Brasil

    O paradoxo da produtividade da inteligência artificial

    Em 1987, o economista Robert Solow cunhou uma das frases mais célebres da economia moderna: "Você pode ver a era dos computadores em todo lugar, menos nas estatísticas de produtividade". A observação ficou conhecida como o Paradoxo de Solow. Leia mais (10/03/2026 - 23h00)

    Folha de S.Paulo
    4 de outubro de 2026 às 02:00
    O paradoxo da produtividade da inteligência artificial
    Ilustração mostra dois globos terrestres divididos ao meio, cada um com braços e pernas humanos. O globo da esquerda tem um nariz longo e linhas vermelhas saindo dele, conectando-se ao globo da direita por circuitos eletrônicos. Fundo azul — Foto: Folha de S.Paulo

    Economista, foi presidente do Banco Central do Brasil por seis anos. É vice-chairman do Nubank e mestre em economia pela universidade UCLA

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    Ilustração - Fido Nesti/Folhapress · Fido Nesti/Folhapress
    Ilustração - Fido Nesti/Folhapress · Fido Nesti/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Em 1987, o economista Robert Solow cunhou uma das frases mais célebres da economia moderna: "Você pode ver a era dos computadores em todo lugar, menos nas estatísticas de produtividade". A observação ficou conhecida como o Paradoxo de Solow.

    Décadas depois, quando a produtividade finalmente acelerou, nos anos 1990, ficou claro que a revolução dos computadores simplesmente havia demorado mais do que o esperado para aparecer nos números.

    Hoje, diante da explosão da inteligência artificial , a pergunta se repete com urgência renovada: se a IA está transformando a forma como trabalhamos, onde está o crescimento? Se a tecnologia está aumentando a produtividade de certas tarefas em 20%, 30% ou 50%, por que o PIB e a produtividade agregada não estão acelerando na mesma proporção?

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A pergunta não é retórica. Os relatos de ganhos de produtividade com IA são abundantes e impressionantes. Experimentos em atendimento ao cliente mostram aumentos de até 15%. Tarefas de análise e redação reportam ganhos de 25% a 50%. Desenvolvedores de software descrevem aumentos de produtividade ainda maiores em certas atividades.

    A provocação, então, é direta: se empresas de tecnologia (que já representam mais de um terço do valor de mercado americano) estão crescendo 5 ou 10 vezes em produtividade, os modelos econômicos deveriam estar prevendo um crescimento do PIB muito acima do que se observa.

    E, no entanto, a produtividade da economia americana cresceu apenas 0,8% em 2025, segundo o BLS. A previsão para 2026 é de 1,1%, de acordo com o CBO. O número macro parece desconectado dos relatos micro. Por quê?

    A resposta passa por entender como a produtividade de uma tarefa se transforma —ou não— em crescimento econômico agregado. Imagine um programador que dedica 40% do seu tempo a escrever código. A IA aumenta sua produtividade nessa tarefa em 40%. Impressionante, mas o ganho para o trabalhador inteiro já cai para 16%.

    Se apenas metade dos programadores adota intensamente a ferramenta, cai para 8%. Se metade desse tempo economizado se converte em produção adicional —não em pausas, retrabalho ou simplesmente fazer a mesma coisa mais devagar—, chegamos a 4%.

    Depois ainda precisamos ponderar pelo peso desses trabalhadores no produto total da economia. O "ganho de 40% da IA" pode facilmente virar menos de 2% de produtividade econômica efetiva. Esse funil (da tarefa ao trabalhador, da empresa ao setor, do setor à economia) é onde grande parte da promessa da IA se perde no caminho.

    Pesquisa recente do NBER com quase 750 executivos americanos documenta exatamente esse paradoxo: os ganhos percebidos são sistematicamente maiores que os mensurados, possivelmente porque a realização em receita demora mais que a melhora operacional.

    Outros levantamentos sobre adoção reforçam o diagnóstico: apenas 23% dos trabalhadores americanos usam IA generativa ao menos uma vez por semana , e apenas 9% diariamente. Um estudo do Federal Reserve de St. Louis, de 2026, descreve a situação como espalhada por muitas ocupações, mas rasa dentro de cada uma. Alta produtividade condicional ao uso intensivo não é alta produtividade média da economia.

    Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes.

    Há duas grandes explicações concorrentes para essa desconexão. A primeira é a hipótese da curva J, desenvolvida por Erik Brynjolfsson e seus coautores: tecnologias de propósito geral —como a eletricidade no século passado e os computadores nos anos 1980— exigem investimentos complementares antes de produzir plenamente seus efeitos.

    Reorganização das empresas, treinamento, novos processos, novo capital organizacional. A fábrica não ficou dramaticamente mais produtiva quando substituiu a máquina a vapor pelo motor elétrico. Foi necessário redesenhar a fábrica inteira em torno da eletricidade. Talvez estejamos cometendo o mesmo erro ao imaginar que empresa antiga mais IA equivale a empresa antiga 30% mais produtiva.

    A segunda explicação, mais cética, vem de Daron Acemoglu : o efeito macro depende da fração de tarefas realmente afetadas multiplicada pela economia de custos nessas tarefas. Sua estimativa é sóbria: não mais que 0,7% de aumento cumulativo de produtividade em dez anos.

    Ou seja, ou a revolução está chegando, mas ainda não chegou às estatísticas, ou estamos extrapolando indevidamente resultados microeconômicos extraordinários.

    Há uma distinção adicional que raramente aparece no debate público e que me parece fundamental. Mesmo que os ganhos de produtividade se confirmem, é preciso observar se temos um efeito de nível (um salto único que gera alguns anos de crescimento adicional durante a transição) ou um efeito de crescimento permanente.

    Para que a taxa de crescimento do PIB acelere de forma duradoura, seria necessário que a própria fronteira do conhecimento continuasse avançando, porque a IA acelera pesquisa, inovação científica e criação de novas tecnologias. Essa distinção importa. Um mundo em que a IA nos torna mais produtivos de uma vez é muito diferente de um mundo em que a IA acelera permanentemente o ritmo da inovação.

    O que tudo isso significa para o Brasil e para economias emergentes? A pergunta relevante não é apenas se a IA vai ou não transformar a produtividade global. É quem vai capturar esses ganhos e em que velocidade.

    Países que investirem em adoção, qualificação e infraestrutura digital terão condições de aproveitar o salto de produtividade quando ele chegar — e de se posicionar melhor na cadeia de valor da nova economia .

    O Paradoxo de Solow se resolveu: a produtividade dos computadores apareceu, mas levou mais de uma década e exigiu transformações profundas nas organizações e nas instituições. Será que a revolução da IA seguirá o mesmo caminho?

    A questão não é se o crescimento vai chegar. É se estaremos preparados quando ele chegar. Uma outra pergunta é se os preços correntes dos ativos ligados à IA estão em sincronia com essa curva de crescimento. Mas essa é uma discussão para uma próxima coluna.

    LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Na página Colunas da Folha você encontra opinião e crônicas de colunistas como Mônica Bergamo , Elio Gaspari , Djamila Ribeiro , Tati Bernardi , Dora Kramer , Ruy Castro , Muniz Sodré , Txai Suruí , José Simão , Thiago Amparo , Antonio Prata e muito mais.

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/roberto-campos-neto/2026/10/o-paradoxo-da-produtividade-da-inteligencia-artificial.shtml.

    Imagem 1
    1 / 2

    Ilustração - Fido Nesti/Folhapress · Fido Nesti/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)