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    O professor que causa furor entre os adolescentes chineses (e a razão do seu sucesso)

    Os jovens chineses têm um novo ídolo, mas não se trata de um cantor pop, nem de um astro do cinema. Estamos falando do professor e antropólogo Biao Xiang , de 54 anos. Leia mais (10/07/2026 - 10h48)

    Folha de S.Paulo
    7 de outubro de 2026 às 13:48
    O professor que causa furor entre os adolescentes chineses (e a razão do seu sucesso)
    Homem asiático veste terno cinza e camisa vermelha, sentado em poltrona branca, falando ao microfone diante de cortina vermelha. — Foto: Folha de S.Paulo

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    Os jovens chineses têm um novo ídolo, mas não se trata de um cantor pop, nem de um astro do cinema. Estamos falando do professor e antropólogo Biao Xiang , de 54 anos.

    Biao Xiang fala para cerca de 500 estudantes em Singapura - BBC · BBC
    Biao Xiang fala para cerca de 500 estudantes em Singapura - BBC · BBC — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Ele passou a ser o guia inesperado de uma geração cada vez mais desiludida , graças aos temas que ele aborda: a ansiedade e como combatê-la.

    "Uma estrela enviada do céu", descreve Zihan Han, sobre o homem que ela passou a admirar recentemente.

    A economia e a tecnologia da China cresceram a um ritmo vertiginoso. Mas existem muitos motivos de preocupação entre os jovens da geração Z (nascidos entre 1996 e 2012). Eles incluem o emprego, as perspectivas de relacionamento amoroso e a imensa pressão para se manterem atualizados.

    Biao Xiang dando autógrafos a jovens fãs - BBC · BBC
    Biao Xiang dando autógrafos a jovens fãs - BBC · BBC — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "A transição da escola para o mundo real gera muitas incertezas, e as pessoas costumam se sentir ansiosas porque não sabem como enfrentá-las", segundo uma jovem chinesa recém-formada de 23 anos. Ela preferiu não revelar seu nome por receio de que conversar com a imprensa internacional pudesse prejudicar suas possibilidades de encontrar trabalho na China.

    "As pessoas precisam de um ponto de apoio na sua vida. E suas palavras nos fazem sentir que existe alguém que nos entende."

    Ela e Zihan faziam parte de um grupo de cerca de 500 pessoas que se reuniram recentemente em um auditório em Singapura. A maior parte do grupo era composta por chineses que moram no exterior.

    Ensino técnico atrai jovens para a escolha da carreira profissional e a entrada no mercado de trabalho
    Ensino técnico atrai jovens para a escolha da carreira profissional e a entrada no mercado de trabalho — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Xiang falou por mais de uma hora e respondeu perguntas em seguida. Ao final, dezenas de pessoas fizeram fila para conhecê-lo e tirar fotos com ele.

    O professor descreveu o evento como um "encontro acadêmico com admiradores".

    Importantes órgãos de imprensa chineses já entrevistaram Xiang, que viajou para universidades chinesas de prestígio para dar palestras. Uma delas foi a sua alma mater, a conceituada Universidade de Pequim.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Uma de suas palestras, no início do ano, foi transmitida ao vivo porque o auditório estava lotado. A expressão "em caso de dúvida, pergunte para Biao Xiang" se tornou um ditado popular, segundo a imprensa chinesa.

    Em Singapura, Xiang falou sobre o reconhecimento que buscam os jovens na China atual. Eles recorrem com frequência a sistemas de aprovação, como exames competitivos e empregos seguros.

    Ele também comentou como essa aprovação se transforma em uma medida de autoestima, o que pode ser cansativo e prejudicial.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O antropólogo indicou que é mais saudável procurar significado e compreensão nos demais e utilizar isso para entender melhor a nós mesmos.

    Estas soluções dificilmente são rápidas. Mas, em um país onde o descontentamento pode ser algo politicamente delicado e objeto de forte censura, Xiang é uma figura pública excepcional, que aborda o que ele chama de "ponto crítico de toda uma época".

    "Todos sabem onde está o problema, mas se recusam a enfrentá-lo", comenta ele durante um chá com a BBC em Singapura. "Às vezes, observá-lo é doloroso demais, ou eles não sabem como fazer."

    logo do produto folha de redação
    logo do produto folha de redação — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "Mas, como acadêmico, não é aterrador se você puder descrever o problema. É assim que se analisa e administra."

    Xiang mora atualmente na Alemanha, onde dirige o Instituto Max Planck de Antropologia Social. Ele estuda as mudanças sociais na China e em outras partes da Ásia .

    O professor acredita que a sociedade chinesa se encontra em um momento decisivo. As pessoas estão buscando sentido na vida, enquanto tentam compreender as rápidas mudanças sociais e econômicas.

    Neste processo, Xiang observa contradições, como uma juventude insegura em um país poderoso e decidido; e desilusão, apesar dos enormes avanços. Seu trabalho, segundo ele próprio, consiste em desvendar as causas desta situação.

    O presidente chinês, Xi Jinping , também reconheceu a situação. Ele afirmou que "a principal contradição" está "entre as crescentes necessidades do povo para uma vida melhor e o desenvolvimento desequilibrado e insuficiente".

    Xiang usa nomes criativos para descrever as causas desta situação.

    "Flutuando" é a forma como ele descreve as pessoas que trabalham sem descanso, apenas para sobreviver, como um beija-flor que bate suas asas incessantemente para se manter no ar.

    "O próximo" indica aquilo que está imediatamente à nossa volta. Xiang defende que as pessoas se preocupam com o "muito próximo" (elas próprias) e o "muito distante" (o mundo) e se descuidam com o espaço intermediário, "o próximo". Este é o motivo da sua sensação de desconexão.

    Suas palavras parecem estar repercutindo fortemente entre os jovens que procuram respostas.

    Um usuário da rede social chinesa RedNote escreve que "ele sempre analisa os problemas do ponto de vista dos vulneráveis, atribui o estresse pessoal a causas macro e incentiva as pessoas a participar ativamente da vida; é realmente maravilhoso".

    Outro comenta que Xiang "nunca solta frases vazias e superficiais; na verdade, ele enfrenta os dilemas da vida real junto conosco".

    Para Zihan, tudo se resume na disposição do professor de falar abertamente sobre estes temas.

    "Aqueles que disseram algo similar não são geniais como o professor Xiang, mas outras pessoas tão geniais quanto ele não disseram essas coisas."

    Nascido em 1972, Xiang atingiu a maioridade durante outro momento crucial. Na época, a China emergia do caos brutal do regime de Mao Tsé-Tung (1893-1976) para fazer comércio com o resto do mundo.

    O país se urbanizou, os cidadãos comuns se tornaram empreendedores e, pela primeira vez no país comunista, os negócios dispararam.

    Xiang cresceu na cidade de Wenzhou, no sudeste do país, que passou a ser um porto industrial. Ali, ele testemunhou diretamente o processo.

    "Era um vasto cenário de pequenos empresários", recorda ele. "A maioria das pessoas não se importava muito com a educação . Eles se concentravam em assuntos práticos - especificamente, como ganhar dinheiro."

    Muitas pessoas atingiram este objetivo. Seus filhos cresceram em uma época de ouro, com crescimento econômico de dois dígitos. Mas a economia se enfraqueceu durante a pandemia e ainda não se recuperou.

    A velha equação "trabalho duro = emprego seguro" não funciona mais e os jovens buscam um novo panorama, segundo Xiang.

    O desemprego entre os jovens chineses atingiu 21,3% , mas o governo do país deixou de publicar os dados em meados de 2023. E os jovens que têm "bons empregos" (como funcionários públicos, empregados de companhias e engenheiros) estão preocupados em perdê-los.

    Eles se queixam constantemente na internet sobre as longas e esgotadoras jornadas de trabalho, o ambiente tóxico do escritório e o receio da "maldição dos 35", a idade limite de muitos anúncios de emprego. Depois dos 35 anos, é mais difícil encontrar um novo trabalho.

    A censura dificulta conhecer o verdadeiro alcance desses sentimentos. Mas a sensação de opressão se infiltra no discurso público de outras formas.

    Esta ansiedade se transforma rapidamente em fúria nos debates online, seja sobre o vestibular para entrar na universidade, o dote matrimonial ou os escândalos de segurança alimentar.

    Os termos associados a este estado de espírito passaram a ser tendência nos últimos anos.

    Os mais famosos são "desconectar-se", quando as pessoas decidem evitar por completo o excesso de trabalho, e "involução", um termo um tanto sórdido que, agora, é comumente empregado para descrever uma concorrência forte que gera poucas recompensas.

    Xiang acredita que dois fatores exacerbaram esta ansiedade: o mercado imobiliário e o sistema de educação superior.

    O auge do setor imobiliário, impulsionado pela dependência dos governos locais da venda de terras, vinculou a sensação de segurança e sucesso das famílias ao valor das suas residências.

    Além disso, o rápido aumento das matrículas na universidade elevou os níveis de exigência acadêmica, intensificando a competição.

    O resultado, segundo ele, é uma fórmula universal: obter um bom título universitário, encontrar um trabalho estável, casar-se e comprar uma casa.

    "Quando 1,4 bilhão de pessoas concorrem na mesma carreira, surge a involução", segundo Xiang.

    Cerca de três anos atrás, o professor ficou sabendo que um acampamento para nômades digitais onde ele havia dado uma palestra aumentou os preços após sua visita. Foi ali que ele percebeu que "não era mais conhecido apenas nos círculos acadêmicos".

    Segundo Xiang, muitos dos seus colegas priorizam a publicação de pesquisas e se mostram bastante indiferentes em relação aos seus métodos. Alguns o advertiram sobre a importância de "cuidar da reputação".

    Mas ele se sente incentivado pela sua popularidade.

    "Se alguém me chama de influenciador, tomo como elogio. Porque a verdadeira influência que posso ter é a de fazer com que as pessoas pensem por si próprias."

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2026/10/o-professor-que-causa-furor-entre-os-adolescentes-chineses-e-a-razao-do-seu-sucesso.shtml.

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