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    O que falta para levar a sério os riscos da inteligência artificial?

    Em " Techno-Negative: a Long History of Refusing the Machine " (University of Minnesota Press), o geógrafo belga Thomas Dekeyser mostra como, pelo menos desde os gregos, a tecnologia no Ocidente sempre veio acompanhada de sua negação. A constatação faz pensar na falta de uma resistência à altura da urgência e da rapacidade da inteligência artificial e na tendência um tanto imprevidente de descartarmos de saída, como ingênua ou infantil, toda manifestação "tecnopessimista". Leia mais (08/07/2026 - 10h00)

    Folha de S.Paulo
    7 de agosto de 2026 às 13:00
    O que falta para levar a sério os riscos da inteligência artificial?
    Termelétrica em Austin, no Texas; demanda de data centers tem elevado os custos do setor elétrico dos EUA - Brandon Bell - 28.jul.26/Getty Images/AFP · Brandon Bell - 28.jul.26/Getty Images/AFP — Foto: Folha de S.Paulo

    Romancista, autor de 'Nove Noites' e 'Os Substitutos'

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    Como a IA se integra ao dia a dia na Coreia do Sul
    Como a IA se integra ao dia a dia na Coreia do Sul — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Em " Techno-Negative: a Long History of Refusing the Machine " (University of Minnesota Press), o geógrafo belga Thomas Dekeyser mostra como, pelo menos desde os gregos, a tecnologia no Ocidente sempre veio acompanhada de sua negação. A constatação faz pensar na falta de uma resistência à altura da urgência e da rapacidade da inteligência artificial e na tendência um tanto imprevidente de descartarmos de saída, como ingênua ou infantil, toda manifestação "tecnopessimista".

    O que falta para levar a sério os riscos da inteligência artificial? Ou a relação entre o aquecimento global e o modo de estar no mundo do qual não conseguimos abrir mão apesar da consciência do fim?

    Há uma inversão perversa, própria à lógica da necessidade fabricada, que nos impede de descartar o que nos redefine em novas zonas de conforto, a ponto de acreditarmos que nos é indispensável mesmo quando nos é claramente prejudicial. É o que nos torna vulneráveis às dissimulações da máquina, que se apresenta como provedora, papel reivindicado por Hal, o computador disfuncional de "2001: uma Odisséia no Espaço", ao ser pego de calças curtas pelo único sobrevivente da tripulação que ele deveria conduzir em segurança até seu destino final.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Ao lembrar que a tecnologia é "tanto uma história de invenção como de colapso", Dekeyser não só projeta na máquina o caráter trágico (e demasiado humano) de quem carrega em si a própria negação, como faz dela um instrumento de definição do humano. Toda tecnologia impõe, por oposição ou exclusão, uma delimitação da humanidade.

    Na Grécia antiga, a resistência à tecnologia (ao artifício) servia à preservação do homem representado pelo cidadão livre, com habilidade intelectual de agir, humanidade da qual o escravo estava excluído. O artifício (a máquina) ameaçava essa ideia demasiado restrita de humanidade (e a hierarquia social correspondente) com a desmesura potencial de um instrumento (sem agência, como o escravo) que a ultrapassava.

    Na Idade Média, a ameaça passa a ser associada pela Igreja ao demônio. A tecnologia é a medida da soberba diante da natureza criada por Deus.

    As coisas se invertem no capitalismo, quando o poder incorpora a tecnologia e a resistência passa a ecoar o grito dos excluídos. O caso mais conhecido e caricaturizado é o dos luditas quebrando teares em protesto à mecanização do trabalho na Inglaterra do início do século 19, o que lhes vale até hoje, graças à nossa crença inabalável no progresso da humanidade, a pecha de fóbicos e irracionais. Crença, aliás, que passou incólume até mesmo pelo uso que o colonialismo fez da tecnologia como instrumento de dominação e de uma nova definição do homem, detentor da máquina, em oposição aos "selvagens".

    Entre as diversas formas de resistência à tecnologia analisadas por Dekeyser, a "retirada", característica das comunidades alternativas que se formaram no século 20 à margem da sociedade moderna ocidental e em desafio a ela, ganha um sentido desesperado e escatológico como êxodo de um mundo fundado no controle e na abolição do acaso, onde a resistência é cada vez menos concebível.

    Nascida durante a Segunda Guerra Mundial , do esforço de defesa antiaérea voltado à criação de um sistema de previsão das trajetórias de bombas, a cibernética, em uma de suas vertentes pelo menos, tomou em seguida a via do controle do futuro.

    Com a desculpa da previsibilidade como antídoto à entropia e ao caos, afastamos a possibilidade do desconhecido e do acaso. Contra o futuro, a reprodução do presente e do passado como esquema de segurança. É o princípio do algoritmo: a previsibilidade contra a ideia de ruptura, a tradição convertida em reprodução.

    Com o estreitamento das possibilidades de futuro e o prazer convertido em tática de controle, como é possível combater aquilo que nos satisfaz, miragem de um espelho do qual dependemos como confirmação, repetição e vício?

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/bernardo-carvalho/2026/08/o-que-falta-para-levar-a-serio-os-riscos-da-inteligencia-artificial.shtml.

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