O passado que não passou
Em meados do século passado, Emmett Till, natural da cidade americana de Chicago, era um garoto negro de 14 anos quando foi visitar parentes no Mississippi. Sem conhecer bem a realidade segregacionista da parte sul do país, ele foi acusado de ofender uma mulher branca. O garoto foi linchado, assassinado e jogado num rio por supremacistas brancos, que foram absolvidos por um júri formado por homens brancos. Este foi um dos casos emblemáticos que fortaleceram o movimento americano pelos direitos civis na década de 1960. Leia mais (09/17/2026 - 18h53)

Doutora em economia pela FGV, é consultora de impacto social e pesquisadora de políticas públicas, avaliação e desigualdades em educação.
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Em meados do século passado, Emmett Till, natural da cidade americana de Chicago, era um garoto negro de 14 anos quando foi visitar parentes no Mississippi. Sem conhecer bem a realidade segregacionista da parte sul do país, ele foi acusado de ofender uma mulher branca. O garoto foi linchado, assassinado e jogado num rio por supremacistas brancos, que foram absolvidos por um júri formado por homens brancos. Este foi um dos casos emblemáticos que fortaleceram o movimento americano pelos direitos civis na década de 1960.
As leis americanas mudaram desde então. Crimes como esse deixaram de ser tolerados, ao menos em termos formais. Mas uma lei pode mudar mais rapidamente que a sociedade. As pessoas que consideravam razoável a violência racial continuaram vivas, tiveram descendentes, transmitiram valores e aprenderam a escondê-los.
Se estivesse vivo, Emmett Till teria hoje 85 anos. Não faz tanto tempo.

É nesse intervalo entre o que a lei passou a proibir e o que parte da sociedade continua a desejar que se deve entender a força renovada da extrema direita em diferentes partes do mundo.
Nos Estados Unidos , Donald Trump voltou à Presidência com a promessa de endurecer a política migratória e promover deportações em larga escala. Parte de seus apoiadores fechou os olhos para seu próprio histórico familiar migratório e pode ter se surpreendido com a extensão da política. Mas seria simplista dizer que todo o eleitorado foi enganado. Para muitos, a eleição de Trump representou a legitimação pública de sentimentos que antes precisavam permanecer escondidos.
No Brasil, às vésperas de uma eleição presidencial, não deveria mais surpreender que algo semelhante volte a acontecer.
Ainda estão entre nós aqueles que consideravam a ditadura militar não apenas aceitável mas desejável. O ex-presidente Jair Bolsonaro, preso por tentativa de golpe de Estado, nunca escondeu seu apreço por ambientes antidemocráticos. Para muitos, o autoritarismo era, e continua sendo, uma resposta possível aos problemas do país. Será que não lembram que, se nossa ditadura teve crescimento para alguns, foi à custa de muitos e do aprofundamento de desigualdades?
Não deveria surpreender que a candidatura do herdeiro político de Jair tenha crescido tanto, apesar das controvérsias que o cercam. Flávio Bolsonaro pode até tentar se apresentar como uma alternativa ao sistema político, mas já foi investigado por esquema de rachadinhas, por comprar apartamento milionário com dinheiro vivo, além de suspeitas de lavagem de dinheiro e envolvimento com milicianos.
Agora admitiu ter pedido milhões de reais a Daniel Vorcaro ; é o único presidenciável potencialmente envolvido no escândalo do momento. Ainda assim, segue em alta nas intenções de voto.
Quem vota em Flávio sabe que está votando em um projeto político que reivindica explicitamente a continuidade do que seu pai tentou fazer. Eles acreditam e buscam esse projeto de país.
Talvez o erro seja imaginar que direitos democráticos são permanentes porque já foram conquistados. Talvez aqueles que hoje depositam seu valioso voto em Flávio Bolsonaro não enxerguem o risco de perder o direito de votar.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/priscilla-bacalhau/2026/09/o-passado-que-nao-passou.shtml.

Processos por injúria racial crescem 600% no Brasil — Foto: Folha de S.Paulo
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