Brasil

    O risco da desindustrialização e dependência no setor de dragagem

    Enquanto empresas brasileiras perdem competitividade, é preocupante o avanço de companhias estrangeiras sobre nossa infraestrutura crítica. Impulsionadas pelo acesso a crédito internacional, escala financeira e um modelo licitatório que lhes é amigável, elas passam a concentrar os principais contratos, embora nem sempre sejam as únicas tecnicamente capazes de executá-los. Leia mais (09/15/2026 - 22h00)

    Folha de S.Paulo
    16 de setembro de 2026 às 01:00
    O risco da desindustrialização e dependência no setor de dragagem
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    Navio navega no estuário de Santos, no litoral de São Paulo, em direção à saída do canal - Eduardo Knapp - 11.abr.24/Folhapress
    Navio navega no estuário de Santos, no litoral de São Paulo, em direção à saída do canal - Eduardo Knapp - 11.abr.24/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Engenheiro mecânico, é consultor e professor de curso de dragagem, setor em que atua há mais de 50 anos

    Enquanto empresas brasileiras perdem competitividade, é preocupante o avanço de companhias estrangeiras sobre nossa infraestrutura crítica. Impulsionadas pelo acesso a crédito internacional, escala financeira e um modelo licitatório que lhes é amigável, elas passam a concentrar os principais contratos, embora nem sempre sejam as únicas tecnicamente capazes de executá-los.

    É um aspecto de política econômica que merece muita atenção, pois quando o último concorrente nacional desaparecer, o Brasil perderá engenharia, profissionais especializados, fornecedores, equipamentos, conhecimento, empregos e independência em projetos. Também assistirá à extinção de elos inteiros das cadeias de valor de alguns segmentos da infraestrutura.

    A entrada e o canal do porto de Santos
    A entrada e o canal do porto de Santos — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Um quadro agudo do problema está na estratégica área da dragagem marítima, fluvial e portuária de grande porte , dominada por quatro grupos: Boskalis e Van Oord, da Holanda, e Jan De Nul e DEME, da Bélgica. A entrada nesse mercado exige dragas de maior porte, caríssimas e cuja construção demora em torno de dois anos. Como essas companhias têm frotas globais e alta capacidade financeira, podem deslocar equipamentos pelo mundo. Não é sem razão que vários países protegem suas empresas, como os Estados Unidos, China e França, onde se obriga que as embarcações pertençam a cidadãos locais e sejam habilitadas ao comércio costeiro.

    O Brasil, porém, mantém o setor escancarado à desigual concorrência estrangeira, sem política consistente de bandeira, frota, técnicos e tripulação nacionais, além de não dar preferência a companhias domésticas. Reduziu muito sua capacidade devido a programas públicos descontínuos, falta de estímulo à dragagem local, crise da engenharia após 2014 e dificuldade de financiamento. Não se exigem a construção das embarcações no país (US$ 50 milhões a US$ 200 milhões por unidade) nem bandeira local.

    O resultado é a desindustrialização e uma arriscada dependência de empresas estrangeiras. O contraste histórico é eloquente: enquanto vigorou a portaria 461/1999 do Ministério dos Transportes, que classificava a dragagem como navegação de apoio portuário e requeria bandeira nacional, as empresas brasileiras eram competitivas. Infelizmente, o país deixou de contar com frota de grande porte após a extinção da Companhia Brasileira de Dragagem e da Portobrás, além da a abertura do mercado nos anos de 1980 e 1990.

    Embarque de grãos
    Embarque de grãos — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    E é questionável o atual modelo de concessão, iniciado no Canal da Galheta, em Paranaguá (PR), e em expansão para Itajaí (SC), Santos (SP), Rio Grande (RS) e os portos administrados pela Companhia das Docas do Estado da Bahia (Codeba). Requisitos técnicos e de capital podem restringir a participação de empresas brasileiras.

    A grande questão é que essas concessões desconsideram que a dragagem é estratégica para o escoamento da nossa safra e de commodities. Portanto, deveria ser realizada por dragas construídas nos nossos estaleiros, com registro da bandeira e tripulação nacionais.

    Dois exemplos do problema verificam-se no porto de Santos . Na licitação para a dragagem de aprofundamento do canal, realizada em setembro de 2025 pela Autoridade Portuária de Santos (APS), uma proposta nacional de cerca de R$ 10 milhões mais barata foi desclassificada por uma questão formal. Depois do questionamento do Tribunal de Contas da União ( TCU ) e vários trâmites judiciais, o contrato foi assinado, em junho de 2026, com uma subsidiária da Jan De Nul, que apresentou o maior preço. Por isso, volta a ser contestado pelo órgão.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    No Tecon Santos 10, maior terminal de contêineres projetado no país, o modelo do leilão gera discordância quanto à participação ampla ou à restrição a novos entrantes, diante da concentração de 95% da capacidade do porto pelos operadores já instalados.

    Enquanto Antaq (Agência Nacional de Transportes Aquaviários) , TCU (Tribunal de Contas da União), Ministério de Portos e Aeroportos, Casa Civil e Ministério Público discutem, um grande investimento está parado.

    Diante dos concretos riscos para o Brasil, é premente a revisão dos critérios de qualificação e financiamento das concessões. Exigem-se mecanismos que assegurem isonomia competitiva, participação da indústria nacional, retenção de valor e preservação da capacidade do país de operar uma infraestrutura essencial à soberania e à segurança do comércio exterior . TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha
    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/09/o-risco-da-desindustrializacao-e-dependencia-no-setor-de-dragagem.shtml.

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