O que explica onda de terremotos e catástrofes climáticas na América Latina
Tremor de magnitude 7,6 no Panamá aumenta alerta sobre riscos naturais na região, marcada pelo encontro de placas tectônicas

A América Latina voltou a registrar um fenômeno natural de grande intensidade nessa sexta-feira (9/10), quando um terremoto de magnitude 7,6 atingiu o Panamá , provocou evacuações, danos a estruturas e alertas de tsunami em áreas costeiras. O episódio chama a atenção para os riscos geológicos da região, que também enfrenta secas prolongadas, enchentes, ondas de calor e tempestades severas.
Também nessa sexta-feira, o Chile decretou estado de calamidade por conta de fortes chuvas que causaram deslizamentos e enxurradas nas regiões de Las Condes e Santiago.
Apesar de ocorrerem no mesmo continente, terremotos e catástrofes climáticas têm causas distintas. Enquanto os abalos sísmicos estão relacionados principalmente à movimentação das placas tectônicas, os eventos climáticos extremos são associados a processos atmosféricos e oceânicos, que podem ser intensificados pelas mudanças climáticas.

Para o sismólogo da Universidade de São Paulo (USP) José Alexandre Nogueira, a localização geográfica ajuda a explicar a ocorrência de terremotos na região. A costa do Pacífico das Américas Central e do Sul está em uma área de intensa atividade tectônica, onde diferentes placas interagem e acumulam tensões que podem ser liberadas na forma de tremores.
“A costa do Oceano Pacífico nas Américas do Sul e Central está localizada em uma região de intensa atividade tectônica, onde diferentes placas interagem constantemente, colidindo, afastando-se ou movendo-se lateralmente umas em relação às outras. Esses movimentos acumulam tensões nas rochas, que podem ser liberadas na forma de terremotos”, explica o especialista.
No Panamá, essa dinâmica envolve as placas do Caribe, de Cocos, de Nazca e Sul-Americana, além de uma possível microplaca do Panamá, cuja existência ainda é debatida.

Apesar da percepção de que os tremores estão mais frequentes, não há evidências marcantes de aumento da atividade sísmica na região, segundo o sismólogo do Observatório Nacional Diogo Coelho . Para ele, a ampliação do monitoramento ajuda a explicar por que esses fenômenos são detectados e divulgados com mais frequência.
“Agora, com mais estações sismográficas na América Latina transmitindo dados em tempo real, como faz a Rede Sismográfica Brasileira (RSBR), conseguimos detectar e divulgar os eventos sísmicos regionais. Por isso, existe a impressão de uma sismicidade alta na região”, explica.
Também é difícil estabelecer uma relação concreta entre o terremoto no Panamá e outros abalos registrados recentemente em diferentes regiões. Segundo Coelho, os mecanismos que provocam os tremores podem ser bastante distintos, e o conhecimento e a instrumentação disponíveis ainda não permitem mapear completamente as forças geológicas em atuação.

“Além disso, não temos o controle de todos os parâmetros físicos em subsuperfície para mapear todas as forças geológicas atuando e como o meio responde a esses esforços geológicos”, afirma.
Parte da explicação está no chamado Círculo de Fogo do Pacífico, uma extensa faixa ao redor do oceano marcada pela intensa atividade sísmica e vulcânica. Países como Chile , Peru, Equador, Venezuela, Colômbia e México estão expostos a esse tipo de fenômeno. A América Central e parte do Caribe também apresentam áreas de intensa movimentação tectônica.
Apesar da ocorrência de tremores de grande magnitude em diferentes países, Nogueira afirma que não há evidências de um aumento generalizado da atividade sísmica na América Latina . Segundo ele, a impressão de que os terremotos estão mais frequentes pode estar relacionada à ampliação das redes de monitoramento e à rapidez na divulgação das notícias.

“Esses eventos sempre foram comuns devido à alta atividade sísmica na região. A impressão de que estão mais frequentes pode estar relacionada à maior cobertura das redes sismográficas e à rapidez na divulgação de notícias”, afirmou.
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Não há evidências de que as mudanças climáticas sejam responsáveis pelo aumento generalizado de terremotos de grande magnitude. Os abalos são provocados principalmente pela liberação de tensões acumuladas nas rochas, em decorrência da dinâmica interna da Terra.
Já enchentes, secas e ondas de calor estão relacionadas a processos atmosféricos e oceânicos. Embora determinadas mudanças ambientais possam influenciar falhas geológicas em circunstâncias específicas, isso não permite atribuir automaticamente um terremoto ao aquecimento global.

Nogueira também ressalta que terremotos registrados em diferentes países não estão necessariamente relacionados entre si. “Os últimos terremotos que tivemos ocorreram em sistemas tectônicos distintos e não possuem relação entre si”, explica.
Assim, a ocorrência de um tremor no Panamá enquanto outros países enfrentam eventos climáticos extremos não comprova que os fenômenos façam parte de uma única onda de desastres.

Publicado originalmente por Metrópoles. Leia a matéria completa em https://www.metropoles.com/mundo/o-que-explica-onda-de-terremotos-e-catastrofes-climaticas-na-america-latina.

Otavio Augusto - Arte Metrópoles — Foto: Metrópoles
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