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    O STF e o direito indígena de dizer não à mineração

    O plenário do STF (Supremo Tribunal Federal) referendou nesta quinta-feira (13) a decisão do ministro Flávio Dino que dá 24 meses para o Congresso regulamentar a e xploração mineral em terras indígenas . A medida atende a uma demanda há muito esperada pela Coordenação das Organizações Indígenas do Povo Cinta Larga (PATJAMAAJ), cujo território é historicamente assolado pela violência e pela invasão de garimpeiros. A decisão do ministro Flávio Dino parte de uma premissa perigosa: a de que a saída para o garimpo ilegal é a mineração legalizada. Leia mais (08/14/2026 - 19h13)

    Folha de S.Paulo
    14 de agosto de 2026 às 22:13
    O STF e o direito indígena de dizer não à mineração
    Homem de camiseta preta conversa com grupo diversificado, incluindo mulher indígena com pintura facial e colares, e policial de boné azul. Pessoas ao redor observam e registram com celulares em ambiente externo. — Foto: Folha de S.Paulo

    Coordenadora da Associação de Defesa Etnoambiental - Kanindé

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    Indígenas na Câmara Municipal de Altamira (PA); eles foram cobrar posicionamento de parlamentares sobre mineração de ouro na Volta do Xingu 25.mar.206 - Divulgação · Divulgação
    Indígenas na Câmara Municipal de Altamira (PA); eles foram cobrar posicionamento de parlamentares sobre mineração de ouro na Volta do Xingu 25.mar.206 - Divulgação · Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O plenário do STF (Supremo Tribunal Federal) referendou nesta quinta-feira (13) a decisão do ministro Flávio Dino que dá 24 meses para o Congresso regulamentar a e xploração mineral em terras indígenas . A medida atende a uma demanda há muito esperada pela Coordenação das Organizações Indígenas do Povo Cinta Larga (PATJAMAAJ), cujo território é historicamente assolado pela violência e pela invasão de garimpeiros. A decisão do ministro Flávio Dino parte de uma premissa perigosa: a de que a saída para o garimpo ilegal é a mineração legalizada.

    A APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) já deixou claro: não há consenso entre os povos indígenas sobre a mineração. E a própria APIB listou dez riscos dessa decisão. O primeiro não houve consulta aos outros 391 povos indígenas do país para saber se essa é uma vontade unificada. O movimento indígena, de forma majoritária, sempre reivindicou bioeconomia, gestão territorial e a aprovação da Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas, não a abertura de suas terras à atividade minerária. Entre os próprios Cinta Larga há divisões e reivindicações por alternativas de etnodesenvolvimento.

    O ponto mais grave, contudo, é a retirada do direito de dizer não. A decisão não apenas determina a edição de uma lei nacional, mas retira dos povos, antes mesmo de qualquer consulta, a possibilidade de veto.

    Visita a terra indígena tem banho de rio, arco e flecha e futebol jogado com a cabeça
    Visita a terra indígena tem banho de rio, arco e flecha e futebol jogado com a cabeça — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Além disso, apesar da "preferência" indígena, a decisão permite que empresas não indígenas explorem se os indígenas não exercerem a prioridade. Por trás da decisão do STF que impõe a regulamentação da mineração em terras indígenas não está a defesa dos povos originários.

    Quem se beneficia com essa decisão são as grandes mineradoras . Vale, BHP e Glencore têm mais de 1,3 mil requerimentos minerários já protocolados sobre terras indígenas na Amazônia. A elas se somam os maiores fundos financeiros do mundo. BlackRock, Vanguard e Capital Group, que financiam essas empresas e destinaram entre 2016 e 2024 cerca de R$ 2,5 trilhões ao setor mineral.

    As frentes parlamentares da mineração, da agropecuária e da bancada evangélica vêm trabalhando para flexibilizar leis e aprovar pautas como o marco temporal , vendo na abertura das terras indígenas a chance de expandir fronteiras agrícolas e mineral.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    As terras indígenas são as áreas com maior conservação ambiental do país. A mineração nessas áreas vai na contramão da emergência climática. A substituição do garimpo ilegal pela mineração regulamentada não é a solução sanitária e ambiental que se pede. Quem perde são os povos indígenas. Dados do DSEI Vilhena apontam surto de malária atrelado ao garimpo. Legalizar não resolve a contaminação da água, a destruição ambiental ou os impactos na saúde pública.

    O caso Cinta Larga exige resposta efetiva do Estado: desintrusão, combate ao narcogarimpo e políticas públicas de desenvolvimento. No entanto, o STF não pode confundir a urgência desse caso concreto com a imposição de um regime nacional. O que a Apib requer é que a "escuta territorial" não seja equiparada à consulta livre, e que o tempo do Estado não se sobreponha aos protocolos de decisão dos povos originários.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/txai-surui/2026/08/o-stf-e-o-direito-indigena-de-dizer-nao-a-mineracao.shtml.

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