O que impede o Brasil de melhorar
Qual é o principal problema do país? Faço aqui a minha aposta. Nos últimos tempos, atribuí nossas mazelas à polarização política e ao enfraquecimento do centro democrático . Continuo convencido de que são questões prementes. Basta lembrar que, em outubro , pela terceira vez, o Brasil optará entre dois candidatos rejeitados igualmente por metade dos eleitores . Mas o beco ao qual o populismo nos conduziu é consequência, não causa. Leia mais (09/08/2026 - 22h00)

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Consultor de posicionamento organizacional e membro de conselhos; fundador da Significa, foi sócio e CEO da Edelman Brasil
Qual é o principal problema do país? Faço aqui a minha aposta. Nos últimos tempos, atribuí nossas mazelas à polarização política e ao enfraquecimento do centro democrático . Continuo convencido de que são questões prementes. Basta lembrar que, em outubro , pela terceira vez, o Brasil optará entre dois candidatos rejeitados igualmente por metade dos eleitores . Mas o beco ao qual o populismo nos conduziu é consequência, não causa.
Entendo que o entrave central é a degradação da capacidade de representação, mediação e construção de consensos da nossa democracia. Vivemos uma grave crise de governança, que trava a implementação das melhorias que o país demanda.

Sem capacidade de representar os diferentes interesses da sociedade, arbitrar conflitos, estabelecer prioridades e articular maiorias políticas, o país permanecerá abaixo do seu potencial.
Nossas instituições e mecanismos políticos responsáveis por construir projetos coletivos para a evolução socioeconômica perderam força, legitimidade e eficiência. E, nesse vazio, entre outras mazelas, emergiu ainda mais o populismo, que se alimenta de ilusão e maniqueísmo.
Há convergência entre especialistas: o Brasil só ingressará em uma trajetória sustentada de prosperidade se conseguir realizar um conjunto de reformas estruturais e melhorias incrementais na economia, na gestão pública, no sistema político, na educação, na saúde, na segurança e na agenda climática.

As medidas capazes de produzir transformações estruturais são, em essência, antipopulistas: exigem escolhas difíceis, impõem custos e não oferecem benefícios no presente para gerar resultados efetivos no futuro.
Não faltam diagnósticos nem proposições embasadas para o Brasil evoluir. Ao contrário. Ocupando vazios deixados por governos e partidos políticos, organizações da sociedade civil vêm produzindo estudos e formulando políticas de Estado com base científica para os nossos principais desafios.
Sabemos o que precisa ser feito. O que nos falta é capacidade política para transformar conhecimento em ação, interesses dispersos em objetivos comuns e iniciativas pontuais em estratégias de longo prazo.

Não conseguimos rever privilégios perpetuados, reorganizar as contas públicas, enfrentar interesses corporativos, aprimorar o Estado. Conhecemos as soluções, mas não temos capacidade para implementá-las e sustentá-las.
Vivemos sob o império do improviso, da recompensa instantânea, do conflito permanente, da fragmentação.
Precisamos reconstruir as condições que permitam à nossa democracia funcionar melhor e entregar melhores resultados.
Há amplo espaço e necessidade de a sociedade civil também assumir o protagonismo no aperfeiçoamento dos nossos mecanismos de representação política e organização democrática. Nada indica que esse movimento virá da atual estrutura de poder.
Temos boas propostas em segmentos dessa frente. O que falta é uma iniciativa capaz de conectá-las, orquestrar uma agenda comum e transformar conhecimento e ação dispersos em incidência potente sobre o sistema político.
Precisamos de uma organização civil estratégica que promova uma coalizão entre as demais organizações que trabalham em políticas públicas, com a missão de recriar as condições necessárias para o Brasil tomar as decisões difíceis e realizar transformações estruturais de que tanto carece.
Uma plataforma que consolide conhecimentos, diagnósticos e propostas, mobilize atores-chave e articule a implementação de mudanças, atuando de forma estratégica, persistente, suprapartidária e apartidária para aperfeiçoar o funcionamento da democracia brasileira e da governança do país.
Uma organização dedicada ao aperfeiçoamento da infraestrutura institucional para que o sistema democrático priorize o interesse público.
Se fortalecermos nossa capacidade de representação, mediação e coordenação política para a construção de consensos, estaremos mais aptos a definir prioridades para enfrentar nossas pragas históricas: a desigualdade estrutural, o patrimonialismo, o corporativismo e o clientelismo.
Uma democracia funcional, capaz de colocar o Brasil no rumo da prosperidade, inclusão, sustentabilidade e estabilidade institucional, é o melhor antídoto contra a sedução dos atalhos autoritários. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/09/o-que-impede-o-brasil-de-melhorar.shtml.

Imagem aérea feita por drone mostra a praça dos Três Poderes, com destaque para o Congresso Nacional ao centro, o Palácio do Planalto à esquerda e o Supremo Tribunal Federal à direita - Pedro Ladeira - 31.jan.25/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
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