Brasil

    O motivo para a vergonha de ser brasileiro

    Harvard , a primeira instituição de ensino superior das colônias que dariam origem aos Estados Unidos , foi criada em 1636. Depois vieram Yale, em 1701, a Universidade da Pensilvânia, em 1740, e Princeton, em 1746. Leia mais (08/19/2026 - 20h00)

    Folha de S.Paulo
    19 de agosto de 2026 às 23:00
    O motivo para a vergonha de ser brasileiro
    Mãos seguram garfo e faca cortando alimento em prato com aspargos e purê. Taça com bebida e livro vermelho estão sobre a mesa amarela. — Foto: Folha de S.Paulo

    Escritor, é autor de 'Feliz Ano Velho', 'Ainda Estou Aqui' e 'O Novo Agora'

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    Ilustração de Carolina Daffara para a coluna de Marcelo Rubens Paiva de 20.ago.2026. - Carolina Daffara/Folhapress · Carolina Daffara/Folhapress
    Ilustração de Carolina Daffara para a coluna de Marcelo Rubens Paiva de 20.ago.2026. - Carolina Daffara/Folhapress · Carolina Daffara/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Harvard , a primeira instituição de ensino superior das colônias que dariam origem aos Estados Unidos , foi criada em 1636. Depois vieram Yale, em 1701, a Universidade da Pensilvânia, em 1740, e Princeton, em 1746.

    Em 1647, em Massachusetts, foi aprovado o ato que obrigava condados com um certo número de famílias a manterem escolas públicas. O educador abolicionista Horace Mann transformou o país a partir de 1837, garantindo escolas não sectárias, gratuitas e financiadas pelo Estado.

    É o pai da reforma educacional laica, que se espalhou pelos Estados Unidos. Quer passar vergonha de ser brasileiro? Quando o Brasil declarou a sua independência em 1822, a América espanhola já tinha 22 universidades.

    Veja imagens da USP, primeira colocada no Ranking Universitário Folha 2025
    Veja imagens da USP, primeira colocada no Ranking Universitário Folha 2025 — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Em 1538, foi fundada a Universidade de Santo Tomás de Aquino, na atual República Dominicana . Em 1551, surgiram a Universidade Nacional Maior de San Marcos, no Peru , e a Universidade Real e Pontifícia do México . A de Bogotá foi fundada em 1580. A de Sucre, na atual Bolívia , em 1624. A Universidade de San Carlos, na Guatemala , em 1676.

    A primeira universidade da Argentina foi a de Córdoba, de 1613. A notória Universidade de Buenos Aires é de 1821. O general Manuel Belgrano, um dos líderes da independência argentina, derrotou forças monárquicas, recebeu indenização e destinou o dinheiro à construção de escolas.

    A grande transformação do sistema educacional argentino se deu com Domingo Faustino Sarmiento: a Lei 1.420, de 1884, estabeleceu educação primária obrigatória, gratuita, acessível a meninos e meninas.

    Problemas na UFRJ, a universidade mais antiga do Brasil
    Problemas na UFRJ, a universidade mais antiga do Brasil — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    No Brasil, a primeira universidade foi fundada apenas em 1920, a Universidade do Rio de Janeiro , hoje a UFRJ . Apesar de São Paulo ter sido fundada em torno de um colégio, a Universidade de São Paulo, a USP , é de 1934. O país ficou para trás. O sistema educacional público foi organizado depois de 1930.

    Educação nunca foi prioridade para a elite que nos governou. O Brasil pode não ser melhor ou pior do que outros, mas seria melhor do que nos transformaram.

    Depois de se assistir à série "The American Experiment", disponível na Netflix , pode-se considerar a independência de lá uma reviravolta na história das nações. Foi inventada a democracia moderna, sem modelo anterior a seguir, numa convenção em 1787 na Filadélfia.

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Eram 55 delegados representando 12 estados. O que se tinha anteriormente como exemplo era uma suposta democracia na Grécia antiga e a república do Império Romano, experiências que fracassaram.

    O general George Washington, herói da guerra contra os ingleses, presidia as sessões. Precisavam decidir sobre impostos, moeda, o dinheiro que deviam à Espanha , à França , aos Países Baixos e ao Exército, que quase se desfez sem soldos, e educação.

    Era uma colagem de ex-colônias cercadas por impérios ricos e poderosos. Sugeriu-se dividir o poder em três, inspirados em Montesquieu: Executivo, Legislativo e Judiciário.

    Algo novo era criado, num mundo regido por tiranias. Dividir o Legislativo em Câmara e Senado garantiria que estados populosos não dominassem os menores, mantendo o autogoverno.

    Não era uma democracia perfeita. Mulheres não votavam.

    Negros escravizados não eram considerados cidadãos. Indígenas estavam excluídos. Mas havia ali a ambição de criar instituições capazes de organizar o poder.

    Depois da Independência do Brasil, um abaixo-assinado com 8.000 assinaturas pressionou por uma constituinte. Em 1823, 52 representantes das províncias começaram a se reunir no Rio de Janeiro para escrever a primeira Constituição do novo país.

    Havia matemáticos, juízes, promotores, militares, advogados, até padres. José Bonifácio de Andrada e seus irmãos defendiam a monarquia constitucional. Foram introduzidas leis progressistas, como as que queriam enfrentar a escravidão, instituir liberdade de imprensa e criar universidades em cada comarca.

    A primeira Constituição brasileira, redigida por Antônio Carlos, irmão de Bonifácio, foi engavetada. Em novembro de 1823, os representantes dos estados foram cercados por militares e afastados. Os irmãos Andradas foram presos e exilados.

    No livro "O Primeiro Golpe do Brasil", Ricardo Lessa destrincha nosso fracasso ao mostrar como o imperador dom Pedro 1º empastelou a constituinte, prolongando a escravidão e a desigualdade, afastando o país da modernidade, e como seu filho Pedro 2º, em simbiose com uma elite atrasada, deu-lhe salvaguardas.

    A grande questão histórica é que o Brasil começou a ter escolas muito cedo, mas demorou quase quatro séculos para transformar a educação num sistema público de massa. Que segue ameaçado.

    Não é preciso ter vergonha de ser brasileiro. É preciso ter vergonha do que fizeram com o Brasil.

    LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Na página Colunas da Folha você encontra opinião e crônicas de colunistas como Mônica Bergamo , Elio Gaspari , Djamila Ribeiro , Tati Bernardi , Dora Kramer , Ruy Castro , Muniz Sodré , Txai Suruí , José Simão , Thiago Amparo , Antonio Prata e muito mais.

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marcelo-rubens-paiva/2026/08/o-motivo-para-a-vergonha-de-ser-brasileiro.shtml.

    Imagem 1
    1 / 4

    Ilustração de Carolina Daffara para a coluna de Marcelo Rubens Paiva de 20.ago.2026. - Carolina Daffara/Folhapress · Carolina Daffara/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)