O que jovens que vão votar pela primeira vez pensam dos candidatos a presidente?
Para a juventude, o peso deste pleito é grande. Em 2026, mais de cinco milhões de novos eleitores irão às urnas para decidir o chefe de Estado nos próximos quatro anos. Leia mais (09/23/2026 - 15h38)

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Para a juventude, o peso deste pleito é grande. Em 2026, mais de cinco milhões de novos eleitores irão às urnas para decidir o chefe de Estado nos próximos quatro anos.

Mas esse interesse não é regra. Na faixa de 16 e 17 anos, cujo voto é facultativo, a juventude tem se afastado das urnas. O número de adolescentes com título caiu 23% em relação à última eleição —de 2,1 milhões para 1,6 milhão. A queda é quase quatro vezes maior do que a média de todas as idades, que encolheu 5,6% segundo o IBGE.
Para mapear a visão desse eleitorado estreante, o Folhateen ouviu sete jovens de 16 a 21 anos em diferentes regiões do país. As entrevistas podem ser conferidas a seguir e nas redes sociais da Folha .
O grupo reúne perfis ligados a juventudes partidárias dos candidatos mais bem colocados nas últimas pesquisas Datafolha — Lula ( PT ), Flávio Bolsonaro ( PL ), Augusto Cury (Avante), Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo). Além deles, foi ouvido um representante que optará pelo voto nulo.

Ana Beatriz Rocha, eleitora de Lula, do PT
Idade: 16 anos Cor: branca Escolaridade: ensino médio incompleto Religião: cristã Cidade: São Paulo
A memória familiar e a vivência na periferia moldaram cedo a consciência política dessa moradora de um bairro periférico da zona leste de São Paulo. Estudante de uma escola técnica estadual, ela cresceu acompanhando a mãe, que comanda uma associação de suporte a famílias de baixa renda na comunidade. Hoje, a jovem atua em um coletivo de juventude ligado ao PT e planeja se filiar formalmente ao partido no futuro.

Entre as ações do governo federal, ela destaca o Pé-de-Meia, programa que paga bolsas para manter alunos na escola e que é a principal aposta de Lula para a reeleição ao quarto mandato em 2026. "Alguns amigos queriam trancar o curso técnico para ir para uma escola normal, estudar à noite e conseguir trabalhar de dia. O que fez eles desistirem foi o Pé-de-Meia".
Ela também defende o fim da escala 6x1.: "Vi meu pai sofrer por ter perdido boa parte da minha infância. A diminuição da jornada faz as pessoas trabalharem melhor e mais felizes".
Ao comentar as acusações de adversários que chamam Lula de corrupto pelo histórico de prisões e pelos processos da Lava Jato, a estudante diz que "nenhum político é 100% honesto". "Chamar uma pessoa de ladrão é algo muito forte. Não acho justo".

Questionada sobre as investigações recentes envolvendo Lulinha, filho do presidente, e o INSS, ela mantém a posição: "É uma acusação muito séria, mas não acho que isso, por si só, definiria meu voto. Se houver irregularidades, que sejam esclarecidas".
João Eduardo Gomes, eleitor de Romeu Zema, do Partido Novo
Idade: 20 anos Cor: branco Escolaridade: ensino médio completo Religião: cristão Cidade: Belo Horizonte

Os dizeres "O PT quebrou MG" na camiseta do estudante resumem o tom de sua estreia nas urnas. "Zema entendia a dor do mineiro após governos com corrupção atrás de corrupção", diz o jovem, que vê nesse tema a maior angústia de sua geração.
De volta a Belo Horizonte após morar durante seis anos nos EUA, ele se prepara para cursar direito e atua na juventude do Novo, sigla que define como a "única direita de verdade".
A prioridade do jovem no plano do ex-governador é a privatização, que defende para combater o loteamento político: "As estatais têm sido usadas para cargo de amigo, parente ou conhecido. Quero tirar isso das mãos dos políticos e colocar com pessoas capacitadas".

João projeta o próprio futuro: "Se eu entrar na Petrobras, tem que ser por mérito, estudo e capacidade, não por conhecer alguém no governo". O estudante, no entanto, faz uma ressalva: para ele, o Banco do Brasil não precisa ser privatizado, pois "ainda dá lucro", diz.
Com amigos, diz fugir dos atritos: "Eu até debato, mas não quero que afete a amizade. Prefiro evitar". Morador de um bairro popular, afirma que o voto só valerá a pena se o custo de vida cair. "Dói não ter carne na geladeira e ver a gasolina a R$ 7. Com o Zema isso vai mudar."
Marcos Neves Júnior, eleitor de Flávio Bolsonaro, do PL

Idade:19 anos Cor: branco Escolaridade: ensino médio completo Religião: cristão Cidade: São Paulo
A escolha nas urnas começa pela defesa da família e da fé, segundo esse morador de um bairro de classe média-alta na zona leste de São Paulo e estudante de ciências contábeis em uma faculdade particular. Ele diz acompanhar política desde os 15 anos. "Hoje nosso principal candidato é o Flávio, o com maior chance de ganhar e de tirar o PT".
As críticas ao governo Lula se concentram no bolso. "Ele prometeu picanha e hoje muitas famílias não conseguem comprar uma cartela de ovo", diz. "Brincava com meu pai que quando ele tinha a minha idade que eu, conseguia comprar carro. Hoje em dia, eu já estou em um diferencial por conseguir comprar um produto melhor da Apple".

Na segurança pública, o estudante defende punições severas, como a castração química para condenados por estupro e a classificação de facções criminosas como terroristas. "Como que uma pessoa domina uma região, armada, coloca o terror, cobra taxa para a pessoa morar na própria casa?"
O apoio segue firme mesmo diante das investigações que envolvem o senado, investigado por suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção no caso "Dark Horse" — filme sobre Jair Bolsonaro que recebeu aportes de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
A relação com o banqueiro não é motivo para desconfiança. "Tudo tem que ser investigado, e o Flávio falou que abre tudo: conta, o que for preciso.Não vejo nenhuma irregularidade em um empresário, que tinha livre acesso a todos em Brasília, falar que vai apoiar um filme e colocar a marca da sua empresa".

Rafaella Ellen, eleitora de Renan Santos, do partido Missão
Idade: 16 anos Cor: branca Escolaridade: ensino médio incompleto Religião: cristã Cidade: Fortaleza
O medo de andar na rua e a sensação de insegurança foram os fatores decisivos para a estudante de 16 anos definir seu primeiro voto em Renan Santos. "Ele não tem nenhum envolvimento político, nenhum envolvimento corrupto".

Moradora de um bairro de classe média-alta em Fortaleza e aluna do ensino médio em um colégio particular, ela começou a acompanhar o partido Missão pela internet. Questionada sobre as controversas declarações do candidato sobre o papel das mulheres na sociedade, ela diz que Renan "representa muito mais propostas e coisas relevantes do que esses acontecimentos que foram isolados. Muitas coisas foram tiradas de contexto".
A segurança pública é o eixo central de sua escolha, principalmente a adoção do chamado direito penal do inimigo", que propõe a suspensão de garantias processuais comuns para membros de facções criminosas. O plano também inclui a construção de superpresídios de segurança máxima nos moldes do modelo carcerário de El Salvador.
Outro ponto que atrai a estudante é o plano de desfavelização de comunidades por meio de intervenção militar. "Tem que ter muito cuidado com tudo isso de muita militarização, mas acho que é preciso com o Brasil que a gente está hoje." A proposta, contudo, é alvo de fortes críticas de especialistas em segurança pública e direitos humanos.

Para olhar para trás nos próximos quatro anos e avaliar que a aposta valeu a pena, ela resume o que espera do país e do próprio dia a dia: "O meu sonho é de ficar no Brasil, não quero sair daqui. O Brasil se tornando uma potência mundial e eu andando livremente com o celular, sem medo de andar na rua para ir para a escola, acho que já vou sentir que valeu a pena".
Idade:21 anos Cor: branco Escolaridade: ensino superior completo Religião: cristão Cidade: São Paulo
Na contramão dos colegas engajados em juventudes partidárias, o jovem encara a ida às urnas em 2026 estritamente como um dever cívico. "Como não tenho muito interesse nessa pauta de política, acho que é mais uma obrigação ir lá, escolher alguém e votar", afirma o morador de um bairro periférico da zona leste de São Paulo, formado em análise e desenvolvimento de sistemas por uma faculdade privada da capital.

Em 2024, quando tinha 19 anos, a apatia com a disputa municipal era tamanha que ele nem sequer havia tirado o título de eleitor —preferiu arcar com a multa. Agora regularizado, diz que a escolha está cravada no voto nulo, tanto no primeiro quanto no segundo turno. Para ele, governos recentes de esquerda ou de direita deixaram pouca transformação real.
A descrença persiste mesmo convivendo com os dois extremos do espectro político dentro de casa. "Na casa da minha mãe, meu padrasto e meu irmão já são mais voltados para a direita. Já meu pai e minha irmã são mais para a esquerda", conta. "Escuto as duas opiniões em casa e mesmo assim permaneço no nulo, porque nenhuma das ideias me agrada."
Liberal nos costumes e sem opinião formada sobre diretrizes econômicas, ele aponta a segurança pública como a principal urgência do seu cotidiano na periferia: "Prezo muito por conseguir andar na rua de forma segura, igual em outros países. Se um candidato conseguisse melhorar essa parte, me faria votar nele".

No campo profissional, a régua é parecida. "Tem muita pessoa com conhecimento elevado querendo entrar em vaga de júnior ou estágio. Se o candidato realizar esse investimento na área de tecnologia, eu posso alavancar mais a minha carreira". Enquanto as promessas não saem do discurso, ele prefere se esquivar das polarizações: "Acho nada a ver a pessoa ficar discutindo política".
Vitor Luiz Mota, eleitor de Ronaldo Caiado, do PSD
Idade: 18 anos Cor: pardo Escolaridade: ensino médio incompleto Religião: cristão Cidade: Goiânia

"Eu sou Caiado, sim, em qualquer área da minha vida", diz o morador de um bairro de classe alta em Goiânia e aluno do terceiro ano do ensino médio de um colégio particular. "A minha juventude está muito desacreditada na honestidade dos políticos. Caiado não deixa roubar e não rouba, teve uma vida pública limpa por 40 anos".
Mota planeja cursar agronomia e já participa da juventude do PSD. Evangélico da Assembleia de Deus, vê na postura do candidato o seu maior diferencial. O jovem crê que as medidas de combate ao crime sejam a prioridade absoluta.
"Aqui em Goiás a gente sai com o celular na mão pedindo paz, e tem uma equipe por trás capacitada, a nossa Polícia Militar, que tem todo o respaldo do governo para agir", diz.

O estudante apoia pontos centrais do plano do governador, como a redução da maioridade penal para 16 anos, a equiparação das penas do crime de furto ao de roubo e o enquadramento de facções criminosas e milícias como grupos terroristas. "Facções pegam esses jovens sabendo que terão respaldo na Justiça. Tem que mostrar que ele não tem o direito de fazer o que bem entender", defende.
O estudante também defende anistia aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro, a quem chama de manifestantes, e elogia Jair Bolsonaro como "um grande líder". Em um cenário de segundo turno sem Caiado na disputa, ele descarta votar no PT e define apoio a Flávio Bolsonaro (PL): " A trajetória do Lula é muito obscura para mim, é muito sindicalismo e eu não confio em sindicato".
Yasmim Rodrigues, eleitora de Augusto Cury

Idade:18 anos Cor: parda Escolaridade: ensino médio incompleto Religião: não tem Cidade: Belo Horizonte
Dizendo-se cansada da polarização entre lulismo e bolsonarismo, a estudante encontrou na chamada terceira via o caminho para estrear nas urnas. Moradora de um bairro de classe média em Belo Horizonte, ela optou pelo psiquiatra e escritor Augusto Cury (Avante).
"A gente já passou por política de extrema direita e de extrema esquerda. Nenhum extremo é o meu ideal. Um candidato que nunca foi preso e não tem polêmica é um bom indício de que tem algo melhor a oferecer", diz.

Admiradora dos livros de autoajuda de Cury, ela rebate os críticos que afirmam que o candidato tenta transformar a gestão pública em uma extensão de sua literatura motivacional. "Acho que o novo está assustando", diz. Outro ponto que a atraiu foi o foco na saúde mental da juventude e no adoecimento provocado pelo excesso de telas. "Quando você está doente de tecnologia, você não percebe. A gente precisa estar com a saúde mental e física em dia."
Na segurança pública, a jovem defende uma das propostas de Cury que virou meme nas redes e foi apontada por especialistas como inviável: o envio de drones para tentar coibir agressores antes da chegada da polícia a ocorrências de violência doméstica.
"Os drones vão auxiliar bastante. Estar com medo o tempo todo é uma coisa que me incomoda muito sendo mulher. O mínimo que grave, que tire fotos e ajude já é um socorro para uma mulher que não tem nada dentro de casa".

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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/folhateen/2026/09/o-que-jovens-que-vao-votar-pela-primeira-vez-pensam-dos-candidatos-a-presidente.shtml.

Da esq. para a dir., os jovens Yasmim Rodrigues, Marcos Neves Júnior, Ana Beatriz Rocha, Rafaella Ellen, João Eduardo Gomes, Vitor Luiz Mota e Vinicius Fernandes, que votam pela primeira vez neste ano - folhapress · folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
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