Brasil

    O sentido dos números é inato?

    Aparentemente ele estaria presente em bebês de alguns dias de vida

    UOL
    26 de agosto de 2026 às 03:00
    O sentido dos números é inato?
    Diversos números metálicos tridimensionais em tons prateados flutuam em um espaço indefinido com fundo cinza claro desfocado. — Foto: UOL

    Diretor-geral do Instituto de Matemática Pura e Aplicada, ganhador do Prêmio Louis D., do Institut de France

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    Anusorn/Adobe Stock · Anusorn/Adobe Stock — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Nestes dias, tomei conhecimento de dois estudos recentes, muito interessantes, que sugerem que o sentido dos números talvez seja inato na nossa espécie: parece já estar presente em bebês de apenas alguns dias de vida, ou até horas após o nascimento.

    Nas minhas aulas, costumo representar o conjunto dos números como uma reta horizontal, com os números menores do que zero (negativos) à esquerda e os números maiores do que zero (positivos) à direita. O paradigma de que os números crescem da esquerda para a direita é padrão no Ocidente onde, e não pode ser coincidência, também se escreve da esquerda para a direita.

    No primeiro desses estudos, pesquisadores da Universidade de Pádua, na Itália , questionam se isso tem a ver com o modo como nosso cérebro está constituído, ou se é uma mera escolha arbitrária perpetuada culturalmente. Afinal, existem outras culturas igualmente ricas —como a árabe, a persa ou a hebraica—, com escrita da direita para a esquerda e nas quais as pessoas tendem a pensar na organização dos números do modo oposto ao nosso, ou seja, crescendo da direita para a esquerda.

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    O caminho mais seguro para tentar remover a influência cultural é analisar a questão no contexto de recém-nascidos, minimamente expostos ao respectivo ambiente. É isso mesmo que o grupo de Pádua se propôs a fazer, trabalhando com bebês com 12 a 117 horas de vida (a média de idades era de 55 horas).

    Os pesquisadores mostraram a cada bebê imagens formadas por dois quadrados brancos, cada um contendo um certo número de quadrados pretos menores: na metade das vezes havia quatro quadrados pretos dentro de cada branco, na outra metade eram 36 quadrados pretos em cada quadrado branco. As reações dos bebês foram monitoradas por meio de sensores, particularmente seus movimentos oculares.

    Foi constatado que os bebês tendiam a olhar mais para a esquerda no primeiro caso (quatro quadrados pretos) e mais para a direita no segundo caso (36 quadrados pretos). Os pesquisadores concluem que a ideia de que "números crescem da esquerda para a direita" deve ser inata e atribuem essa ideia à assimetria do nosso cérebro, cujo hemisfério direito, que recebe a informação do olho esquerdo, é maior do que o esquerdo.

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    Não estou totalmente convencido das conclusões, parece-me que precisarão ser confirmadas por mais estudos. Pesquisadores de outras instituições levantam a possibilidade de que talvez não seja o número de quadrados, e sim a complexidade da figura, que os bebês avaliam. Nesse caso, o paradigma seria outro: "as coisas vão ficando mais complexas (e não maiores) da esquerda para a direita".

    Outra questão é até que ponto bebês, mesmo tão jovens, estão realmente imunes ao contexto em que nasceram. Humanos nessas idades são, sabidamente, "esponjinhas" absorvendo toda informação a que têm acesso. Quanta cultura um bebê pode adquirir em 55 h de convívio com a mãe? A esse respeito, chama a atenção o fato de que a pesquisa foi realizada numa maternidade italiana: os resultados seriam os mesmos na Arábia Saudita , no Irã , em Israel ?

    Ainda com todas essas cautelas, acho a pesquisa fascinante: é notável que possamos analisar cientificamente questões como essa sobre o funcionamento do nosso cérebro e, em particular, que seja viável extrair informações relevantes de bebês tão jovens.

    Sobre o segundo estudo falarei na semana que vem.

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    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marceloviana/2026/08/o-sentido-dos-numeros-e-inato.shtml.

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