Brasil

    O que teria de acontecer para você mudar de voto?

    A dez dias do primeiro turno, talvez estejamos fazendo as perguntas erradas. Para influenciar o resultado eleitoral, escarafunchamos, com um zelo de beato à procura do pecado, todos os podres dos candidatos. Leia mais (09/23/2026 - 23h00)

    Folha de S.Paulo
    24 de setembro de 2026 às 02:00
    O que teria de acontecer para você mudar de voto?
    Diversos bonés coloridos expostos sobre lona em calçada, incluindo modelos vermelhos com inscrições "LULA 2026" e verdes com "Jair Bolsonaro 2026", além de bonés com símbolos da seleção brasileira e times de futebol. Pessoas caminham ao fun — Foto: Folha de S.Paulo

    Professor catedrático convidado na NOVA School of Business and Economics, em Portugal. Nomeado Young Global Leader pelo Fórum Econômico Mundial, em 2017

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    Bonés dos presidenciáveis Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) à venda na região central de São Paulo - Felipe Bächtold - 27.mai.26/Folhapress · Felipe Bächtold - 27.mai.26/Folhapress
    Bonés dos presidenciáveis Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) à venda na região central de São Paulo - Felipe Bächtold - 27.mai.26/Folhapress · Felipe Bächtold - 27.mai.26/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A dez dias do primeiro turno, talvez estejamos fazendo as perguntas erradas. Para influenciar o resultado eleitoral, escarafunchamos, com um zelo de beato à procura do pecado, todos os podres dos candidatos.

    Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha

    Esperamos que no celular de Daniel Vorcaro se descubra, finalmente, a indecência-rainha; que no STF rebente mais um cano de esgoto; que apareça um maço de notas numa cueca parlamentar, um charuto salvadorenho fumado na companhia de algum pilantra, um zero a mais numa conta bancária nas ilhas Caimã, um jatinho registrado em nome da sogra já enterrada. E, quando nada disso produz o terremoto eleitoral prometido, quando a acumulação de casos —tantos, tantos, tantos— não tem impacto nas pesquisas, o que fazemos? Voltamos a remexer no lixo.

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Lembramo-nos de Miriam Cordeiro no horário eleitoral, dos acusados da Máfia dos Sanguessugas que não conseguiram se reeleger, de Roseana Sarney fulminada pelo caso Lunus , do estrago que o caso Erenice causou à candidatura de Dilma, e concluímos que, sim, há de existir um escândalo derradeiro, qualquer coisinha suficientemente sórdida para fazer alguém mudar o voto.

    Mas o Brasil de antigamente não é o Brasil de hoje. A política deixou de ser opinião, sequer causa, e passou a ser identidade. Mudar o voto significa rever quem se é. Para uma grande lasca de brasileiros, a política não é escolher entre programas de governo. Quase ninguém quer saber o que pensa o Flávio sobre a reforma da previdência ou que novas medidas vai o Lula adotar para enxugar a dívida pública . A escolha eleitoral serve, sobretudo, para confirmar quem o eleitor acredita ser. Quando um Lucas qualquer vota no Flávio, o Lucas vota confiantemente nele próprio. Flávio é apenas o corpo provisório de uma identidade maior que existia antes dele e provavelmente sobreviverá a ele.

    A neuropolítica, campo da neurociência que estuda o comportamento político, oferece uma pista interessante sobre esse mecanismo. Em estudo publicado em janeiro deste ano na Scientific Reports , pesquisadores expuseram 43 pessoas fortemente identificadas com uma posição política a argumentos contrários às suas crenças enquanto observavam sua atividade cerebral por ressonância magnética funcional. Os participantes alteraram mais facilmente crenças não políticas do que políticas, e o confronto com convicções políticas produziu maior atividade em regiões da chamada default mode network (rede neural de modo padrão) associadas ao processamento autorreferencial e à introspecção. Quanto mais uma posição se confunde com identidade, maior o custo psicológico e social de abandoná-la.

    As identidades constroem-se muitas vezes pelo avesso e pela rejeição. Sabemos quem não somos, de quem não gostamos e com quem não queremos ser confundidos antes de definirmos, positivamente, aquilo que somos. Muitas nações construíram a sua identidade em oposição a uma ameaça externa —um vizinho, um império ou a potência que as colonizara. Tanto um português conservador como um socialista se ouriçariam ao ouvir um espanhol zombar da arquitetura da Torre de Belém.

    No Brasil, porém, essa rejeição é sobretudo interna. A polarização não apenas separou opiniões políticas; ajudou a fabricar identidades que se definem umas contra as outras, que se reconhecem pelo desprezo recíproco e que precisam do adversário para saber quem são. O adversário deixou de ser alguém do outro lado da rua e passou a ser alguém do outro lado da espécie. Virou uma ameaça doméstica.

    A situação piora a cada eleição. Assustadoramente, o ritual democrático, concebido para administrar pacificamente o conflito, acaba por organizar a sociedade em campos cada vez mais hostis, transformar divergência em aversão e converter adversários em inimigos. É assustador porque o rasgão bolsonarismo-lulismo, visível desde 2014 , é apenas a nova reencarnação de uma sociedade bipolarizada. O Brasil já se dividiu entre integralistas e aliancistas nos anos 1930, getulistas e antigetulistas nos anos 1950, reformistas e anticomunistas entre 1961 e 1964. Já para não falar das inúmeras cisões econômicas, sociais e culturais que o país acumula desde a formação colonial.

    Estamos brincando com fogo. Uma identidade política pode engrossar até deixar de querer apenas governar um país e passar a querer o seu próprio país. Israel nasceu do sionismo, o Paquistão do nacionalismo muçulmano, a União Soviética do comunismo, os Estados Unidos do republicanismo constitucional. A Alemanha do pós-guerra oferece outro exemplo. Em 1949, uma mesma nação passou a existir em dois Estados opostos, um capitalista e democrático, outro comunista e de partido único.

    Em 2022, escrevi nesta Folha "Como superar o ódio eleitoral no Brasil", depois de ouvir um especialista em resolução de conflitos internacionais com experiência em Nepal, Mianmar, Moçambique, Afeganistão e Irlanda. Quatro anos depois, o diagnóstico agrava-se: o Brasil vive um estado de conflito civil. Faltam dez dias para a eleição. Podemos continuar distraídos com Vorcaro, à espera da próxima revelação. Mas não há nada no seu celular que nos diga como impedir que brasileiros passem a considerar outros brasileiros incompatíveis com o mesmo país.

    LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Na página Colunas da Folha você encontra opinião e crônicas de colunistas como Mônica Bergamo , Elio Gaspari , Djamila Ribeiro , Tati Bernardi , Dora Kramer , Ruy Castro , Muniz Sodré , Txai Suruí , José Simão , Thiago Amparo , Antonio Prata e muito mais.

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/rodrigo-tavares/2026/09/o-que-teria-de-acontecer-para-voce-mudar-de-voto.shtml.

    Imagem 1
    1 / 2

    Bonés dos presidenciáveis Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) à venda na região central de São Paulo - Felipe Bächtold - 27.mai.26/Folhapress · Felipe Bächtold - 27.mai.26/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)