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    O presidencialismo disfuncional na América Latina

    O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ( PT ) vem tendo problemas na relação com o Congresso Nacional , como a rejeição de uma indicação ao Supremo Tribunal Federal ( STF ) pela primeira vez desde o início da Nova República, em 1985. Mais do que um cenário pontual, essa relação difícil é sintoma de um padrão maior, que revela o estado atual do presidencialismo no Brasil e em outros países latino-americanos . Leia mais (08/12/2026 - 15h58)

    Folha de S.Paulo
    12 de agosto de 2026 às 18:58
    O presidencialismo disfuncional na América Latina
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    Reunião dos Presidentes dos Países da América do Sul, no Palácio do Itamaraty, em Brasília - Pedro Ladeira - 30.mai.23/Folhapress
    Reunião dos Presidentes dos Países da América do Sul, no Palácio do Itamaraty, em Brasília - Pedro Ladeira - 30.mai.23/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Professor de ciência política na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG

    Professor do Mestrado Interdisciplinar em Gestão Pública e Sociedade na Universidade Federal de Alfenas (MG)

    O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ( PT ) vem tendo problemas na relação com o Congresso Nacional , como a rejeição de uma indicação ao Supremo Tribunal Federal ( STF ) pela primeira vez desde o início da Nova República, em 1985. Mais do que um cenário pontual, essa relação difícil é sintoma de um padrão maior, que revela o estado atual do presidencialismo no Brasil e em outros países latino-americanos .

    Cronologia da crise entre governo Lula e Congresso
    Cronologia da crise entre governo Lula e Congresso — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Chamamos esse padrão de presidencialismo disfuncional , em que a negociação regular entre Executivo e Legislativo se converte de modo recorrente em barganha pela sobrevivência presidencial. Seu núcleo combina a perda de uma maioria confiável para governar com a normalização do impeachment e de manobras legais como instrumentos de barganha —mais do que como reservas institucionais para situações excepcionais.

    O segundo mandato de Dilma Rousseff (PT), abreviado pelo impeachment em 2016, foi o marco do padrão disfuncional no Brasil. As relações Executivo-Legislativo se reorganizaram em torno da vulnerabilidade da presidente, deslocando as decisões da agenda de políticas para a sobrevivência presidencial.

    Para chegar a tal cenário, Rousseff lidou com uma crise econômica e perdeu a maioria formada após sua reeleição. Setores da coalizão passaram a obstruir a agenda, enquanto Eduardo Cunha, na presidência da Câmara dos Deputados , negociava seu próprio futuro em meio à mobilização popular pela destituição.

    Quem são os líderes de direita na América do Sul
    Quem são os líderes de direita na América do Sul — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Tudo isso desfez o apoio parlamentar de que o presidencialismo de coalizão depende, deu ao impeachment um caráter político —mais do que jurídico— e converteu a sobrevivência presidencial no eixo de barganha entre Executivo e Legislativo.

    A disfuncionalidade se alimenta quando surgem espaços para adaptações que flexibilizam o presidencialismo e quando se enfraquecem os instrumentos do Executivo para gerir coalizões. Tais mudanças facilitam que o Legislativo barganhe e ameace, enquanto dificultam que o Executivo governe.

    Um exemplo claro é a aprovação das emendas impositivas ao Orçamento federal, tanto as individuais, em 2015, quanto as de bancada estadual, em 2019.

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    O padrão disfuncional voltaria a se impor nos governos seguintes. Michel Temer ( MDB ), que assumiu após o impeachment de Dilma, foi alvo de duas denúncias da Procuradoria-Geral da República (PGR), ambas rejeitadas pela Câmara. Jair Bolsonaro , eleito pelo então PSL em 2018, tentou contornar os partidos e governar com bancadas temáticas, mas foi alvo de pedidos frequentes de impeachment e acabou delegando poder à cúpula legislativa. Assim, ele pôde direcionar seus esforços em deslegitimar as demais instâncias de controle.

    Lula iniciou o terceiro mandato, em 2023, sob um cenário muito distinto dos seus governos anteriores e se viu ameaçado desde então —primeiro, pela tentativa de golpe de Bolsonaro e aliados e, depois, pela atuação de líderes do Congresso para converter prerrogativas, legislativas ou presidenciais, em instrumentos de barganha.

    Há mais casos na América Latina que ilustram o presidencialismo disfuncional, como Peru e Equador . No primeiro, instalaram-se a partir de 2016 a ausência de maioria confiável para o Executivo e a normalização da vacância, mecanismo de destituição previsto na Constituição . Em dez anos houve oito presidentes, dos quais quatro foram depostos e dois renunciaram.

    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha
    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    No Equador, em 2023, Guillermo Lasso recorreu pela primeira vez à "morte cruzada", prevista na Constituição, para abreviar seu mandato de presidente e o dos legisladores e, assim, evitar a deposição. Daniel Noboa se elegeu naquele ano, em campanha marcada pelo assassinato de um candidato, e conseguiu se reeleger em 2025, mas tem lidado com protestos indígenas e a escalada do crime organizado.

    O caso brasileiro se destaca porque foi o modelo do presidencialismo de coalizão na literatura, que mostrou presidentes formando coalizões e governando por meio de instituições sujeitas a conflito e clientelismo, mas capazes de prover governabilidade.

    O presidencialismo disfuncional substitui esse padrão por um novo, em que as ferramentas usadas para gerir coalizões perderam eficácia e passaram a servir para administrar a vulnerabilidade e sobreviver a crises. No seu terceiro mandato, Lula buscou retomar o padrão funcional, mas tem passado por muitas dificuldades nessa tentativa.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/08/o-presidencialismo-disfuncional-na-america-latina.shtml.

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    Reunião dos Presidentes dos Países da América do Sul, no Palácio do Itamaraty, em Brasília - Pedro Ladeira - 30.mai.23/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo

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