O que é a CNBB, entidade católica criticada por Flávio Bolsonaro
Leia mais (09/28/2026 - 14h07)

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No início dos anos 1950, o padre italiano Giovanni Maria Montini (1897-1978) - que ainda não era nem bispo nem cardeal, mas já trabalhava na Cúria Romana -passou a incentivar que os bispos de cada país se organizassem em entidades, a fim de discutirem os problemas locais e, juntos, pudessem traçar programas de ações pastorais.

Organizações assim também teriam um papel facilitador: por meio dela, ficaria mais fácil a comunicação das comunidades católicas com a cúpula do Vaticano.
Em janeiro de 1952 seria criada a Conferência Episcopal Italiana. O modelo se espalharia pelo mundo. Em outubro daquele mesmo ano, foi fundado no Rio de Janeiro, então capital federal, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
A instituição foi criticada por Flávio Bolsonaro ( PL ), candidato à Presidência da República. O senador disse que a CNBB tem envolvimento nos posts que circulam nas redes sociais dizendo que ele retiraria o papel de Nossa Senhora Aparecida de padroeira do Brasil.

"O PT já estava há alguns dias tentando levantar essa fake news , conseguiu com ajuda de gente dentro da CNBB. Infelizmente", afirmou Flávio em visita a Aracajú neste domingo (28/09), segundo o portal G1.
Em 1977, a sede da conferência foi transferida para Brasília . Quando Montini se tornou papa Paulo 6º em 1963, entidades do tipo já eram praxe e a CNBB foi uma das vozes mais ativas e participativas no Concílio Vaticano 2º, a série de encontros realizados entre 1962 e 1965 em Roma com o intuito de modernizar a Igreja Católica, trazendo para a pauta questões sociais contemporâneas.
Pesquisador na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), o teólogo Raylson Araujo conta que esse formato de colegiado "ganharam muita força e foram incentivadas principalmente como desdobramento do Concílio Vaticano 2º".

"O papa Paulo 6º entendia que era uma maneira de a Igreja realizar melhor sua missão", afirma o teólogo.
Segundo o Código de Direito Canônico, catatau jurídico que rege a instituição católica, o papel de tais conferências é fazer com que os bispos exerçam "conjuntamente certas funções pastorais em favor dos fiéis do seu território, a fim de promover o maior bem que a Igreja proporciona aos homens, principalmente em formas e modalidades de apostolado devidamente adaptadas às circunstâncias de tempo e lugar, de acordo com o direito".
"A CNBB é um órgão de suma importância para a eficácia da ação evangelizadora da Igreja e também de uma ação pastoral que seja transformadora", diz o religioso Pedro Luiz Stringhini, bispo de Mogi das Cruzes.

"Não tem poder hierárquico, mas é muito mais do que uma estrutura simbólica", explica Stringhini.
"Com sua sede próxima às estruturas do governo federal, é mais do que um poder, é um serviço de comunhão e unidade que subsidia as igrejas particulares."
"A CNBB é a expressão do magistério e autoridade dos bispos, em suas funções de pastores a eles confiada, vivida em colegialidade, e expressa o magistério da Igreja na realidade brasileira", explica o frade capuchinho Marcelo Toyasnk Guimarães, assessor da Comissão Justiça e Paz da CNBB Sul 1 e coordenador nacional da Pastoral da Moradia e Favela no Brasil.

"É a legítima voz da Igreja a partir dos bispos, pastores que acompanham e caminham com o povo de Deus nas respectivas dioceses, em vista de dinamizar a missão evangelizadora da Igreja no Brasil para melhor promover a vida eclesial e responder de modo mais eficaz aos desafios atuais."
Guimarães explica que não é um papel hierárquico no sentido vertical, mas um colegiado de pares.
"Nesse sentido, [a entidade] não tem ingerência 'direta' no pastoreio, mas respeito às decisões e conduções de cada bispo junto ao povo de Deus, na dinâmica cada vez mais sinodal, de discernimento e decisões em conjunto entre o respectivo bispo e o povo da diocese. A CNBB visa a ser espaço da comunhão e apoio desse pastoreio, discernindo e buscando expressar, em colegialidade, o cuidado pastoral de modo integrado diante de urgências e questões interligadas a nível de região e de Brasil."

Todos os bispos do país automaticamente passam a integrar o quadro da CNBB. Segundo informações da própria entidade, são quase 500 os bispos brasileiros atualmente - 318 na ativa e o restante, emérito, ou seja, aposentado das funções por conta da idade.
Ex-coordenador do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP, o sociólogo Francisco Borba Ribeiro Neto lembra que o papa Francisco foi um grande incentivador das conferências e "papa Leão 14 parece seguir a mesma linha".
Um dos maiores entusiastas de sua fundação foi o religioso franciscano Hélder Câmara (1909-1999). Na época ele era bispo auxiliar do Rio de Janeiro, mas se tornaria conhecido nacionalmente sobretudo durante a ditadura militar, por sua defesa dos direitos humanos e críticas ao regime - Câmara já era então arcebispo de Olinda e Recife.

Texto institucional do colegiado cita Câmara como "idealizador". Segundo as palavras da própria organização, a função dela é congregar os bispos para que "conjuntamente" eles possam exercer "funções pastorais em favor de seus fiéis" e procurem "dinamizar a própria missão evangelizadora, para melhor promover a vida eclesial, responder mais eficazmente aos desafios contemporâneos [...] e realizar evangelicamente seu serviço de amor, na edificação de uam sociedade justa, fraterna e solidária [...]."
Para muitos, a CNBB tem o DNA do pensamento de Câmara, criticado por muitos conservadores por seu ativismo não violento de defesa dos pobres - chamado por detratores de "padre comunista" e "bispo vermelho". Câmara nunca presidiu a entidade, mas foi o primeiro secretário-geral.
Câmara, que não era comunista mas defensor da chamada Doutrina Social da Igreja - e da ideia de que o cristianismo precisa estar ao lado dos pobres, costuma.

"Quando dou comida aos pobres, chamam-me de santo. Quando pergunto por que são pobres, chamam-me de comunista", são os dizeres que ficaram célebres.
O bispo Stringhini enfatiza que o colegiado tem "uma dimensão social muito forte, sobretudo de atenção para com os mais pobres".
Mas se historicamente a CNBB costuma ser tachada de um organismo com viés político mais alinhado às pautas da esquerda, é importante lembrar que o seu reconhecimento oficial, por lei federal, como entidade de utilidade pública veio durante a ditadura. Em 11 de abril de 1967, quando exercia a presidência o então vice Pedro Aleixo (1901-1975) publicou o decreto.

Além de ter sido uma das vozes mais eloquentes da Igreja contra os abusos do regime militar brasileiro, a CNBB em geral não se furta de posicionamentos políticos e sociais.
Uma das ações organizadas pelo colegiado desde os anos 1960, a Campanha da Fraternidade, insere na pauta nacional temas importantes a partir da base, uma vez que esses assuntos são debatidos e apresentados, de forma simples e didática, a leigos que fazem parte de comunidades católicas em todos os rincões do país.
Entre os temas já trazidos pela campanha estão a violência contra populações LGBTQIA+ (em 2021), os encarcerados (em 1997), a discriminação racial (1988), o tráfico humano (2014) e o desemprego (1999).

O projeto, com essa ênfase em abordar assuntos espinhosos na premissa de mobilizar comunidades de base e paróquias em todo o Brasil, com frequência é criticado por setores políticos conservadores.
"A Campanha da Fraternidade da Igreja Católica é sempre um momento em que você vislumbra muito claramente quais são as posições da Igreja. Ali ela toca em temas que geralmente esbarram no social", observa o historiador e teólogo Gerson Leite de Moraes, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie.
"Aponta a preocupação da Igreja Católica. E isso é também um recado ao governante de plantão."

Não à toa, lembra Moraes, sua sede fica em Brasília. "Isso mostra que ela está no coração do poder e antenada com as necessidades nacionais", diz Moraes.
"Sua ação por vezes é criticada porque supostamente estaria fazendo política. Mas uma coisa não se desvincula da outra. É uma atuação contundente o papel de atuação da Igreja", avalia Moraes.
Segundo Ribeiro Neto, essa ênfase aos problemas sociais é natural em um órgão assim que está na América Latina, por conta das desigualdades sociais que existem. "Num dos países mais desiguais do mundo, onde grande parte da elite política e econômica se declara católica, mas com poucas polêmicas doutrinais, a CNBB historicamente se tornou principalmente uma voz importante sobre os problemas sociopolíticos do país", analisa ele.

"Isso a coloca no centro dos debates ideológicos e partidários do Brasil e representa, sem dúvida, o seu grande desafio. Manter uma posição equidistante dos polos ideológicos sem omitir-se de um juízo ético diante dos descalabros do país é muito difícil", argumenta Ribeiro Neto.
Em texto oficial, a CNBB explica que "favorece e articula as relações entre as igrejas particulares do Brasil e a Santa Sé", e se relaciona "com as outras conferências episcopais, particularmente as da América, e com o Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam)".
"É uma ponte de diálogo com Roma", sintetiza Araujo.
O presidente da entidade é escolhido por eleição interna a cada quatro anos. Atualmente, o posto é ocupado por Jaime Spengler, arcebispo de Porto Alegre - seu mandato vai até 2027.
Cardeal desde 2024, ele foi um dos sete brasileiros que participaram do conclave que fez do americano Robert Prevost o papa Leão 14.
Poucos dias antes do conclave, em entrevista exclusiva à BBC, Spengler reconheceu que a entidade que preside tem um peso enorme, por ser "a maior conferência [episcopal] do mundo", com "490 bispos" e "certamente um lugar de destaque no contexto da catolicidade".
Spengler acumula a presidência da CNBB com a presidência do Celam.
Professor na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, e diretor da instituição Lay Centre, também na capital italiana, o vaticanista Filipe Domingues explica que o poder da CNBB é de representação.
"Não tem poder de jurisdição ou de tomada de decisões. Tem o poder de reunir os bispos e ser um ambiente de troca, de diálogo", comenta.
"Como o Brasil é muito grande e tem a maior conferência episcopal do mundo, é uma forma de os bispos terem contato maior com os pares e uma relação mais próxima com as realidades locais e os problemas que enfrentam, as soluções e propostas pastorais e culturais de cada lugar", complementa Domingues.
"Tem um poder de influência e de representação", afirma o vaticanista. "A CNBB representa a Igreja no Brasil, mas eles [os bispos] não são a Igreja. Eles falam em nome da Igreja. Mas a Igreja é muito mais: a maior parte da Igreja são os fiéis leigos."
"Não são instâncias acima dos bispos", esclarece Ribeiro Neto. "Cada bispo governa sua diocese com autoridade própria e imediata, e a conferência não pode substituí-lo. Suas declarações doutrinais só têm valor magisterial se aprovadas por ao menos dois terços dos membros, se contando depois com o reconhecimento da Santa Sé."
"Neste sentido, não tem praticamente nenhum poder institucional ou mesmo simbólico. Seu poder é mais de ordem moral, uma vez que suas indicações partem supostamente da maioria do episcopado e cada bispo individualmente tende a segui-as em espírito de unidade, mesmo que não concorde inteiramente", acrescenta o sociólogo.
"Mas existe sempre uma tensão interna na Igreja, pois os grupos descontentes com a linha seguida por dada conferência episcopal tendem a relativizar sua importância."
O vaticanista Domingues ainda acrescenta que o colegiado tem a "função de interpretar um pouco a realidade e tentar iluminar a realidade à luz do evangelho". É por isso que a CNBB costuma se posicionar em momentos importantes da história do país e também debater problemas nacionais.
"A CNBB faz com que a própria Igreja pense, repense e reflita sobre sua ação em solo brasileiro", define o historiador Moraes.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/09/o-que-e-a-cnbb-entidade-catolica-criticada-por-flavio-bolsonaro.shtml.

Papa Francisco e Jaime Spengler (à direita na foto) lembra que papa Francisco dizia que estamos vivendo uma terceira guerra mundial aos pedaços - Divulgação · Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo
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