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    O patrocínio de bets via Lei Rouanet é prejudicial ao setor cultural? SIM

    Há 40 anos promovo shows e vivo da cultura . Produzi artistas, festivais e filmes. Atravessei o vinil, o VHS, o CD e o streaming; a hiperinflação, a pandemia e sucessivos ataques ao setor. Nunca vi nada ocupar o imaginário brasileiro com a velocidade das apostas online. Leia mais (09/11/2026 - 22h00)

    Folha de S.Paulo
    12 de setembro de 2026 às 01:00
    O patrocínio de bets via Lei Rouanet é prejudicial ao setor cultural? SIM
    Placa azul com texto branco informa que publicidade de bet foi removida e proíbe propaganda irregular até 10 de julho de 2026. Pessoas estão próximas à placa em área urbana com prédios e barracas ao fundo. — Foto: Folha de S.Paulo

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    Agentes da Prefeitura do Rio de Janeiro removem anúncio de bet em espaço público - Divulgação/Prefeitura do Rio
    Agentes da Prefeitura do Rio de Janeiro removem anúncio de bet em espaço público - Divulgação/Prefeitura do Rio — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Há 40 anos promovo shows e vivo da cultura . Produzi artistas, festivais e filmes. Atravessei o vinil, o VHS, o CD e o streaming; a hiperinflação, a pandemia e sucessivos ataques ao setor. Nunca vi nada ocupar o imaginário brasileiro com a velocidade das apostas online.

    Recentemente, saí de uma reunião sobre ingressos e bets em Brasília com uma convicção. O ex-presidente Michel Temer ( MDB ) não apenas deu um golpe no Brasil: ao autorizar as apostas de quota fixa , em 2018, também abriu a porta para que elas passassem a fazer parte da nossa vida.

    Suposta incompatibilidade é viés ideológico; colocar incentivo em xeque objetiva marginalizar uma indústria legalizada

    Entenda como é marketing de bets
    Entenda como é marketing de bets — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O cenário é este: as bets estão invadindo a cultura brasileira . As casas de apostas se tornaram as principais patrocinadoras dos festivais do país . Seus nomes estão nos palcos, nas áreas VIP, nas transmissões. Mas, enquanto ocupam os palcos, podem estar esvaziando as plateias: o dinheiro que antes sobrava para um cinema, um festival ou uma saída cultural hoje desaparece em dívidas e apostas.

    O custo social dessa indústria é estimado pelo Ieps (Instituto de Estudos para Políticas de Saúde) em R$ 38,8 bilhões por ano, mais do que o triplo do que elas arrecadam. E quem trabalha no setor vem observando: mesmo com oferta cultural, os shows voltados para o público de baixa renda têm dificuldade para encher suas plateias.

    Não se trata de dizer que esse dinheiro prejudica o caixa da cultura . No curto prazo, ele o engorda, e seria cínico fingir o contrário. A questão é que a cultura entrega algo muito mais valioso do que espaço ou audiência: associação, legitimidade, a capacidade de tornar algo desejável, familiar e normal. É exatamente aquilo de que uma bet mais precisa.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Já fizemos essa escolha antes. Vivi os anos em que a indústria do cigarro batizava os maiores festivais do país. Em 2000, o Congresso proibiu o patrocínio cultural pelo tabaco e a propaganda de cigarro em palcos. Ninguém perguntou se prejudicaria o setor, mas se o Estado deveria deixar uma marca nociva comprar espaço na vida das pessoas. A resposta foi não; e a música continuou existindo.

    O problema fica ainda mais grave quando esse dinheiro passa pela Lei Rouanet . Aí o incentivo deixa de financiar cultura e passa a financiar a publicidade de uma bet. E o patrocínio não termina no cheque. O artista pode ficar obrigado, por contrato, a expor a marca e a produzir conteúdo para a empresa. Deixa de ser patrocinado e vira plataforma de marketing. Falo de uma posição confortável, e é justo dizer isso. Sou presidente da Procure Saber, associação cujo conselho reúne artistas que não dependem da Rouanet para trabalhar. Quem depende dela é quem tem menos poder de escolha.

    E quem sustenta isso não é quem pode recusar. É o artista pequeno, que recebe a proposta pronta e decide entre assinar ou não estrear. Ele não escolheu a marca, mas é o nome dele que vai junto dela —e foi a vida inteira construindo esse nome.

    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha
    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Por isso, faço um apelo. Se não formos capazes de acabar com as bets no Brasil , no mínimo não podemos permitir que elas usem leis de incentivo fiscal. Não é razoável que um mecanismo criado para financiar a cultura vire ferramenta de marketing de quem já ocupa espaço excessivo na sociedade. E não é justo colocar o pequeno artista diante de uma escolha que, na prática, nem escolha é: aceitar a bet ou não trabalhar.

    Eu também mudei de posição. Defendia que era preciso regular. Hoje acho que precisamos discutir seriamente acabar com elas . Durante décadas, vivemos sem bets ocupando esse espaço, e isso ainda é possível. Não quero vê-las nos palcos, nos festivais, nos projetos culturais. Muito menos dentro de uma lei criada para financiar a cultura.

    Quarenta anos me ensinaram: a cultura encontra público sempre que o Brasil cria as condições para que ela aconteça. Não podemos entregar esse espaço às bets ; nem financiar sua propaganda com dinheiro público; nem obrigar artistas a emprestar rosto e obra para elas. A cultura não pode ser refém de um setor que lucra com o endividamento e com o vício, nem de quem trata o futuro do Brasil como um jogo de azar.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/09/o-patrocinio-de-bets-via-lei-rouanet-e-prejudicial-ao-setor-cultural-sim.shtml.

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