Brasil

    O sigilo da fonte e o encontro fortuito de prova

    Um jornalista do Maranhão publicou reportagens sobre o uso de veículos oficiais por familiares de um ministro do Supremo. Em março, teve casa e equipamentos vasculhados por ordem judicial , sob a suspeita de perseguição. A polícia devolveu os aparelhos, mas antes leu o que havia dentro, e nas conversas guardadas achou quem passara as informações ao repórter, um ex-secretário de Segurança e desafeto político do ministro. Meses depois, foi a porta desse informante que foi arrombada. A segunda busca tinha por alvo, declaradamente, a fonte primária da reportagem. Leia mais (08/20/2026 - 22h00)

    Folha de S.Paulo
    21 de agosto de 2026 às 01:00
    O sigilo da fonte e o encontro fortuito de prova
    Homem de barba e cabelo curto está sentado em mesa de madeira com laptop Apple aberto à sua frente. Atrás dele, prateleiras na parede exibem livros, relógios e objetos decorativos. À direita, há uma moldura com foto e um suporte para celula — Foto: Folha de S.Paulo

    Expressa as ideias do autor e defende sua interpretação dos fatos​

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    O jornalista maranhense Luís Pablo, alvo de inquérito após textos contrários ao ministro Flávio Dino - Arquivo pessoal
    O jornalista maranhense Luís Pablo, alvo de inquérito após textos contrários ao ministro Flávio Dino - Arquivo pessoal — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Advogado e professor, é mestre em direito tributário internacional (IBDT) e especialista em regulação no mercado financeiro e de capitais

    Um jornalista do Maranhão publicou reportagens sobre o uso de veículos oficiais por familiares de um ministro do Supremo. Em março, teve casa e equipamentos vasculhados por ordem judicial , sob a suspeita de perseguição. A polícia devolveu os aparelhos, mas antes leu o que havia dentro, e nas conversas guardadas achou quem passara as informações ao repórter, um ex-secretário de Segurança e desafeto político do ministro. Meses depois, foi a porta desse informante que foi arrombada. A segunda busca tinha por alvo, declaradamente, a fonte primária da reportagem.

    Chegou-se à fonte do jornalista por dentro do seu telefone, lendo aquilo que a Constituição manda manter fechado. O resultado é a violação do sigilo de fonte por meio oblíquo , obtido por um caminho que distorce o sistema constitucional de garantias. É bom que se lembre, aliás, que o sigilo da fonte não nasceu com a redemocratização. Já estava na antiga Lei de Imprensa de 1967, escrita pela ditadura militar no auge daqueles anos sombrios.

    Flávio Dino toma posse como ministro do STF ao lado de Lula
    Flávio Dino toma posse como ministro do STF ao lado de Lula — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Um governo que censurava jornais e prendia repórteres assegurou, ainda assim, que ninguém seria obrigado a entregar quem lhe revelou determinado fato. A democracia herdou essa proteção e lhe deu dignidade constitucional. Vê-se, porém, um regime que se diz democrático protegendo a fonte com menos vigor do que a lei do arbítrio protegia no papel. Não digo com isso que havia mais liberdade sob a ditadura —digo apenas que havia uma linha que ninguém ousava cruzar.

    O processo penal há muito já resolveu o problema, e o instituto tem nome: encontro fortuito de prova. Uma busca deferida para investigar certo crime não autoriza revirar o material apreendido atrás de um outro qualquer.

    Quando é o caso de aparecer prova de crime diverso daquele que se buscava investigar, seus desdobramentos dependem de haver ou não relação com o objeto principal da investigação. Se há conexão, a prova vale; e, se não há, serve quando muito como indício para abrir outra apuração, jamais como fundamento prêt-à-porter de uma nova devassa. É o que distingue o encontro fortuito de primeiro grau do de segundo, e foi essa fronteira que o caso atravessou.

    Liberdade de imprensa e censura no Brasil
    Liberdade de imprensa e censura no Brasil — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Dirão, talvez com razão, que a fonte neste caso não é um anjo querubim, que responde a outras investigações e que, talvez, tenha crimes a esconder. Ocorre, entretanto, que o sigilo do artigo 5º não premia a boa conduta do informante, mas protege o interesse público em que a informação circule nada obstante a vida pregressa da fonte. Os crimes da fonte apuram-se contra a fonte, pelos meios próprios, e não convertem o jornalista em porta de entrada para alcançá-la. De "a fonte cometeu crime" não se extrai "logo não é fonte", que são duas coisas diversas e a segunda não decorre da primeira.

    Sobra o melhor argumento do outro lado, o de que a Constituição só resguarda a fonte "quando necessário ao exercício profissional", e que ali não haveria jornalismo legítimo a proteger. A cláusula existe para afastar a garantia depois que alguém demonstre a existência de atividade ilícita encoberta sob o rótulo de jornalismo. Cabe, entretanto, a quem desejar afastar a proteção, o dever de provar primeiro e devassar depois, não o contrário.

    O que se defende aqui é bem maior do que o interesse de um informante em particular. Quando o telefone do jornalista vira o caminho para se chegar a quem lhe revelou determinado fato, contorcendo-se as regras do encontro fortuito, o aviso alcança todo aquele que um dia pense em procurar a imprensa. É um alerta de silêncio e imprensa sem fonte é vigia sem olhos de ver; e, convenhamos, nada agrada mais ao poder do que não ser visto . TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha
    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/08/o-sigilo-da-fonte-e-o-encontro-fortuito-de-prova.shtml.

    Imagem 1
    1 / 5

    O jornalista maranhense Luís Pablo, alvo de inquérito após textos contrários ao ministro Flávio Dino - Arquivo pessoal — Foto: Folha de S.Paulo

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)