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    O que Davide Ancelotti tem a ensinar sobre a Inteligência do Brasil?

    O PL nº 6.423/2025 moderniza as regras da Inteligência de Estado e busca ampliar capacidades sem renunciar a limites e controle

    Metrópoles
    27 de agosto de 2026 às 03:15
    O que Davide Ancelotti tem a ensinar sobre a Inteligência do Brasil?
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    Você conhece a Agência Brasileira de Inteligência, a Abin? Sabe o que ela realmente faz? Me acompanha que eu vou te explicar.

    A Abin tem uma função de Estado discreta, silenciosa, permanente e essencial. É por isso mesmo que fica distante do nosso dia a dia.

    Mas, imagine, por um instante, que a Inteligência de Estado seja uma equipe de futebol. Você conhece Carlo Ancelotti. Já ouviu falar de seus títulos, de sua experiência e de sua capacidade de decidir nos momentos difíceis. Mas, talvez não conheça Davide Ancelotti, seu filho e ex-auxiliar técnico, que trabalhava nos bastidores da comissão técnica.

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    Enquanto Carlo estava à beira do campo tomando decisões diante do que acontecia no jogo, Davide observava, analisava informações, identificava padrões, avaliava cenários e ajudava a construir as alternativas que chegavam até o comandante.

    Analisava a dinâmica do jogo. Estudava os jogadores. Entendia o que ninguém estava prestando atenção. Seu trabalho era outro: enxergar o jogo por um ângulo diferente e oferecer ao comandante elementos para decidir melhor.

    Guardadas as proporções, é uma boa forma de entender a Inteligência de Estado.

    O que Davide Ancelotti tem a ensinar sobre a Inteligência do Brasil?
    O que Davide Ancelotti tem a ensinar sobre a Inteligência do Brasil? — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    E isso não é apenas teoria. Em agosto de 2026, uma informação identificada pela Abin e repassada ao Ministério da Justiça deu origem à Operação Rede Interrompida, da Polícia Civil do Distrito Federal, que investigou um grupo suspeito de planejar atentados em Brasília, com o Palácio do Planalto entre os alvos. A Abin atuou de forma decisiva para o sucesso dessa operação.

    Meses antes, em dezembro de 2025, a mesma Abin já apontava a interferência externa como um dos riscos para as eleições de 2026.

    A Inteligência não governa. Não investiga crimes. Não substitui a polícia. Não decide pelo Presidente da República. A Inteligência produz conhecimento para que autoridades antecipem ameaças, identifiquem vulnerabilidades e tomem decisões estratégicas com mais segurança.

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    É justamente aí que mora o problema brasileiro.

    O Brasil ainda opera com uma legislação de Inteligência concebida em 1999. Quando a internet engatinhava, as ameaças cibernéticas estavam longe da dimensão atual e a inteligência artificial nem existia no cotidiano. O mundo mudou. A lei não acompanhou.

    É nesse contexto que o Projeto de Lei nº 6.423/2025 ganha importância. Elaborado pela Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência (CCAI), o projeto busca modernizar as regras da Inteligência de Estado brasileira, fortalecer suas capacidades e, ao mesmo tempo, estabelecer limites mais claros para sua atuação.

    O ponto é fundamental: o projeto define melhor o que ela pode fazer, o que não pode fazer e como deve ser controlada.

    Uma das mudanças mais relevantes é deixar inequívoca a separação entre Inteligência de Estado e investigação policial. A inteligência pode apontar caminhos, mas seu produto não pode ser “esquentado” e apresentado como prova criminal. A prova precisa ser produzida pelos meios legais próprios da investigação penal. A proposta cria controles judiciais, salvaguardas e fiscalização do Ministério Público.

    Isso deveria interessar a qualquer pessoa que se preocupa com a democracia.

    Uma democracia não precisa escolher entre Inteligência forte e controle. Uma Inteligência forte e eficaz funciona justamente porque existe controle.

    É natural que uma atividade que lida com informações sensíveis desperte desconfiança. Mas, quanto maior o risco de abuso, mais necessário é ter regras claras, limites objetivos e mecanismos de fiscalização — exatamente o que falta hoje.

    Manter a Inteligência numa zona de conceitos vagos e regras antigas não protege a sociedade de desvios. Pode significar o contrário.

    O debate sobre o PL 6.423/2025 não deveria ser tratado como uma disputa entre quem é “a favor” ou “contra” a Inteligência. A pergunta certa é outra: que Inteligência o Brasil quer ter e quais regras devem orientar sua atuação?

    O projeto está em tramitação no Senado, já recebeu propostas de emendas e segue em discussão sob relatoria do senador Nelsinho Trad. Aperfeiçoar uma proposta dessa dimensão é parte natural do processo democrático.

    O que não parece razoável é adiar indefinidamente a atualização de uma legislação de quase três décadas enquanto o ambiente estratégico ao redor do Brasil muda em velocidade cada vez maior.

    Conflitos armados, disputas geopolíticas, crises climáticas, ameaças cibernéticas, o avanço da inteligência artificial e mudanças na segurança regional exigem capacidade de antecipação e autonomia decisória.

    Um país que quer defender sua soberania precisa saber o que se passa ao seu redor antes que os fatos cheguem à sua porta.

    No futebol, ninguém espera o adversário finalizar para começar a pensar em como se defender. Na política de Estado, deveria ser igual.

    A Inteligência é uma linha de defesa invisível. Não está sob os holofotes. Muitas vezes, nem é percebida quando funciona bem. Mas, como o auxiliar que observa o jogo enquanto o técnico decide, seu trabalho pode ser a diferença entre reagir aos fatos e estar pronto para eles.

    O Brasil precisa de uma Inteligência de Estado à altura de sua soberania, de sua democracia e de suas responsabilidades no mundo.

    O PL 6.423/2025 é um passo importante nessa direção. Por isso, o debate precisa avançar com transparência, disposição para aperfeiçoar o texto e a coragem de reconhecer que um país que quer decidir seu próprio futuro precisa antes enxergar o que vem pela frente.

    Publicado originalmente por Metrópoles. Leia a matéria completa em https://www.metropoles.com/conteudo-especial/davide-ancelotti-inteligencia-do-brasil.

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