Brasil

    Obra-prima de Maryse Condé enfim ganha uma edição brasileira à altura

    Talvez "Negras Raízes", de Alex Haley, seja o mais ambicioso romance histórico da diáspora estadunidense. Ao reconstruir a trajetória de sua própria família desde o século 18, quando o ancestral mandinga Kunta Kinté é arrancado de sua Gâmbia natal e levado de navio negreiro até a Virgínia para viver e morrer escravizado, Haley junta peças da coleção de rupturas que define toda experiência diaspórica negra . Leia mais (08/16/2026 - 15h00)

    Folha de S.Paulo
    16 de agosto de 2026 às 18:00
    Obra-prima de Maryse Condé enfim ganha uma edição brasileira à altura
    Foto: Folha de S.Paulo

    Expressa juízo de valor sobre a obra cultural comentada e destaca seus elementos positivos e negativos

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    Ilustração de Ivan di Simoni para a capa de 'Segu', livro de Maryse Condé - Ivan di Simoni/Divulgação · Ivan di Simoni/Divulgação
    Ilustração de Ivan di Simoni para a capa de 'Segu', livro de Maryse Condé - Ivan di Simoni/Divulgação · Ivan di Simoni/Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Jornalista, é mestre em literatura pela Sorbonne Nouvelle Paris 3

    Talvez "Negras Raízes", de Alex Haley, seja o mais ambicioso romance histórico da diáspora estadunidense. Ao reconstruir a trajetória de sua própria família desde o século 18, quando o ancestral mandinga Kunta Kinté é arrancado de sua Gâmbia natal e levado de navio negreiro até a Virgínia para viver e morrer escravizado, Haley junta peças da coleção de rupturas que define toda experiência diaspórica negra .

    Geração após geração, as vidas no livro são interrompidas pela exploração capitalista e pela opressão supremacista branca. Acompanhando a experiência negra deste lado do oceano, da senzala à segregação, "Negras Raízes" impõe as dores de sucessivos desaparecimentos. É um efeito parecido com " Um Defeito de Cor ", de Ana Maria Gonçalves, nosso "Negras Raízes". É ruptura.

    A escritora guadalupense Maryse Condé, autora de 'Segu' - Adrian Dennis/AFP · Adrian Dennis/AFP
    A escritora guadalupense Maryse Condé, autora de 'Segu' - Adrian Dennis/AFP · Adrian Dennis/AFP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Mas quais foram as dores da permanência?

    "Segu", da guadalupense Maryse Condé —ambientado praticamente na mesma quadra histórica do clássico dos Estados Unidos— pode ser a melhor resposta literária a essa pergunta.

    Rigoroso do ponto de vista historiográfico, mas de prosa acessível e direta, o texto remonta, em quatro gerações de uma família nobre, o ápice e o ocaso da cidade de Segu, capital do império bambara, que dominou o Mali de 1712 a 1861.

    Veja cenas da cinebiografia 'Fanon', de Jean-Claude Barny
    Veja cenas da cinebiografia 'Fanon', de Jean-Claude Barny — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Ao escapar da tentação diaspórica de embarcar a narrativa no navio, condenando o continente africano ao passado, Condé logra construir uma história negra do período escravagista na qual a escravidão e supremacismo branco subsistem, mas nunca tomam o centro do palco.

    Receba no seu email uma seleção com lançamentos, clássicos e curiosidades literárias

    E porque não deixa a África para trás, "Segu" também não a idealiza. Os lugares e personagens de Condé têm cheiro, sabor, materialidade e contradições de verdade.

    Ilustração em estilo expressionista com rosto humano central em preto e branco, cercado por formas abstratas em azul, preto e marrom. À esquerda, figura que lembra um animal com chifres, e ao fundo formas geométricas que sugerem edifícios e
    Ilustração em estilo expressionista com rosto humano central em preto e branco, cercado por formas abstratas em azul, preto e marrom. À esquerda, figura que lembra um animal com chifres, e ao fundo formas geométricas que sugerem edifícios e — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Por exemplo, pela presença dos griôs e de sua poesia não apenas na vida cotidiana, mas na sustentação da ordem política; pela influência dos ancestrais e dos objetos mágicos por meio dos quais eles se manifestam em terra; pela crescente penetração cultural do Islã e a maneira como o monoteísmo aspira sorrateiramente à hegemonia.

    Sem o devido cuidado na escrita, tudo isso pode fascinar o olhar ocidental ao ponto do exotismo. Não é o caso aqui: eles são tão naturalmente integrados à economia do romance que só fazem sentido.

    Por outro lado, a trivialidade com que aborda o extraordinário, seja na religião, na cultura ou na violência, produz o que talvez seja o maior desconforto imposto pelo livro ao olhar contemporâneo.

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Na sociedade bambara patriarcal, poligâmica e escravagista, há incontáveis estupros, que a autora não faz questão de tratar com indignação, mas como um dado do cotidiano.

    Será que estupro era banal na sociedade bambara, como na nossa? Afinal, do ponto de vista institucional, raramente encaramos o estupro e a cultura que o sustenta como chocantes, ainda que socialmente seja de bom tom performar o choque. Condé não performa o choque —e com sua naturalidade, choca olhares contemporâneos.

    Essa naturalidade no trato de uma cultura estrangeira, tanto no espaço quanto no tempo, reflete a trajetória da própria autora.

    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor
    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Nascida em Guadalupe —"território ultramarino", como os franceses chamam suas colônias que, vergonhosamente, perduram—, a autora estudou em Paris. Lá, como o também caribenho Frantz Fanon , entendeu-se negra. Tal qual Fanon, emigrou para a África, onde viveu por 11 anos entre Costa do Marfim, Guiné, Gana e Senegal. E lá, como Fanon, entendeu-se estrangeira.

    Do escrutínio do eterno estrangeirismo afrodiaspórico, Condé produziu essa obra-prima, que a editora Pinard finalmente traz às bibliotecas brasileiras.

    Demorou 43 anos para chegar ao nosso idioma, mas veio com tratamento à altura: além da capa dura, das lindas ilustrações internas e da menção militante que orgulharia a autora ("impresso em janeiro de 2026, momento em que o Caribe se encontra em estado de alerta após a invasão dos Estados Unidos à Venezuela "), o livro conta com uma tradução digna de prêmio de Dyhorrani Beira.

    Se você for escolher uma única leitura para 2026, escolha "Segu".

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/08/obra-prima-de-maryse-conde-enfim-ganha-uma-edicao-brasileira-a-altura.shtml.

    Imagem 1
    1 / 6

    Ilustração de Ivan di Simoni para a capa de 'Segu', livro de Maryse Condé - Ivan di Simoni/Divulgação · Ivan di Simoni/Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)