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    O que pode uma mulher com a caneta nas mãos?

    No Brasil, apenas 5,2% dos cargos de CEO são ocupados por mulheres . Chegar ao topo continua sendo raro , e ficar lá -de um jeito que produza mudança, não apenas presença- é um desafio para o qual poucas mulheres estão preparadas. Os cargos não vêm com manual. Vêm, no máximo, com uma pergunta silenciosa: o que fazer, na prática, com o poder que se tem em mãos? Leia mais (10/06/2026 - 22h00)

    Folha de S.Paulo
    7 de outubro de 2026 às 01:00
    O que pode uma mulher com a caneta nas mãos?
    Ilustração de funcionária negra com fadiga andando na roda do hamster, fundo da imagem é rosa — Foto: Folha de S.Paulo

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    Mulheres aumentam presença empresarial, mas tem dificuldade em alcançar cargos de liderança - Adobe Stock
    Mulheres aumentam presença empresarial, mas tem dificuldade em alcançar cargos de liderança - Adobe Stock — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Presidente da Empresa Brasil de Comunicação (EBC); mestre em administração pública (FGV) e ex-colunista da Folha

    No Brasil, apenas 5,2% dos cargos de CEO são ocupados por mulheres . Chegar ao topo continua sendo raro , e ficar lá —de um jeito que produza mudança, não apenas presença— é um desafio para o qual poucas mulheres estão preparadas. Os cargos não vêm com manual. Vêm, no máximo, com uma pergunta silenciosa: o que fazer, na prática, com o poder que se tem em mãos?

    Se não há resposta pronta, devemos organizar um repertório de decisões concretas (muitas vezes invisíveis para quem está de fora) que, se analisadas em conjunto, podem funcionar como método. Afinal, o que uma mulher pode realmente fazer, quando chega à alta gestão, para que o caminho seja menos solitário?

    Mulheres negras em cargos de chefia em empresas são raridade
    Mulheres negras em cargos de chefia em empresas são raridade — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Primeiramente, tratar o combate ao assédio como política, não como comunicado. Lançar uma cartilha é o mínimo; mas o que pode mudar a cultura de uma organização é começar a capacitação pela própria cúpula, antes de estendê-la ao restante do corpo de funcionários. Uma agenda que não capacita primeiro quem lidera tende a morrer no papel.

    Segundo: encarar a paridade de gênero na liderança como projeto de gestão, não como símbolo. Uma diretoria com paridade não é uma foto bonita para relatório institucional —é um dado que altera decisões e critérios de avaliação. É difícil defender certos valores para fora quando a própria estrutura interna os contradiz.

    Terceiro: usar o alcance da instituição para reconhecer e valorizar mulheres em espaços historicamente masculinos. Criar prêmios ou coberturas dedicadas a atletas, gestoras ou profissionais em áreas de baixa representação feminina é uma forma de gestão de agenda que qualquer empresa pode replicar. Aqui na EBC (Empresa Brasil de Comunicação), além de termos o maior portfólio de direitos de futebol feminino para a TV aberta, também criamos o primeiro prêmio totalmente voltado para a modalidade e incluímos a categoria "clube contra o feminicídio", de modo a focalizar ações de enfrentamento à violência contra mulheres e meninas.

    Desafios e avanços na inclusão nas empresas brasileiras
    Desafios e avanços na inclusão nas empresas brasileiras — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Quarto: revisar quem tem prioridade nas normas de trabalho. Regras sobre teletrabalho e flexibilidade costumam ser escritas como neutras, mas raramente são. É possível reescrevê-las para dar prioridade explícita a gestantes, lactantes, pessoas com deficiência ou doença rara e responsáveis por dependentes com deficiência, tirando-as da disputa por vaga dentro de uma cota geral. Para essas pessoas, a flexibilidade não é regalia —é condição para permanecer empregada.

    Quinto: corrigir regras de progressão de carreira que penalizam afastamentos legítimos. Em muitas organizações, quem sai de licença-maternidade ou se afasta por doença ocupacional fica sem avaliação de desempenho naquele ciclo e, na prática, fora da fila de promoção, mesmo sem ter feito nada de errado. Dar prioridade, e não penalidade, a quem se afastou por esses motivos não é benefício extra —é a correção de uma injustiça estrutural escrita por quem nunca precisou se afastar do trabalho para ter uma criança.

    Desde que me tornei CEO , há quase seis meses, implementamos todas as ações acima. Por se tratar de uma empresa de comunicação pública, abrimos ainda a capacitação "Comunicar para Proteger" —para evitar que a abordagem jornalística dos veículos da empresa, sobre este tema tão sensível, cometa algum tipo de revitimização. Ou seja, além das diretrizes gerais, existem ações específicas que cada organização pode realizar.

    Lideranças empresariais referência em diversidade, segundo os brasileiros
    Lideranças empresariais referência em diversidade, segundo os brasileiros — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Nenhuma dessas decisões, isoladamente, desmonta uma estrutura construída ao longo de décadas para dificultar a chegada e a permanência de mulheres em espaços de poder. Mas, juntas, formam um método replicável —que não depende de carisma ou de trajetória pessoal, mas de decisões administrativas que executivas e gestoras podem tomar assim que tiverem o poder da caneta em suas mãos.

    O objetivo final desse método é paradoxal: usar o poder de um cargo não para ocupá-lo sozinha, mas para que uma mulher na presidência de uma empresa deixe de ser notícia por ter chegado lá —e passe a ser notícia pela gestão que faz.

    TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

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    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha
    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/10/o-que-pode-uma-mulher-com-a-caneta-nas-maos.shtml.

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