O que Xi sinalizou para Trump sobre Taiwan em Washington
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Xi Jinping deixou Washington na sexta-feira (25) e você, certamente, deve ter lido o que o encontro resultou: cortes recíprocos de tarifas sobre cerca de US$ 30 bilhões em bens de cada lado, sem alíquotas nem data, e um diálogo sobre IA marcado para novembro.
Nesta edição da newsletter, porém, quero tratar de um tema abordado com menor importância aqui no Brasil: as mensagens e os sinais trocados entre EUA e China sobre Taiwan .

No brinde do jantar de Estado, por exemplo, Xi leu um discurso em que pediu "um novo caminho de convivência entre grandes potências", fórmula parecida com a que ofereceu a Obama em 2013. Na época, Washington recusou a proposta porque ela pressupunha que os EUA respeitariam os "interesses centrais" da China, a começar por Taiwan.
O comunicado chinês da semana passada mostra que o conteúdo continua o mesmo. Ele divide a relação entre uma lista de cooperação a ampliar, onde fica o comércio, e uma de problemas a encurtar, e deixa Taiwan fora das duas, como limite.
O texto pede que Washington passe a se opor à independência da ilha , o que poria os EUA contra qualquer governo de Taipé que se afaste de Pequim. Difícil prever se Trump vai aceitar o que Obama recusou.

A visita mostrou que a disputa por Taiwan se trava no terreno da história, onde Washington mandou sinais opostos. Pequim sustenta que a ilha lhe pertence porque os aliados, nas declarações do Cairo (1943) e de Potsdam (1945), prometeram devolvê-la à China.
Xi lembrou no jantar a amizade "forjada em sangue e fogo" contra os japoneses, e Trump chamou os dois países de aliados na guerra. Um porém aqui: o aliado de Washington foi a China de Chiang Kai-shek, que se refugiou em Taiwan em 1949.
O sinal contrário, porém, veio no Arquivo Nacional, onde a equipe americana pretendia mostrar ao líder chinês o Tratado de San Francisco, de 1951, em que o Japão renunciou a Taiwan sem dizer a quem a ilha passava.

O texto serve até hoje de base para quem defende que o status de Taiwan segue indefinido. O Taipei Times relatou que os tratados não chegaram a ser vistos porque a delegação chinesa se opôs ao documento e cancelou o resto da agenda de última hora. A visita ao arquivo acabou durando pouco mais de dez minutos.
Em novembro do ano passado, em meio à escalada retórica chinesa contra Tóquio, a porta-voz da chancelaria chinesa Mao Ning chamou os trechos do tratado sobre Taiwan de "ilegais e nulos". Argumentou que o acordo foi firmado sem a China e a União Soviética .
A tentativa de apresentar tal documento a Xi foi lida na imprensa estatal como provocação.

Por que importa: A ambiguidade que sustenta a política americana para Taiwan foi defendida pela burocracia e relativizada pelo próprio presidente. Pequim percebeu a diferença e aposta nos encontros diretos com Trump.
Eles devem se encontrar em pelo menos mais duas ocasiões este ano (na cúpula da Apec em Shenzhen em novembro e no G20 em dezembro em Miami).
Curioso perceber também que a Casa Branca sequer tocou em Taiwan em suas divulgações oficiais sobre o encontro. O comunicado chinês acabou restando como único registro do pedido de Xi. Neste caso, o silêncio americano acabou soando como concordância para as exigências feitas pela liderança chinesa.

"Imperador Taizong recebe o enviado tibetano" (641), de Yan Liben, pintor da corte Tang. Maior que todos na representação, o Imperador aparece na pintura recebendo o emissário que veio negociar uma aliança por casamento.
★ O Politburo aprovou a expulsão de Zhang Youxia , ex-número 2 da Comissão Militar Central que comanda as Forças Armadas chinesas. Zhang é acusado de formar grupos de interesse, vender promoções e receber propinas de valor "especialmente elevado" dentro da estrutura militar chinesa. Na quarta (23), o jornal oficial do Exército cobrou de toda a tropa "apoio à decisão". Amigo de Xi na juventude, Zhang é o nome mais graduado de um expurgo que desde 2023 já derrubou dois ministros da Defesa.
★ A Comissão Europeia disse que vai pedir à China que limite as exportações de produtos específicos ao bloco. Em troca, Bruxelas desistiria das tarifas e investigações que prepara contra carros, químicos e máquinas chinesas. As conversas começaram em junho, e Pequim recusou neste mês uma proposta parecida para carros híbridos. Na esteira da discussão, o comissário de Comércio, Maros Sefcovic, anunciou que estará em Pequim nos dias 8 e 9.

Reunido na segunda-feira (28), o Conselho de Estado chinês, sob o comando do premiê Li Qiang , admitiu, em comunicado, que "problemas surgiram na operação da economia". Ele prometeu reforçar a política anticíclica (o nome técnico para gastar mais e afrouxar o crédito quando a atividade perde fôlego) para cumprir as metas do ano.
O pacote anunciado combina três frentes:
O escritório nacional de estatísticas chinês, o equivalente ao IBGE, informou que o lucro das grandes indústrias cresceu 4,2% em agosto, o ritmo mais fraco do ano. Foi o quarto mês seguido de desaceleração, com o índice de atividade industrial em contração em julho e agosto.

Por que importa: O Conselho de Estado voltou a escolher o investimento como principal alavanca para crescer mais. Isso numa economia em que a indústria produz mais do que o mercado interno absorve.
O excedente precisa de destino enquanto Bruxelas negocia cotas e Washington reduz tarifas só para bens de baixo valor. Sobra o mercado da América Latina.
No Brasil, onde siderúrgicas e indústria química recorrem a tarifas antidumping contra produtos chineses, o estímulo deve chegar como concorrência mais barata.

O Ibrachina promove nos dias 23 e 24 de outubro o workshop "Fazendo Negócios com a China", voltado a profissionais que querem entrar ou ampliar operações no mercado chinês. O curso trata de comunicação intercultural e técnicas de negociação, com aulas em inglês e tradução simultânea para o português. As aulas acontecem na Rua Augusta, 1917, 6º andar, em São Paulo, na sexta das 8h30 às 18h30 e no sábado das 8h30 às 13h30. Leia mais aqui .
Vem aí mais um show de drones em São Paulo. Na quarta (30), o espetáculo vai desenhar no céu elementos da cultura da China e do Brasil. A apresentação começa às 20h no Monumento às Bandeiras (ao lado do Parque Ibirapuera) e a entrada é gratuita.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/09/o-que-xi-sinalizou-para-trump-sobre-taiwan-em-washington.shtml.

Xi Jinping propõe um brinde durante um jantar de Estado oferecido pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump - Brendan Smialowski - 24.set.26/AFP · Brendan Smialowski - 24.set.26/AFP — Foto: Folha de S.Paulo
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