O que o Brasil precisa fazer para se livrar do vício da corrupção
Primeiro passo é reformar o Judiciário, onde há juízes que se acham acima da lei, e o Orçamento

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É colunista do jornal O Globo e autora de "A Organização: A Odebrecht e o escândalo de corrupção que chocou o mundo".

Quando os brasileiros forem às urnas no domingo (4) para escolher o próximo presidente , o clima será de desalento e incerteza.
Um dos motivos são as opções disponíveis. Os dois favoritos, Luiz Inácio Lula da Silva ( PT ), o atual presidente, e Flávio Bolsonaro ( PL ), senador de ultradireita e filho de um ex-presidente, representam os dois campos que dominaram todas as eleições desde 2018. Nenhum deles oferece algo novo, muito menos uma visão de futuro .
Mas há outro motivo para o desencanto. Mais uma vez, uma eleição brasileira ocorre em meio a um gigantesco escândalo de corrupção .

Há um ano, os brasileiros descobriram que o Banco Master , de propriedade de Daniel Vorcaro , era, na prática, um gigantesco esquema de pirâmide financeira . Ele drenou R$ 60 bilhões do sistema financeiro e se sustentava graças a uma ampla rede de favores, contratos duvidosos e propinas. Desde então, os tentáculos de Vorcaro, um banqueiro jovem com gosto por jatinhos particulares, festas suntuosas e acompanhantes europeias , alcançaram autoridades de todo o espectro político.
Uma delas é o próprio Flávio Bolsonaro, que admitiu ter recebido pelo menos R$ 61 milhões do banqueiro, supostamente para fazer um filme sobre seu pai, Jair . Não há indícios de que o próprio Lula tenha mantido relações impróprias com o dono do Banco Master, mas vários de seus aliados foram acusados disso, entre eles o líder de seu governo no Senado, um ex-ministro da Justiça e um ex-ministro da Fazenda.
Grandes escândalos não são novidade para os brasileiros. As últimas duas décadas produziram muitos deles. O mensalão, em 2005 , envolveu pagamentos clandestinos feitos pelo Partido dos Trabalhadores (PT), de Lula, a aliados no Congresso em troca de seus votos.

Dez anos depois, a operação Lava Jato , uma investigação anticorrupção , revelou um esquema bilionário de propinas estruturado em torno de contratos que empreiteiras, sobretudo a Odebrecht, assinaram com a Petrobras, a gigante petrolífera controlada pelo Estado. O PT estava no centro do esquema, mas o dinheiro chegava a muitos outros partidos, e a operação se espalhou por uma dúzia de países.
Ainda assim, mesmo para os padrões de um país que consome escândalos com a mesma voracidade com que assiste novelas, o caso Banco Master é extraordinário. O principal motivo é o envolvimento sem precedentes de ministros do Supremo Tribunal Federal .
O mais proeminente deles é Alexandre de Moraes , que conduziu o processo que resultou na condenação de Jair Bolsonaro e de outros réus por tentativa de golpe de Estado. A esposa de Moraes assinou um contrato de R$ 131 milhões com o Banco Master , embora não haja indícios de que algum serviço tenha sido prestado.

Ela também recebeu participação na propriedade de um avião e de um helicóptero, supostamente como pagamento. Ainda mais incriminador: o telefone do banqueiro continha 52 mensagens sugerindo que era o próprio Moraes quem atuava como advogado de Vorcaro —o que ele nega. Os dois aparentemente chegaram a discutir um plano de fuga para manter o banqueiro fora da prisão.
Há 30 anos cubro o poder no Brasil como jornalista. Acompanhei de perto todos esses casos e fui a primeira a chamar a atenção para os esquemas do Banco Master. Mesmo assim, fiquei impressionada com a convicção de Vorcaro de que poderia comprar qualquer pessoa e com a agressividade de suas tentativas.
Em abril de 2025, um de seus aliados me ofereceu um emprego que valia milhões , mas eu sabia que aquilo não passava de uma tentativa de me afastar do jornalismo e impedir a publicação das reportagens que o incomodavam.

Só um ano depois, quando ele já estava preso, soube que também havia mandado devassar minha vida e investigar meus filhos e meu companheiro. Para sua decepção, a busca não encontrou nada, nem sequer uma multa de trânsito .
O caso Master e sua chegada ao STF causaram danos enormes. Os brasileiros, já fartos de escândalos, estão perdendo a confiança em suas instituições. O caso expôs um mercado de tráfico de influência operado a partir de escritórios de advocacia comandados por parentes ou amigos de ministros. Também escancarou uma relação incestuosa entre juízes e advogados que sempre existiu , mas que foi tolerada e reforçada ao longo dos anos.
Durante a Presidência de Jair Bolsonaro, a sociedade brasileira relegou essa mistura de conflitos de interesses e corrupção a uma posição secundária em sua lista de preocupações, diante de prioridades mais urgentes.

A primeira era impedir que o negacionismo do presidente aprofundasse a tragédia da pandemia de covid-19 e fazer com que as vacinas chegassem ao maior número possível de pessoas. A segunda era resistir às articulações golpistas que pretendiam instaurar uma ditadura e manter Bolsonaro no poder .
Hoje, porém, muitos brasileiros se perguntam por que deveriam apoiar e respeitar um STF que usou o poder que a sociedade lhe confiou para se deixar cooptar por um estelionatário contumaz. A contaminação do tribunal é um sintoma evidente da fragilidade da democracia brasileira e uma das principais razões para o desalento e a revolta dos eleitores.
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Isso não significa que não haja saída. Já começa a surgir um consenso de que o Brasil precisa de uma ampla reforma do Judiciário. Ela não deve apenas criar novas regras anticorrupção, mas também limitar o poder de juízes que hoje se comportam como se estivessem acima da lei. Deve ainda garantir a independência dos órgãos do Estado encarregados de combater a corrupção, enfraquecida cada vez que uma investigação alcançou alguém com poder e influência.
Igualmente urgente é uma reforma do Orçamento que impeça o Congresso de controlar mais gastos discricionários do que o próprio Executivo. Isso ajudaria, em alguma medida, a restaurar o sistema de freios e contrapesos do qual depende a saúde das instituições brasileiras.
São tarefas complexas, sobretudo porque exigirão grande desprendimento e espírito público de muitas pessoas que, até agora, pensaram apenas em si mesmas. Mas elas precisam entender que isso já não é uma questão de escolha, e sim de sua própria sobrevivência — e da sobrevivência da democracia brasileira.
Este texto foi publicado no site da revista The Economist .
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Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/10/o-que-o-brasil-precisa-fazer-para-se-livrar-do-vicio-da-corrupcao.shtml.

Homem caminha em frente à antiga sede do extinto Banco Master, em São Paulo - Nelson Almeida - 22.jan.26/AFP · Nelson Almeida - 22.jan.26/AFP — Foto: UOL
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