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    O que pode ser feito para acabar com o surto de ebola na República Democrática do Congo

    Os esforços da República Democrática do Congo contra o ebola chegaram a um ponto crítico. O país pode acelerar as medidas que vêm sendo adotadas para controlar o surto mais recente ou correr o risco de permitir que ele se prolongue e se transforme na pior epidemia de ebola já registrada. Leia mais (09/09/2026 - 13h10)

    Folha de S.Paulo
    9 de setembro de 2026 às 16:10
    O que pode ser feito para acabar com o surto de ebola na República Democrática do Congo
    Foto: Folha de S.Paulo

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    Professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Ciência e Tecnologia de Mbarara, a oeste de Uganda

    Corpo de homem morto por suspeita de ebola é transportado em Bunia, na República Democrática do Congo - Gradel Muyisa Mumbere - 10.jul.26/Reuters · Gradel Muyisa Mumbere - 10.jul.26/Reuters
    Corpo de homem morto por suspeita de ebola é transportado em Bunia, na República Democrática do Congo - Gradel Muyisa Mumbere - 10.jul.26/Reuters · Gradel Muyisa Mumbere - 10.jul.26/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Pesquisadora da Faculdade de Medicina da Universidade de Alcalá, na Espanha

    Os esforços da República Democrática do Congo contra o ebola chegaram a um ponto crítico. O país pode acelerar as medidas que vêm sendo adotadas para controlar o surto mais recente ou correr o risco de permitir que ele se prolongue e se transforme na pior epidemia de ebola já registrada.

    De maio a 1º de setembro de 2026, foram registrados 6.186 casos e 3.007 mortes, o que faz deste o surto de ebola mais letal da história da República Democrática do Congo. A epidemia é provocada pela cepa Bundibugyo do vírus, e ainda não há vacina licenciada , nem tratamento específico contra essa variante.

    Ebola na República Democrática do Congo
    Ebola na República Democrática do Congo — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Acredita-se que o surto tenha começado no fim de abril na região de Mongbwalu, área de intensa atividade mineradora e grande circulação de pessoas na província de Ituri, no nordeste do país. De lá, o vírus se espalhou para outras cidades e províncias e, posteriormente, para Uganda .

    A resposta ao surto é liderada pelo governo da República Democrática do Congo, com apoio dos Centros Africanos de Controle e Prevenção de Doenças, da OMS (Organização Mundial da Saúde) e de outros parceiros. As instituições têm contribuído para ampliar a vigilância epidemiológica, a capacidade laboratorial, os centros de tratamento, as medidas de prevenção e controle de infecções, a vacinação, a logística, o envolvimento das comunidades e os enterros seguros e dignos.

    Houve, contudo, avanços significativos, incluindo a interrupção da transmissão em Uganda.

    Surto de ebola na República Democrática do Congo
    Surto de ebola na República Democrática do Congo — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Na República Democrática do Congo, porém, a insegurança, os deslocamento constantes da população, a detecção tardia de casos, as deficiências de financiamento e de suprimentos e o envolvimento insuficiente das comunidades continuam contribuindo para a transmissão.

    A resposta, portanto, ainda não é suficiente para interromper a transmissão no país. Isso reforça a necessidade de aproximar das comunidades, especialmente das aldeias, as ações de vigilância, testagem, tratamento, vacinação e mobilização social.

    Como especialistas em saúde pública com experiência em ebola e como profissionais que estão na linha de frente do combate ao surto, consideramos que são necessárias medidas adicionais. Para isso, é preciso olhar para quatro fatores que têm dificultado o controle da epidemia: o contexto geográfico e humanitário; a alta mobilidade da população; a baixa confiança e o envolvimento insuficiente das comunidades; e o arsenal científico ainda incompleto contra a cepa Bundibugyo.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Primeiro, trata-se de um surto que ocorre em um ambiente excepcionalmente difícil. As áreas afetadas são extensas, remotas e, em muitos locais, inseguras. Pequenos deslocamentos podem levar um dia ou mais por causa das más condições das estradas, especialmente durante a estação chuvosa, que ocorre neste momento.

    Segundo, as populações são altamente móveis. Comunidades mineradoras, transporte por motocicletas, deslocamentos forçados e movimentos através das fronteiras conectam aldeias e zonas de saúde que são difíceis de monitorar.

    Terceiro, a confiança e o envolvimento das comunidades continuam sendo desafios. Quando as pessoas estão com medo, quando unidades de saúde fecham depois da morte de profissionais ou quando famílias vivenciam casos de ebola sem perceber uma resposta eficaz, elas podem adiar ou evitar a busca por atendimento. Isso afeta diretamente a vigilância epidemiológica.

    Investigações atuais conduzidas por nossa equipe indicam que uma parcela significativa dos casos está sendo identificada fora das listas de contatos já conhecidas. Por isso, a resposta não pode depender apenas do rastreamento tradicional de contatos.

    Quarto, diferentemente do ebola causado pela cepa Zaire, a Bundibugyo não possui vacina licenciada nem tratamento específico. A pesquisa clínica , portanto, também faz parte da própria resposta ao surto.

    É importante reconhecer o quanto foi alcançado em apenas três meses —entre 15 de maio e 15 de agosto de 2026.

    Mais de 20 unidades de tratamento e isolamento de pacientes com ebola foram criadas ou receberam apoio. No auge da crise, no fim de maio de 2026, a capacidade de atendimento estava sobrecarregada, com a ocupação dos leitos ultrapassando 200%. No fim de agosto, a ocupação havia caído para cerca de 66%.

    A capacidade laboratorial também aumentou significativamente, com 22 laboratórios funcionando nas cinco províncias afetadas. Antes, havia apenas um laboratório, em Kinshasa, com capacidade para detectar o vírus Bundibugyo. A expansão ajudou a reduzir o intervalo entre a coleta das amostras e a divulgação dos resultados de mais de uma semana para apenas algumas horas.

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    Os enterros seguros e dignos também melhoraram substancialmente, e atualmente a grande maioria é realizada em até 24 horas.

    Essas melhorias são importantes. Mostram que uma resposta pode mudar a trajetória de uma epidemia quando recursos, coordenação e capacidade técnica são combinados.

    Também há sinais epidemiológicos encorajadores. Em média, cada paciente passou a infectar pouco mais de uma pessoa, contra quatro no início do surto.

    A quantidade de recursos mobilizados para enfrentar a epidemia é expressiva, com aproximadamente U$ 1,72 bilhão (R$ 8,75 bilhões) em promessas de financiamento. Cerca de U$ 867 milhões (R$ 4,41 bilhões), aproximadamente metade do total prometido, teriam sido efetivamente liberados.

    A próxima fase da resposta deve ter as aldeias como foco. Representantes locais, profissionais de saúde e lideranças comunitárias devem se tornar parceiros ativos na vigilância epidemiológica, na detecção precoce, no encaminhamento de pacientes, na comunicação de riscos e na proteção das comunidades.

    Ferramentas digitais podem ajudar nesse processo, mas a tecnologia deve estar a serviço das comunidades.

    Os motociclistas que fazem transporte comercial, responsáveis por conectar comunidades separadas por grandes distâncias, devem ser envolvidos como parceiros na resposta, em vez de serem tratados apenas como fator de risco.

    A vacinação também precisa chegar mais perto das comunidades. As pesquisas devem ser realizadas onde a epidemia está ocorrendo. E ensaios clínicos de vacinas e tratamentos devem avançar com urgência e rigor científico.

    Os serviços essenciais de saúde precisam continuar funcionando paralelamente às ações de controle do ebola. O mesmo vale para a reabertura das escolas, que deve ocorrer com medidas de prevenção de infecções.

    As respostas humanitária e ao ebola também precisam ser integradas. Uma comunidade que enfrenta simultaneamente insegurança, deslocamento e doença não pode ser obrigada a lidar com sistemas separados para cada uma dessas crises.

    Por fim, o ebola não respeita fronteiras. A colaboração entre República Democrática do Congo e Uganda mostra como pode funcionar a solidariedade regional e deve ser ampliada para Sudão do Sul e outros países vizinhos, conforme acordado em Bangui, na República Centro-Africana, em meados de agosto.

    Este texto foi publicado em The Conversation . Clique aqui para ler a versão original.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2026/09/o-que-pode-ser-feito-para-acabar-com-o-surto-de-ebola-na-republica-democratica-do-congo.shtml.

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    Corpo de homem morto por suspeita de ebola é transportado em Bunia, na República Democrática do Congo - Gradel Muyisa Mumbere - 10.jul.26/Reuters · Gradel Muyisa Mumbere - 10.jul.26/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo

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