h00)

    Folha de S.Paulo
    9 de outubro de 2026 às 07:00
    Oferecer um inimigo ao eleitor pode se tornar mais rentável do que resolver problemas concretos
    Homem jovem com camisa cinza e adesivos de campanha conversa com outra pessoa em evento ao ar livre. Pessoas ao fundo e luz natural indicam ambiente externo. — Foto: Folha de S.Paulo

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    Lucas Pavanato, candidato a deputado federal mais votado em São Paulo - Luiz Rodrigues - 16.ago.26/AtoPress · Luiz Rodrigues - 16.ago.26/AtoPress
    Lucas Pavanato, candidato a deputado federal mais votado em São Paulo - Luiz Rodrigues - 16.ago.26/AtoPress · Luiz Rodrigues - 16.ago.26/AtoPress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Jornalista, é mestre em comunicação pela PUC-RS e analista política

    Um deputado concentrou quase 80% dos votos numa cidade; outro construiu uma audiência pelo estado. O contraste ajuda a entender os novos incentivos da representação política.

    Há anos se repete o mesmo mantra: é preciso renovar o Congresso . Mas renovar o quê, exatamente? A composição etária, a extração social, os vícios do ofício? Dois deputados eleitos por São Paulo em 2026 ajudam a precisar a pergunta.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Paulo Serra (PSDB) governou Santo André por dois mandatos, de 2017 a 2024, encerrando a gestão com cerca de 80% de aprovação popular. Elegeu-se deputado federal com 132.866 votos, suficientes para ser o único representante do Grande ABC na Câmara. Sua campanha foi regional: um plano diretor do Grande ABC para articular, em Brasília, projetos dos sete municípios da região.

    Lucas Pavanato ( PL ), vereador de São Paulo eleito em 2024 com 161 mil votos, multiplicou esse capital quase vinte vezes: recebeu 3.038.438 votos, a maior votação já registrada para deputado federal no estado. Construiu forte presença digital, com bandeiras como a crítica ao STF , o impeachment do ministro Alexandre de Moraes e pautas das guerras culturais.

    Os números, lado a lado, contam a história melhor do que qualquer adjetivo: Serra obteve 78,3% dos seus votos em Santo André. Para reunir 80% dos votos de Pavanato, é preciso somar 98 municípios, mas ele teve votos em todos os 645 municípios paulistas.

    mapa da apuração 2024 - brasil - normal
    mapa da apuração 2024 - brasil - normal — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

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    Dois modos de constituir uma base eleitoral. Serra se aproxima do que Richard Fenno chamou de "home style": a relação de confiança que o representante constrói com uma base geográfica pela presença, pela prestação de contas e pela explicação de sua atuação.

    Pavanato se aproxima do que Bernard Manin chamou de democracia de audiência: uma representação personalizada, em que o vínculo entre liderança e eleitor depende menos das antigas fidelidades partidárias e mais da comunicação direta. As redes sociais ampliaram essa possibilidade.

    É tentador concluir que esse segundo modelo troca proposta por espetáculo. Mas o próprio Pavanato descreveu esse incentivo. Em entrevista a Patrícia Campos Mello , publicada pela Folha em setembro, ele foi direto: "O que desperta o interesse do público é confronto, são os discursos mais enfáticos." Na sequência, admitiu que não consegue fazer uma entrega de mandato viralizar tanto quanto um debate com um adversário de esquerda.

    Isso não torna o eleitor de audiência menos legítimo que o de território: representar pessoas dispersas em torno de uma causa comum também é presença democrática válida, e um deputado federal tem responsabilidades que vão além do bairro ou da cidade.

    A pergunta que fica é sobre o incentivo, não sobre o eleitor: se o Congresso se renovar cada vez mais pela lógica que o próprio Pavanato descreve, hospital, transporte, emprego, segurança e escola, pautas que dependem de negociação lenta e entrega mensurável, perdem terreno para o confronto que se recicla a cada ciclo de engajamento.

    Uma audiência nacional pode ser mantida por temas cuja força política depende menos da solução do problema do que de sua capacidade contínua de mobilização. Se a renovação do Congresso seguir essa lógica, pode se tornar mais rentável oferecer ao eleitor um inimigo para combater do que um problema concreto para resolver.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/10/oferecer-um-inimigo-ao-eleitor-pode-se-tornar-mais-rentavel-do-que-resolver-problemas-concretos.shtml.

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    Lucas Pavanato, candidato a deputado federal mais votado em São Paulo - Luiz Rodrigues - 16.ago.26/AtoPress · Luiz Rodrigues - 16.ago.26/AtoPress — Foto: Folha de S.Paulo

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