O que falta para a AfD formar um governo na Saxônia-Anhalt, na Alemanha
A vitória acachapante do partido Alternativa para a Alemanha (AfD) na Saxônia-Anhalt dá início a um tenso jogo de quebra-cabeças para formar um governo no estado do Leste alemão. Em jogo, está a possibilidade de a extrema direita chegar ao poder pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial , no que seria um marco político simbólico para o país. Leia mais (09/07/2026 - 18h13)

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A vitória acachapante do partido Alternativa para a Alemanha (AfD) na Saxônia-Anhalt dá início a um tenso jogo de quebra-cabeças para formar um governo no estado do Leste alemão. Em jogo, está a possibilidade de a extrema direita chegar ao poder pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial , no que seria um marco político simbólico para o país.

Na Alemanha, a formação de governos estaduais também é parlamentarista. Um partido que obter mais da metade dos assentos na Assembleia Legislativa conquista o posto de governador do estado. Como nenhum dos partidos obteve a maioria necessária na eleição de domingo (6), eles terão que costurar alianças. As legendas podem se unir em coalizões para governar juntas em maioria ou, ainda, angariar apoio de outras para liderar um governo minoritário.
Com 43,8% dos votos depositados (39 dos 83 assentos parlamentares), a AfD já anunciou que vai se mover a partir desta semana para tentar obter uma coalizão majoritária. Até a noite da eleição, entretanto, a posição do partido era outra, negando que recorreria aos adversários.
"Faremos propostas de diálogo a todos os partidos. Aí veremos quem rejeita nossa mão estendida", disse na manhã desta segunda-feira o copresidente da legenda, Tino Chrupalla, à emissora pública ARD.

Isso exigiria da AfD, na prática, ultrapassar o chamado "cordão sanitário", um compromisso das outras forças políticas de não cooperar com a extrema direita e, assim, mantê-la longe do poder.
Ao longo da campanha, todos os partidos descartaram uma coalizão com a AfD. A ampla vitória da extrema direita, ao mesmo tempo, torna o pacto frágil: a aliança com um só partido já lhe permitiria liderar um governo de coalizão. Ou seja, uma única mudança de posição partidária em favor da AfD seria o suficiente para virar o jogo.
A AfD nunca liderou um governo estadual, e, na Saxônia-Anhalt, o seu diretório é considerado uma "organização extremista de direita " por autoridades de inteligência.

Nesta segunda-feira (7), Chrupalla apelou ao partido conservador União Democrata Cristã (CDU), que, ao que tudo indica, será o primeiro foco dos esforços da AfD. "Acho que a CDU precisa fazer uma autoavaliação e refletir sobre quais consequências tirará deste resultado eleitoral desastroso," acrescentou.
A CDU, até agora no governo do estado, foi a grande derrotada da noite. Ficou em segundo lugar, mas com só 17,2% dos votos (15 assentos), o que equivale a uma queda de 19,9 pontos percentuais em relação ao pleito de 2021. Em contrapartida, a AfD registrou salto de 23 pontos.
Um novo fator que poderá ser decisivo na equação é a ascensão, ainda que comedida, da Aliança por Justiça Social e Racionalidade Econômica (BSW), uma legenda populista de esquerda e "antiwoke". Congregada pela ex-comunista Sahra Wagenknecht, que debandou em 2023 do A Esquerda, ela divide com a AfD discursos restritivos para a política de imigração e em favor da Rússia.
O partido obteve 5,3% dos votos (5 assentos) na sua primeira eleição estadual na Saxônia-Anhalt. Isto é, atingiu por pouco a barreira dos 5% necessários para entrar no Parlamento.
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Durante a campanha eleitoral, a BSW já tinha indicado que poderia viabilizar um governo liberado pela AfD. Nesta segunda-feira, o partido confirmou que não pretende bloquear a extrema direita na votação que definirá o novo governador, pedindo por um "novo começo político".
Agora, resta saber se a legenda poderia formar uma coalizão com a extrema direita ou, ao menos, apoiar um governo minoritário da AfD. Juntas, AfD e BSW obtiveram 44 assentos.
Paralelamente, a AfD incita deputados eleitos a não seguirem a orientação das próprias legendas para a votação. A debandada poderia, assim, quebrar o "cordão sanitário" por dentro, a despeito das posições adotadas oficialmente pelos partidos.
O obstáculo neste cenário não seria exatamente alto: a legenda precisa conquistar só três parlamentares para obter os 42 apoios necessários para eleger o governador.
Segundo o candidato a governador na Saxônia-Anhalt pela AfD, Ulrich Siegmund, as conversas já estão em andamento com grupos parlamentares e deputados individualmente. Ele chamou esta de uma "tarefa histórica".
Na contramão, para ter alguma esperança de fazer frente à AfD, todos os outros partidos que entraram no Parlamento precisariam formar uma mega aliança. O cenário mais provável seria, neste caso, uma tentativa de coalizão entre CDU, o Partido Social-Democrata (SPD) e os Verdes, que obtiveram juntos 31 assentos.
Caberia, então, ao A Esquerda apoiar este governo tripartidário, que alcançaria assim também 39 votos. A CDU já rejeitou categoricamente incluir na coalizão o partido, que, por sua vez, se mostra aberto a negociar o seu suporte.
Em última instância, quando duas rodadas de votação na Assembleia Legislativa não resultam na maioria absoluta para a eleição de um governador, os deputados estaduais devem decidir, então, se querem dissolver o Parlamento. Para isso também são necessários 42 votos a favor. Em caso positivo, são convocadas novas eleições .
Do contrário, acontece uma terceira votação, com condições facilitadas para quebrar o impasse. O indicado a governador que obtiver uma maioria simples dos votos válidos (desconsideradas abstenções e, portanto, independentemente de obter 42 assentos da Assembleia) é eleito e pode formar um governo de minoria.
Na ausência da mega aliança contra a AfD, o fiel da balança seria mais uma vez a BSW. Já se sabe que o partido cogita a abstenção, numa manobra que abriria o caminho à extrema direita. Assim, os 39 votos da legenda configurariam, necessariamente, maioria simples.
Mas, caso se concretize a coalizão entre CDU, SPD e Verdes (com apoio do A Esquerda), as duas possíveis formações ficariam com a mesma contagem de votos, o que agravaria o quebra-cabeça político.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/09/o-que-falta-para-a-afd-formar-um-governo-na-saxonia-anhalt-na-alemanha.shtml.

Ulrich Siegmund (à esq.), principal candidato do partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD) na eleição estadual da Saxônia-Anhalt, e os copresidentes federais de seu partido, Tino Chrupalla (centro) e Alice Weidel (à dir.) — Foto: Folha de S.Paulo
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